Estórias em rimas mistas(ou não). Poema 1: o conto da princesa.
Era uma princesa
muito respeitada,
Tinha graça e beleza
nunca superada,
Princesa única da corte,
já sem rainha,
Ao rei chegava a morte,
de casar-se ela tinha.
Eis que, ao seu castelo,
sua sorte lhe mandou
Um príncipe nobre e belo
por quem se apaixonou,
Casou-se na mocidade,
aos quinze somente,
Engravidou em baixa idade,
ainda adolescente,
Outros quinze anos foi feliz,
e também sua terra,
Mas eis que o marido lhe diz:
- Tenho de ir à guerra.
Foi-se abaixo de pranto
da mulher e dos herdeiros,
Deixou-lhes só o seu manto
e alguns poucos guerreiros,
Na guerra foi derrotado,
não viu quem o matou,
Seu pescoço foi cortado,
sua cabeça voou,
Seu súditos foram dominados,
sua mulher, capturada,
Seus filhos foram separados,
a casar-se era obrigada,
Foi à força, pois não queria,
o noivo não amava,
Obrigou-a a escravaria
que seus cabelos puxava,
Na noite de núpcias se ouvia
a princesa chorar e bradar,
E, quase implorando, dizia:
- Não quero de ti, engravidar.
E, aquele homem, à mão,
deixou a princesa calada,
Seu corpo, puxou de arrastão,
A princesa foi estuprada,
E, até o filho ter por nascido,
viveu como uma propriedade,
Dos seus filhos e marido,
restou-lhe só a saudade,
Seu novo esposo a batia,
xingava e agourava,
E a fez duma iguaria,
que à noite desfrutava!
Sofreu de grave sangramento
no dia que o filho nasceu,
Deu-se o fim do sofrimento,
durante o parto morreu.
Eis a história de uma monarca
cujo nome se perdeu,
Que a história não abarca
o reino que era seu,
Nasceu, viveu, cresceu,
amou e se casou,
Chorou, sofreu e morreu.
E assim a história acabou.
As pessoas da pós-modernidade e suas psicologias.
Quem aqui muito se estima, o estimado não o é.
Quem o amor muito dissemina, não ama ninguém.
Quem aos pobres muito se dirige, muita avareza tem.
Quem muito a Deus reza, quase sempre não tem fé.
Se muito aqui há belos sorrisos, também há xingamento.
Se muito aqui há conhecimento, também há alienação.
Se muito aqui há cumprimento, também há exclusão.
Se muito aqui há empatia, também há enforcamento.
O bom professor é bom porque não ensina.
O bom poema é bom porque não significa nada.
O bom português é bom porque a regra é mal aplicada.
O bom pensador é bom porque doutrina.
As pessoas que mais do óbvio falam são inteligentes.
As que falam sobre o corpo, não largam as colheres.
As que mais se prostituem são grandes mulheres.
As que pregam a moral são um bando de dementes.
Se tu constróis alguma lógica, mais precisas estudar.
Se tu tens bom argumento, é teu corpo que dirá.
Se tu queres ter razão, traz teus traumas para cá.
Se tu queres uma boa tese, tens de aos ouvidos agradar.
Por fim, não mais escrever quero, cansei minha mente.
Por fim, não mais falar vou, por escrever muito me irritei.
Por fim, por mais que queira, de xinga-los eu não hei.
Por fim, despeço-me, sem me rebaixar ao nível dessa gente.
A epopeia sem heroi.
Em um tempo cujo hoje é inimaginavelmente antigo.
Existiu um homem cujo todos os historiadores.
Buscam sem trégua o nome que carregava consigo.
Um homem cujos cabelos e pele não possuem cores.
Um homem cuja língua é tão antiga quanto ele.
É deste homem a história que aqui se passa.
Este cuja a vida foi de todos os confortos escassa.
Cujo a própria mãe não podia dizer o nome dele.
Pois esta não existia, seu berço foi a simbiose.
De um conglomerado de moléculas e proteínas.
Metais, ácidos, enxofre, oxigênio em grande dose.
Água, muita água, e outras soluções alcalinas.
Este cujo foi o heroi de sua própria terra solitária.
pois não possuia outro para assumir este papel.
Teve de viver sob a sentença triste e cruel.
A qual toda a esperança de seu ser mataria.
Mas havia, neste ser, algo que lhe firmava no chão.
Algo cujo não poderia esquecer, quisesse ele ou não.
Seus anseios oriundos de suas novas estruturas.
A fome e a sede, que foram suas primeiras torturas.
E com certeza as primeiras palavras da existência.
E então este homem lavantou-se de seu berço de barro.
Catou em sua mão uma madeira, deu o primeiro escarro.
E então foi aventurar-se sem nenhuma experiência.
Nas trevas do mundo sombrio no qual havia nascido.
Nunca tinha visto tão grandes matas, nunca havia nada
Antes visto,nunca tinha visto grama tão relvada.
Nem bicho que com suas garras o tivesse ferido.
Voltou para a sua gruta então, sangrando e faminto.
Quando se deparou com algum bicho de um palmo.
E atirou-se sobre ele, espalhando sangue no recinto.
Após este momento grotesco, ele ficou mais calmo.
Sentou-se, e com o primeiro arroto de sua curta vida.
Que por tão pouco não houve de estar para sempre perdida.
Pensou em como poderia tratar de seu braço rasgado.
Se é que sabia que estava pensando enquanto o fazia.
De certo é que seu corpo era para tais danos preparado.
Pois o sangue que dele saia, pouco depois não mais saía.
Deitou-se então, para que pudesse melhor descansar.
E para que a dor já fraca em seu braço pudesse passar.
Foi então que algo mais uma vez houve de perfurá-lo.
Uma pedra pontuda que no chão haveria de ter ficado.
Foi então que ele pensou: "se eu fui por isto perfurado.
Se ao pescoço do outro bicho fizer, hei de matá-lo".
Foi então que, munido desta pedra, saiu de sua gruta.
Buscando aquele que o havia vencido na primeira luta.
Não demorou muito para que achasse sua vingança.
Mas não o encarou de frente, fez juz a sua possança.
Furtivamente andou e escondeu-se no matagal.
Mirou a pedra de forma que lhe pareceu certa.
Acertou-a com sua parte pontuda na zona laringal.
O rugido, sem ar, se reduziu a uma respirção discreta.
O sangue espalhou-se pela relva em seu último suspiro.
E o homem, feliz pelo seu magnificentíssimo tiro.
Corre para buscar o animal e levá-lo para o seu lar.
Eis que, no caminho ele encontra, a perfeição angular.
As curvas que, por algum motivo o enlouqueceram.
Aquele ser que, sendo parecido consigo, tem toda a beleza.
De todas as flores que neste mundo já floresceram.
Ou melhor, era disto que a sua luxúria dava certeza.
Pois tão suja e tão machucada quanto ele ela estava.
Mas ele descobriu pela primeira vez em sua vida.
A força que sua engenhosidade faz por perdida.
As forças reprodutivas o martelavam como uma clava.
Exibiu então o animal que havia derrubado.
Ela, também faminta, cede ao desejo de sua barriga.
Tendo então a vontade da fome e da sede saciado.
Após um breve descanso, cedem àquela que não mitiga.
Deitaram-se emaranhados, como os animais o faziam.
E descobrindo o gosto da luxúria, de prazer ele berra.
E nestes movimentos libidinosos por onde eles iam.
Origina-se a pior espécie que já houve de habitar a terra.
Ruins estes versos, piores são estes tempos.
Há uma realidade terrível que a mim e a todos cerca.
Há um medo indescritível e uma sensação cujo nome.
Tem seu antônimo repetido voraz e incansavelmente.
Mas não há esse que, ao tentar obtê-la, não a perca.
Pois, não há esse que não perca para própria fome.
Não há esse que a boca não toca se lhe dói o dente.
Todos! Todos nestes tempos estão submissos a esta.
Esta sensação tão corriqueira, mas que hoje tortura.
A todo dia, a toda hora, ao falar, ao comer, ao beber.
Tornou-se parte integrante da pessoa que me resta.
Sempre rezo, sempre espero e isto sempre perdura.
A tempos nada adianta, me enche de ira este saber.
Esta insegurança. Não! Esta ansiedade. Não!
Este medo. Não! Esta vontade. Não! Esta saudade.
Não sei o que éao mesmo tempo sei, são todas.
Não sei o que são estas pragas, mas elas hão.
De deixar-me averso a minha mais humana vontade.
A de viver, ou sobreviver, a estas calhas de rodas.
São tempos onde o dia é mais escuro que a noite.
São tempos onde eu não sei dizer o que vivo.
São tempos onde o que se viu não se vê mais.
São tempos em que a solidão serve de açoite.
São tempos onde de muitas felicidades me privo.
A morte anda contigo não importa onde tu vais.
São dias onde a matemática torna-se uma inimiga.
Todos os números, fórmulas, teorias e teoremas.
Não são capazes de quantificar absolutamente nada.
Pois, não há número, fórmula ou teorema que consiga.
Dizer o que nem os mais tristes de todos os poemas.
Conseguiram, não há palavras como a lágrima salgada.
A informação é, ao mesmo tempo, heroína e vilã.
A solitude é, ao mesmo tempo, dolorosa e necessária.
A insegurança é, ao mesmo tempo, chaga e vida.
E minha mente é, ao mesmo tempo, louca e sã.
Por isso escrevo esta que é de formalidades, precária.
Esta lira que de toda minha repudia é preenchida.
O que dirá o homem se manda-o fazer uma escolha.
Entre a integridade e a fome? O que dirá este fraco ser?
O que fará aquele que se percebe numa vã encruzilhada?
Aquele que não importa para onde, em desespero, olha.
Vê algo que lhe cega e o outro canto não pode ver?
A escuridão é o que lhe aguarda, só ela e mais nada?
Tu, que vives num tempo muito à frente do meu.
Se por algum fruto do acaso ou de curiosidade.
Ou se estes meus versos foram deveras lembrados.
Se a estes versos a tua preciosa atenção se deu.
Agradeça pelo que vive, agradeça de verdade.
Ou podes chorar, se forem ainda menos abastados.