Igor Roosevelt

Igor Roosevelt

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OS MORTOS

Em que os mortos pensam, nessa noite

Sem fim em que se deitam e que se perdem?

A quem os mortos amam nos seus sonhos

Isentos de sentido e de sabores?

A morte priva os mortos de carpir

Mas rouba-lhe as mãos de trabalhar.

Se os mortos não tem boca pra sorrir

Também lhes faltam olhos pra chorar.

Os mortos não entendem ontologia

Os mortos não vasculham bibliotecas

E nem recitam versos ao luar

O coração dos mortos é um castelo

Sem hóspedes e sem anfitrião

Onde a saudade nunca pode entrar.

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Poemas

43

BALADA PÓS-ROMÂNTICA

Para Rafaela Duccini


Ela chegou de repente
Onde há tempos estava
Expulsando a sujeira
E o vazio da casa

Só vivia escondida
Nesses cantos da vida
E sofrendo calada
E chorando sozinha

A menina era bela
E estes olhos sabiam
Mas não olhavam pra ela
Como deveriam

E ela andava na noite
E cantava e sorria
Sua rara alegria
Qual se fosse madura

Como tudo era breve
Mais que a brisa mais leve
Seu amor tão escasso
Era breve também.

Não sei como eu sabia
Que da força do dia
Vinha um raio mais claro
Me fazendo ir além

Da distância tão grande,
Das florestas, dos montes
E de mil horizontes
Que zombavam de mim.

Ela era tão linda
E estes olhos sabiam
Que era assas perigoso
Encara-la nos olhos.

Como a chuva que chega
Numa tarde de sol,
Como um barco que avista
De repente um farol,

Assim foi que ela veio
Onde há tempos estava,
Libertando minha alma
De tristezas escrava.

Mas uma coisa ficou
Nos seus olhos sombrios:
Seu coração é um porto alegre
Onde só cabem dois navios.

Mas ela era tão linda
E meu coração sabia
Quem sem ela por perto
Eu não mais viveria.

Mesmo estando tão triste
Como um rio sem leito
A lembrança no peito
Concedeu-me o perdão.

Ela foi se aninhando
Onde nada restava,
Anulando a tristeza
E o vazio da alma.

Ela é um receio
Que me torna mais forte.
Ela é minha vida
E também minha morte.

Ela é minhas asas
Quando pairo no ar...
Ela é, ela foi,
Ela sempre será.

Mas uma coisa ficou
Em mim sem ela saber:
Seu abraço é a terra
Onde eu hei de morrer...
468

SONETO 666

Anjo caído da suprema altura,
Gênio das artes, da Sabedoria,
Invoco o esplendor da tua figura,
Enchei minha caveira de Poesia.

Anjo exilado, Pai da Rebeldia,
Somos iguais, Irmãos na Desventura.
Eu, que oscilo entre a vida tão vazia
E a solidão atroz da sepultura.

Anjo de luz e de clarões sidéreos,
Conheces os mais íntimos mistérios
Que encerram as fronteiras do Universo,

Mostra o caminho para eu ir além...
A inspiração que só de Ti provém...
Dai o toque de Midas no meu verso.
467

QUANDO OS CORVOS CHORAM

Quando ele estende
A negra envergadura
Sobre a face do abismo
E o gosto das alturas
Definha no seu peito,
É hora de dizer adeus.

Quando a noite não traz
Na fria face de breu
A recôndita ausência
Dos males do mundo.
É hora de dizer adeus.

Quando ele vê brotar
No coração afeito à luta
Uma dor maior que o suportável
E vê rolar na face
A lágrima de ferro,
É hora de dizer adeus...

Quando até mesmo o céu
Lhe nega o refrigério
Que, malogrado, desistiu
De procurar na terra,
É hora de dizer adeus...

Mas não! É cedo!
Inda nem desmaiou a luz do dia...
Mas quando até mesmo os corvos choram,
Querida, é hora de dizer adeus.
436

SONETO DO AMOR VAGABUNDO

'Meu coração vagabundo

Quer guardar o mundo em mim'

(Caetano Veloso)


Tão grande é o meu amor para entregá-lo

A uma pessoa só no vasto mundo.

Não pode do luar o branco halo

Esgotar a si próprio num segundo,


Nem pode o grande Sol iluminar

Na Terra inteira um único vivente,

Tampouco poderia ser o mar

De apenas uma nau benemerente.


Não chame o meu amor de falsidade

Pois nunca ouvirá maior verdade

De alguma outra pessoa neste mundo.


Por isso que esta noite eu te dedico,

Nos versos de um soneto impudico,

Meu coração, embora vagabundo.

605

AUTO-ANAMNESE

Descobri
Que não sabia escrever
Quando percebi
Que não sabia rimar
Amor com dor.

Descobri
Que não sabia viver
Quando percebi
Que não sabia sofrer
Nem sabia sonhar.

Descobri, enfim
Que não sabia amar
Quando percebi
Que não sabia rimar
Solidão com amor.
415

DUELO

Aqui nós estamos
Armados somente
Com a espada do olhar
Em nosso diálogo
Envolto em silêncio
Travamos duelo
Clarões de relâmpagos
Na escuridão

Quem perde, quem ganha,
Jamais saberemos
Olhares são armas
Que ferem por dentro
E fica o soldado
Sorriso no rosto
Sentindo sua alma
Esquartejada
493

NICOTINA

'Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los

E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos'

(Álvaro de Campos/Fernando Pessoa)



Preso em meus dedos um cigarro ameno

- Tragos de tédio e brasas de desejo,

Destilando o cilíndrico veneno,

Tendo a morte e o prazer no mesmo beijo.


Se adelgaça no ar o doce fumo

Como fosse uma etérea serpentina

Nada importa, se agora me consumo.

Em minhas veias corre nicotina.


'Tu morrerás!', 'E eu não duvido', digo.

'Tão triste é perder novo um grande amigo'

E eu me disperso nesse lento crime...


Nada mais justo, minha doce irmã,

Trocar uns dias de uma vida vã

Por uns minutos de prazer sublime

446

TRISTEZA

Ando ferido de mortal tristeza.
De uma tristeza funda e sem sentido
Como se no meu peito dolorido
Um punhal se cravasse com frieza.

A tua mão é bálsamo e alento
Para a minha alma triste e angustiada,
Quando, sozinha, ela sonha o Nada,
Querendo as lajes ao sabor do vento.

Minha tristeza é noite que se esfuma
E dilacera as fibras, uma a uma,
De um coração que vive insatisfeito.

Mas teu amor é luz imaculada,
É faca que degola a madrugada,
Alvorada que explode no meu peito.
393

MADRIGAL II

Anjo exilado do celeste abrigo,
Que à Terra trouxe o teu sublime encanto,
Ouve as palavras deste pobre amigo
Que te admira e que te adora tanto.

As noites passo a cismar sozinho
Se há no mundo alguma coisa bela
Que merecesse a flor do meu carinho
E eu merecesse a do carinho dela.

Aceita os pobres versos de presente
Que foram escritos com ternura tanta.
São explosões que surgem de repente
Das confissões que guardo na garganta.

Difícil é crer que há no mundo alguém
Tão linda e tão perfeita quanto és.
O astro mais belo que o céu retém
Nem mesmo chega-te ao dedão dos pés.

Se eu ver-te assim, a caminhar na areia,
Tão graciosa na beira do mar,
Diria se tratar de uma sereia
Que a terra seca veio visitar.

És mais bela que os raios da manhã
Quando desperta o Sol do seu sono profundo.
Maior que Michelangelo e Rodin
É o escultor que te plasmou no mundo.

Que ágeis mãos teu corpo deram forma?
Quem foi o teu augusto artesão?
De quais modelos, qual padrão, qual norma
Foi imitada a tua perfeição?

As roseiras de ti sentem ciúme,
As estrelas invejam teu sorriso,
A beleza em teu rosto se resume,
És pedaço fatal do Paraíso.

Não é mais bela a joia mais brilhante
Do que teus olhos, posso assegurar.
Até mesmo o mais caro diamante
Não brilha como brilha teu olhar.

O olhar, quando te encontra, se demora.
Diante de ti o ocaso se intimida.
Mesmo a Lua, tão bela e encantadora,
Lamentaria, se tivesse vida.

Pra essa beleza já não há rival
Entre os seres criados e incriados.
Na cristalina esfera celestial
Pendem anjos por ti enamorados.

No entanto, eu nada tenho a oferecer-te
Em paga aos sentimentos que despertas.
Tenho apenas a lira, a mão inerte,
E um peito cheio de chagas abertas.

Anjo exilado da celeste altura,
Aceite os versos de doçura e fel,
Que os leia e pense neles com ternura
E lembre do teu triste menestrel.


458

NÃO HEI DE ALARDEAR O MEU AMOR

Não hei de alardear o meu amor
Nem o divulgarei pelos jornais.
Pois meu amor é meu tesouro oculto
Que eu mantenho bem longe dos chacais.

Não vou gritá-lo aos quatro ventos, não,
Não vou pichá-lo nas paredes nuas.
Só no meu peito é que ele encontra alento
E nos meus versos é que beija a glória.

O meu amor é meu, de mais ninguém.
Ostentem os seus, como se fossem adorno
De uma vida vazia e sem sentido.

O meu amor é minha estrela errante,
Ave, suspiro, vinho delirante,
Mais linda flor do meu jardim secreto.
443

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