Lista de Poemas
Da Fisicalidade
Da Fisicalidade
Resseca uma clepsidra que se hastilha,
Sequaz da Galatea (1) marmorizada,
Hebeta-se em atimia, evola-se e nada
Lhe lidima uma Becky (2) por cartilha.
Entretanto o capcioso fluir dedilha...
Em distopia, o condir, em adversão afiada
À flama de um efésio (3), onde arde a mónada.
Em aporia, o devir lanha qual cilha.
Verberada, a centelha auroresce ainda
Numa "navalha de Ockham" que não ensarta
O adiáforo. É somente um áster que blinda
O exostro de Prosérpina ou do eleata (4).
Conquanto sem as Dioneias-lua de Melinda (5),
Locupletada n'êxedra de Marta (6).
(1) OVÍDIO, "Metamorfoses", 8 d. C.
(2) THACKERAY, William Makepeace "Vanity Fair", 1848
(3) Heráclito de Éfeso
(4) Zenão de Eleia
(5) VIEIRA, Alice "Flor de Mel", Lisboa, Editora Caminho, 1986
(6) VIEIRA, Alice "Os Olhos de Ana Marta", Lisboa, Editora Caminho, 1990
25/12/2020
Infrene
Infrene
"A arte termina na forma, mas é na emoção que começa."
FERREIRA, Vergílio “Arte Tempo”, edições rolim
Fúlmen, Plutão, borrasca, saraivada,
Taranis de Lucano que abalroa.
Alopsíquica, norte, eixo ou genoa?
Voragem insana que insta a mente alada.
Na fímbria dos meus dedos, quente, ateada,
Ela freme, no enlevo, ábsona soa
A toada, como intrínseca garoa,
Incoa a reivindicar voz n'alvorada.
Geometrizo-a em criação ilocucional,
Adstrinjo-a, tecnicizo-a em fria escansão
Aflo a sublimidade com a qual
Balizar a invernia, a febre de então.
Expugno o caos babélico afinal
À infrene, incompta, incôndita - a emoção.
19/01/2020
Mnemónica de Abraão
Mnemónica de Abraão
Mnemónica de Abraão em Canaã aventada,
Troveja a selva urbana embravecida.
Torvelinho, Betel. Enfim, a vida
Impele, propulsiona. Desterrada.
Clade d' Avalon(1), ruína, qual errata
À vista? E, só, em deserto amanhecida.
Ressurge-me no espaço-tempo a Vida
De mim, a Melusina mais abstracta.
Palingenesia embraia sob tais ventos,
Qual fiorde em tessituras desumanas
E laudativamente nos(2) reinvento
A fim de nos mantermos em hosana.
Não consinto em quedar-me comummente
E assim me transfiguro em inumana.
(1) do mito celta de Melusina
26/11/2016
Sem Norte
Sem Norte
"O destino marcou-nos com o sinal dessa procura e em todos os recantos de existirmos ele se manifesta."
FERREIRA, Vergílio “Arte Tempo”, edições rolim
Marmórea a Mnemosyne, eu nua em espuma
Impoluta, fremente ranjo os dentes,
Mordo arrepsia acerada qu'entrementes
Implexa, me atordoa. Imerjo enquanto uma
Bússola me evanesce e mais nenhuma
Efígie reverbera tão fielmente
Senão uma rosa branca, e de repente
Dissolvo-me - sou cinza que avoluma.
Sem Monte Horeb ou Porto, neptuniana
Bissexta brisa, véu d'alteridade
No espelho em estertor que me profana.
Túrbida a Cifis rasga-me dentro e há-de
Abjugar na memória uma atra liana.
Sou Medusa sem Norte, nome ou idade.
21/12/2019
Em Chamas
Em Chamas
Na noosfera de Caíssa em "Scacchia Ludus",
Adeja um equilibrista na neblina.
Mistral, abscinde ameias em agoge hialina
Ensambla Galahad, sulco denudo.
Proceloso, abalroa fátuos entrudos.
E, róscida, colima-o a guilhotina...
Ipso facto do alvor que ele insemina
Num "Mabinogion" fósmeo, vão. Contudo
Ao estrondear como Thor urgisse atrás
Aos que intentam ilaqueá-lo em crase soez,
Coruscado, extar-se-á, se rarefaz,
É Fénix que prorrompe sob o jaez.
Na pena de Troyes*: xeque ao rei, o último ás
de omni re scibili (et quibusdam aliis).
* Chrétien de Troyes
16/11/2020
(In)Consertável
(In)Consertável
“The horror! The horror!”
CONRAD, Joseph "The Heart of Darkness", 1899
Mnemónico delíquio em lemniscata
Em sangue, rúptil pétala ferida.
Pétreo, sevo azimute sem uma saída
Deflagra-se imanente ainda hoje a cada
Melodia ou conjunção, o breu não difracta.
Nímia obnubilação n'alma despida.
Quis submergir a própria névoa em vida
E desacontecer. Nefelibata
Num imo de flashbacks redemoinhado,
Num tétrico silêncio frio babélico,
Em fragmentos, delir, não ser, e ao lado
Da infância o rio, comparsa vão pretérito,
Medrava um pulcro aceno enfim inumado.
Núbilo, "o coração re-escrito em sânscrito" (*)
(*) Elizabeth Barret-Browning
24/02/2020
Ancoragem
Ancoragem
Numa íntima hermenêutica em assimptotas
Como em Blake, os sentidos vibram nus.
Entoadas "Songs of Innocence" efluem dos
Que se inspiram e expectam nas remotas
Conceptualizações míopes ignotas.
Quando a paúlica bruma é o que seduz,
Jazem numa ocarina sem mor luz.
E enastrá-los-ão vãos setes de copas.
Rousseau ou Diderot? Lucy (*) em viés trilhado
É arqueu, arrebol nas fragas da selvagem
Fé, é dilúculo enquanto rolam dados,
Seiva, rosa dos ventos aos que geiem
Pusilânimes, pênseis dos sóis nados,
Perseide qu' imaniza p'la (an)coragem.
(*) WORDSWORTH, William - She dwelt among the untrodden ways. In "Lyrical Ballads", 1800
09/04/2020
Lâminas por Pétalas
Lâminas por Pétalas
Encapeladas lâminas girando
A toda a minha volta. Fluxo flébil
Hiante de outrora, afã consumpto estéril
Duma ausência afinal presente, instando
Júbilo da verdade revelada,
Novamente impassível ao rolar
do Tempo. Conjugado o verbo amar,
Presente sempiterno, visitada
Inopinadamente, no acro em mim.
Abaluarta-me a essência tua atinente,
De pétalas de mil cores sem fim.
Lépido, trocas lâminas cortantes
Pela hossana de pétalas enfim
Até ao diedro feliz d'eternamente.
escrito em 2009 (em memória do Peter Pan - gatinho de estimação)
Lunissolar
Lunissolar
"Frio feito de calor"
RITUAL TEJO. "Frio". Perto de Deus. Warner Music Portugal, Lda. 1992. CD
Se um doldrum em fetch (1), "kénoma", revessa
Na doxografia (2), no éon, "eikon" d´Atlante -
- Reverbere em dilúculo. Perante
Um "exoterikoi logos", o az (3). Dessa
Ima anfibologia, como que vessa (4)
Por "hegemonikon", no eoo, o que acalante (5).
Se antiteticamente (6), doravante
Deneb Adige (7) fulja Efraim de Edessa (8).
De "homoiosis" e jade se perfaz.
Iriado em "magnum opus" surde e adensa (9) (10).
Alvora em citrinitas no "dyás" (11):
"Minimus gutti flumina inmensa
Crescere" (12). D'Alpha Draconis (13) feraz.
"Rohé" (14) - na ubiquidade (15), em renascença (16).
(1) AUTOGRAPH. "Run For Your Life". Beyond. 2022
Disponível em: <https://www.mixcloud.com/PauloRNS/rock-n-stroll-15/>. Acesso em: 3 nov. 2024.
(2) RITUAL TEJO. "Perto de Deus". Perto de Deus. Warner Music Portugal, Lda. 1992. CD
(3) ADRIANGALE. "The Black and Blue". Suckerpunch. 2013
Disponível em: <https://www.mixcloud.com/PauloRNS/rns16/>. Acesso em: 3 nov. 2024.
(4) RITUAL TEJO. "Anti Amor". Três Vidas. 1999. CD
(5) GEDEÃO, António - Impressão Digital. In "Movimento Perpétuo", 1956
(6) ANDRADE, Eugénio de - As Amoras. In "O Outro Nome da Terra", 1988
(7) Alpha Cygni
(8) "(...) das trevas para a luz, de um espaço estreito para o vasto universo"
EFRAIM "Hinos Sobre o Paraíso", Nísibis, 325
(9) RUSS STAFF. "Walk Between The Lines". Russ Taff. 1987
Disponível em: <https://www.mixcloud.com/PauloRNS/rock-n-stroll-23/>. Acesso em: 14 nov. 2024.
(10) "E o justo como o perverso, nascidos do pó, em pó se tornam."
QUEIRÓS, Eça "A Cidade e as Serras", Lello & Irmão, 1901
(11) RAMOS, Eunice "A Vida Precisa de Calma"
(12) HISPALIENSIS, Isidorus "Sententiae", séc. VII
(13) a estrela polar norte em 3000 a. C.
(14) YIRUMA. "River Flows In You". The Best Reminiscent 10th Anniversary. 2001
(15) João16:33
(16) Jó 22:28
Agradecimentos:
- aos que, comprometidamente, "(...) do Alto, (...) invisíveis dedilham sutilmente os cordéis conscienciais que ativam (...) inspirações."
BORGES, Wagner D. "Falando de Espiritualidade", Editora Pensamento-Cultrix Ltda., 2002
Êxodo 4:12
- ao Paulo Costa - dos Ritual Tejo (que finalmente voltaram!), do Rock 'n' Stroll na 105.4 FM Cascais todas as quintas às 22h - hoje!
> pela perseverança, pela constância. pelo entusiasmo;
> pelas contribuições, neste caso, nas notas: (5), (6), (8), (10), (11), (13) e (14)
14/11/2024
D' imaterial
D' imaterial
"Luta com todas as armas que tens
E não te rendas por quaisquer vinténs"
RITUAL TEJO. "Anti Amor". Três Vidas. 1999. CD
Perimem cacodaemons (1) em ladeira
D'anfibolia (2). Libenter. Diocesine (3)
Em transdução letífica. Ao que omine
A exegese, a "Institutio" (4) derradeira
De scheelitas nigela. Hormes requeira
A Eniatos, a Denebola ou a Racine (5)
O algoritmo antinómico (2). Retine (6)
Menkar (7). Por Formalhaut, p'la tamargueira
Ou transcendentalmente um massalote
De kalos kai agathos (8), p'la geonemia,
Fulgenteie, redescenda. Sacro, plote.
E, factum et transactum, lateria
N'endoxa ou no quid (9). Tsui'goab d'hotentote -
- Reg ou cosmovisão? Na hierofania (10).
(1) BOCAGE, Manuel Maria Barbosa du - Meu ser evaporei na lida insana. In "Poesias de Bocage", de Margarida Barahona, Lisboa, Seara Nova, 1978
(2) KANT, Immanuel "Crítica da Razão Pura", 1781
(3) RITUAL TEJO. "Quem És Tu?". Oitentaenove.01. 2012. CD
(4) QUINTILIANUS, Marcus Fabius "Institutio Oratoria", 95
(5) RACINE, Jean - Sur le bonheur des Justes... In "Cantiques Spirituels", 1694
RACINE, Jean - A la louange de la Charité. In "Cantiques Spirituels", 1695
(6) HALMSHAW, Iris Grace - The World Beyond Those Curtains, 2023, tinta de água e acrílica sobre papel aguarela; 55 x 75 cm
(7) THEODORE, Ruth. "Barbed Wire Fence". I Am I Am. Eli Crews. 2024
(8) XENOFONTE "O Banquete", 380 a. C.
(9) RITUAL TEJO. "Três Vidas". Três Vidas. 1999. CD
(10) DUARTE, Aldina. "Primavera". Metade-Metade. 2024
Agradecimentos:
- aos que, perfeitamente, "(...) do Alto, (...) invisíveis dedilham sutilmente os cordéis conscienciais que ativam (...) inspirações."
BORGES, Wagner D. "Falando de Espiritualidade", Editora Pensamento-Cultrix Ltda., 2002
- ao Paulo Costa, dos Ritual Tejo (e voltaram!...):
> pelo tema e pelas músicas em (7) e (10)
> para o (próximo soneto) "Arrebol": pelos poemas "Prece" e "Escuto" de Sophia de Mello Breyner Andresen; pela música "Face Your Fears", de Mimi Belle; e pela música final (surpresa)
> para o (soneto seguinte) "Crer": pela música "Under Control", de Drea LP, e mais...
> por partilhar o gosto por Eugénio de Andrade
> pelo tema seguinte ao "Crer": "Albedo"
05/04/2024
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