Lista de Poemas

Luas duplas

Venho de boemias sem fim
Marcada que estou de chorar
Em bares e banheiros - altares de quem ama
E onde um dia fui
Verter prantos e cantos de certo pesar.

Sou aquela que ama em agonia
E escreve nas mesas poemas ao seu amor
Na paixão lancinante que devora.

Que ri clamando razão entre tragos de algum conhaque barato
Embriagando o senso de êxtase e torpor,
Mas tudo o que lava, lanha e sangra a vero carne

Leva-nos, enfim, concisos a crer
Que muito mais vale
Rastejar em sarjetas nuas,
Bebendo o néctar das luas duplas,

Renegado que se fica de si
Que dormir sem ver a noite morrer.

362

Sentidos

Combinas bem comigo,
pois és alegria
espera certa e primavera.
Tens os afagos que em mim suscitam a perda dos sentidos

e me sinto em ti como a oração aos céus.
Combinas bem comigo
no pecado e no sonho.
Em tudo o que não ouso deixar para trás.

E cabes em mim
sublimação e descoberta.
Combinas tão bem comigo

que me sinto de um jeito que já nem sei!
E quando tenho tuas mãos nas minhas,
sinto-me plena, sinto-me Deus.

386

Labirintos


I
Me diz quem és Senhora do Tempo
Me conta teus sonhos e teus medos,
Juro que faço segredo
E ajudo a espantar teus fantasmas.
Me conta de novo tua trajetória na sombra
E tuas estórias secretas
Me faz entender a origem da tua força de mulher guerreira,
Mesmo que hoje já não existam guerras,
Nem vencedores, nem vencidos.
Permite que eu entenda teus labirintos
E onde teus passos te levam,
O motivo da tua solidão contemplativa
Que eu nada conseguie aplacar
E por que mesmo que sorrias com facilidade,
Teus olhos ainda olhem tristes
Além do horizonte da tua alma
Que não se desnuda a ninguém
Mas deixa à mostra, ao mesmo tempo,
Todo o teu ser.
II
Ah! Me mostra a tua face real,
Retira toda dureza e seja apenas você...
Sei que trazes marcas profundas,
Um rosto querido na lembrança,
Um sorriso meigo que se perdeu,
Um afago que te marcou...
Minha adorada Senhora do Tempo,
Fazes do tempo teu maior inimigo!
Nada sou, é verdade,
Mas ousei um dia seguir teus passos sem pegadas no chão.
Olho para trás e ainda te vejo, lúcida, linda e firme
Mesmo que teus olhos teimem chorar em segredo.
Juro que vejo tua alma de menina,
Vejo que tens o brilho de uma pedra preciosa
E se algum mortal chegou tão perto, não fui eu, não fui eu.
Quem terá o teu carinho sem pagar o preço de ser sempre triste?
Quem se deitará em tua cama, senão quem de ti possa se defender?
Quem terá a armadura contra teu forte domínio?
Sim, não sou eu, não sou eu...
III
Também andei caminhos escuros.
Meu corpo igualmente se deu a quem de amor nada sabia.
Também eu escondi minha face
E me fiz rude para que não me notasses
E me deixasses fugir de ti, sem mais nada dizer,
Porque tanta luz em ti me ofusca a alma...
Jamais eu seria teu dono, pois caminhas veloz
E teus passos sempre te levam para longe de mim.
Por isso insisto em olhar para trás ainda,
Nada espero com esse gesto assustado.
Apenas te olho com indefinido carinho,
Até te ver sumir além da tarde que se vai
Através da nuvem do esquecimento.
Não tente fazer o que faço,
Porque se teus olhos de novo me virem
Serás que nem eu, triste também
E não te quero triste de novo. Segue!
Tua luz é própria e te guia,
Enquanto fico a te admirar em silêncio...
Vai agora, minha Fada, minha Senhora do Tempo,
Dorme teu sono de estrelas
Enquanto me encontro com a minha realidade de anjo caído
Velando sempre por ti em segredo.

379

Androginia

Por meu eu
fui teu.

Por meu amor,
sou tua.

342

Há mar



Primeiramente vou falar de amor,

Esse fogo fátuo que a todos consome,

Pego um lenço de papel sobre a mesa da taberna

e nele escrevo e reescrevo teu nome.

Imediatamente te apresento minha estrada

Um filme no epílogo que vejo...

Mas espere não se desespere,

Acho que vejo um percevejo!

Agora chegou a hora do amor zarpar

Conjugar- se verbo em terceira pessoa

Seguir rumo ao degredo, há mar

Para onde lhe aponta a proa...


361

Vide bula (agite antes de ler)

Teu amor é sonho que não sonhei,
é cigarro que nunca acendi,
é beijo na boca que não dei
a ninguém.

É feito a meta que não tracei,
estrada que não percorri,
é abraço que não guardei
pra ninguém.

Tem a cara do meu avesso,
exposto na forma de versos
que a mão sequer preparou.

Teu amor é voz de anjo que escuto
no momento mais que preciso,
que bom tenhamos algo em comum.

387

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