Lista de Poemas

Lua e sol (soneto da saudade)

Éramos assim, tu e eu
unicidade e permanência,
sorríamos um riso único
pleno de inocência.

Éramos assim, Lua e Sol,
gestos plenos de carinho.
Buscávamos a estrada reta,
pássaros em festa no ninho.

Éramos assim, alegria e vendaval.
Um amor que não caberia
na grandeza abismal.

Do eterno, a eternidade,
éramos equidistantes amantes.
E na saudade o amor me arde.

344

Tudo pro nobis

Não me falem dos querubins que rondam sonhos,
Não sabem eles que já não durmo?
Sorvem o suor dessa fronte cálida,
Depois partem levando nas asas meu coração pela boca.

Não me falem mesmo do que já sei!
É que me sinto envelhecer pelos poros,
Feito fruta no armário, amadurecida demais.

Não me digam do único soldado no “front”.
Já não sabe ele a causa da guerra, enlouqueceu;
Come qualquer coisa, já não dorme,
Quer apenas poder voltar.

Nem me avisem do homem no poder.
Nada entendo de vilezas assim,
a olho nu.

Sequer me digam que há desemprego na Europa.
Poeta que se preza labuta versos,
come, calça e veste versos (de poesia).
Sem mentir jamais, vidente é.

Não me contem também da mulher sofrida.
Talvez não suportasse ela ser exposta ainda.
Falem somente da sua esperança parda
e esqueçam as traças que roem a roupa dela todo dia.

Também não me lembrem do pequenino que chora.
Tem seus motivos que lamentar.
Apenas alimentem a ele e aos seus sonhos pueris,
Fazendo dele verdadeiro homem.

Nem queiram me dizer do velho na calçada.
Já nem lembra o que o levou ali.
Dêem-lhe abrigo, sossego e saberá ele morrer grato.

Tampouco insistam na tristeza da jovenzinha só.
Não sabe ela que o mundo é vil?
Dêem-lhe trabalhos manuais, um Rimbaud, Paul Verlaine
e saberá ela agasalhar outras quimeras.

Deixem o viciado usando seus antídotos...
Não sabe ele o que é suicídio?
Dêem-lhe trabalho árduo e o que sonhar.
O resto é para o seu esforço próprio, se quiser.

Também esqueçam o alcoólatra;
a prostituta; a doméstica; o travesti; o fuzileiro;
o general; o fazendeiro;
o fraco; o banqueiro;
o tolo; o verme; o verdureiro;
a virgem; o exilado;
o louco e todos os termos!

Deixem-nos em paz!
Não venham me dizer do que já sei.
É que me sinto feito fruta no armário...

Sei manejar os olhos;
o Português; o violão.
Uma noite sem lua; um catre escuro;
a imensidão.

Vinte e oito aros na minha corrente
De saber (de)mais.

366

Encantamento

Pare de seguir meus pensamentos!
Ofereço riscos demais – e não ousas corrê-los por mim!
Pare de me provocar!
Posso te seduzir sem escrúpulos
– e tens medo de se perder em mim...
Pare de falar o que não sabe!
Senão calo tua boca num beijo – e sei que vais gostar...
Pare de me confundir,
Senão vou até aí te buscar, te roubar,
te levando comigo além mar.
Pare de me encantar!
Liberta-me dessa paixão insana,
fogo ardente de desejo
E devolve minha paz.
323

Página virada

Nossa história hoje é página virada.
Na folha seguinte deixastes tuas digitais
(a escreverem reticências).

Reerguida, Fênix moderna,
arranco a página, amassando-a.

Mesmo o novo final não seria feliz.
Não estás acostumado a viver a completude.

No fundo te amedronto,
sempre montada num cavalo alado
a percorrer a imensidão dos sonhos.
(o oposto dos teus pés no chão)

E tive compaixão de nós dois...

330

Isto é para que não canses

Isto é para que não canses
de procurar o sonho que se perdeu,
o riso que já não escutas,
a esperança tardia.

Isto é para que não canses
de acreditar que o amor existe,
a felicidade é promessa,
o sol brilha a cada dia.

Isto é para que não canses
de manter acesa a chama
de querer tocar as estrelas.

Isto é para que não canses
de caminhar ao longo da estrada
e ver que te sigo nela.

339

Andarilho

Caminho pelas ruas da cidade,
Ar de quem nunca amou.
Atiro emoções a esmo
A cada passo que dou.

Se te encontro assim, vagante,
Olhar vazio, inquietude germina.
Não sei se me edifico ou morro
Nesta busca, insofismável sina.

Olho-te e já não te vejo.
Sigo então a velha trilha,
Atalhos que conduzem a mim.

Pois que do sentir já nem sei.
Só teço versos de dor,
Amortecido viandante do amor...

352

Esse peito vagabundo

Hoje a poesia visitou uma mesa no Bar dos Sonhos.
Pousou desavisada
(feito a brisa que beija a noite atônita)
entre carros e bocas apressadas.
Resvalando-se em cantilenas buscou teu abraço
por descobrir que eles são tantos e nem somam-se à multidão atenta.
És tanto (amor) quanto o lamento do verso que vasa
da tinta azul desse finito e límpido papel: o céu
(feito a menarca da adolescente de seios em flor).

Hoje a poesia chegou como quem chora e dança e ri
(apaixonadamente),
porque é fácil enganar-se quando o galo canta
mesmo que não haja chegado a manhã...
Mas já soa a derradeira hora. É tarde.
Precisamos ir (e o hálito de cerveja) no avesso da cidade,
noutro bar marcar encontro. A poesia e eu
(sangrando)
feito a noite que beija seu negrume
sobre os sonhos (todos) guardados
em um lenço de papel amassado
atirado fora desse peito vagabundo.

373

Presságio

Canto e caminho tonto pela praça
Ando e lamento tudo o que se passa
A todo instante
Como o malogro de uma esperança
(mas como entender-me se o amor me arde?)

Acordo insone
Tenho pesadelos
Vidente
Corro e me canso em tempo

Nesse frenesi de emoção demente
Acredito no sentimento
(e sua força)
De descansar-me definitivamente.

398

Do amor não correspondido

Dei-te um pouco de mim
cada instante.
Para prosseguir
Dei-te o bastante.

Dei-te minha alma
há tanto resguardada,
coloquei-te nos versos que jamais fizera
na forma de uma espera.

Dei-te de mim o quanto sobrevive,
em tudo o que fiz fui espontâneo
sem importar que me sobrasse nada.

O que tenho hoje como paga?
este céu, este sol,
esta estrada...

332

De quando o amor acontece

Você veio,
Eterna primavera!
Engrandecer meus sonhos de menina.
Trouxe no sorriso a certeza do meu reencontro,
Seu sentido único,
Razão de ser.

Fiz colorir meus ares,
Despoluí meus mares
E me entrego a você
Como a onda a beijar a praia.

Fiz das tuas crenças, crenças minhas,
Caminhos retos ao teu esperar.
E no coração
Meu amor transbordante
Deu-me o primeiro sentido de felicidade.

Enlacei as minhas mãos nas tuas,
Tirei meu corpo das ruas,
Faço versos para você.

Mas este meu jeito louco que te vive em poesia
Perde a pose,
Desatina,
Foge do elitismo das linhas,
Berra, sangra e diz:
Te amo, te amo, te amo...

374

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