Tarsila Balthasar

Tarsila Balthasar

n. 1966 BR BR

n. 1966-01-29, Santarém, Pará

Perfil
5 725 Visualizações

Lua e sol (soneto da saudade)

Éramos assim, tu e eu
unicidade e permanência,
sorríamos um riso único
pleno de inocência.

Éramos assim, Lua e Sol,
gestos plenos de carinho.
Buscávamos a estrada reta,
pássaros em festa no ninho.

Éramos assim, alegria e vendaval.
Um amor que não caberia
na grandeza abismal.

Do eterno, a eternidade,
éramos equidistantes amantes.
E na saudade o amor me arde.

Ler poema completo

Poemas

16

Lua e sol (soneto da saudade)

Éramos assim, tu e eu
unicidade e permanência,
sorríamos um riso único
pleno de inocência.

Éramos assim, Lua e Sol,
gestos plenos de carinho.
Buscávamos a estrada reta,
pássaros em festa no ninho.

Éramos assim, alegria e vendaval.
Um amor que não caberia
na grandeza abismal.

Do eterno, a eternidade,
éramos equidistantes amantes.
E na saudade o amor me arde.

361

Do amor não correspondido

Dei-te um pouco de mim
cada instante.
Para prosseguir
Dei-te o bastante.

Dei-te minha alma
há tanto resguardada,
coloquei-te nos versos que jamais fizera
na forma de uma espera.

Dei-te de mim o quanto sobrevive,
em tudo o que fiz fui espontâneo
sem importar que me sobrasse nada.

O que tenho hoje como paga?
este céu, este sol,
esta estrada...

346

Esse peito vagabundo

Hoje a poesia visitou uma mesa no Bar dos Sonhos.
Pousou desavisada
(feito a brisa que beija a noite atônita)
entre carros e bocas apressadas.
Resvalando-se em cantilenas buscou teu abraço
por descobrir que eles são tantos e nem somam-se à multidão atenta.
És tanto (amor) quanto o lamento do verso que vasa
da tinta azul desse finito e límpido papel: o céu
(feito a menarca da adolescente de seios em flor).

Hoje a poesia chegou como quem chora e dança e ri
(apaixonadamente),
porque é fácil enganar-se quando o galo canta
mesmo que não haja chegado a manhã...
Mas já soa a derradeira hora. É tarde.
Precisamos ir (e o hálito de cerveja) no avesso da cidade,
noutro bar marcar encontro. A poesia e eu
(sangrando)
feito a noite que beija seu negrume
sobre os sonhos (todos) guardados
em um lenço de papel amassado
atirado fora desse peito vagabundo.

390

Presságio

Canto e caminho tonto pela praça
Ando e lamento tudo o que se passa
A todo instante
Como o malogro de uma esperança
(mas como entender-me se o amor me arde?)

Acordo insone
Tenho pesadelos
Vidente
Corro e me canso em tempo

Nesse frenesi de emoção demente
Acredito no sentimento
(e sua força)
De descansar-me definitivamente.

412

De quando o amor acontece

Você veio,
Eterna primavera!
Engrandecer meus sonhos de menina.
Trouxe no sorriso a certeza do meu reencontro,
Seu sentido único,
Razão de ser.

Fiz colorir meus ares,
Despoluí meus mares
E me entrego a você
Como a onda a beijar a praia.

Fiz das tuas crenças, crenças minhas,
Caminhos retos ao teu esperar.
E no coração
Meu amor transbordante
Deu-me o primeiro sentido de felicidade.

Enlacei as minhas mãos nas tuas,
Tirei meu corpo das ruas,
Faço versos para você.

Mas este meu jeito louco que te vive em poesia
Perde a pose,
Desatina,
Foge do elitismo das linhas,
Berra, sangra e diz:
Te amo, te amo, te amo...

390

Página virada

Nossa história hoje é página virada.
Na folha seguinte deixastes tuas digitais
(a escreverem reticências).

Reerguida, Fênix moderna,
arranco a página, amassando-a.

Mesmo o novo final não seria feliz.
Não estás acostumado a viver a completude.

No fundo te amedronto,
sempre montada num cavalo alado
a percorrer a imensidão dos sonhos.
(o oposto dos teus pés no chão)

E tive compaixão de nós dois...

348

Andarilho

Caminho pelas ruas da cidade,
Ar de quem nunca amou.
Atiro emoções a esmo
A cada passo que dou.

Se te encontro assim, vagante,
Olhar vazio, inquietude germina.
Não sei se me edifico ou morro
Nesta busca, insofismável sina.

Olho-te e já não te vejo.
Sigo então a velha trilha,
Atalhos que conduzem a mim.

Pois que do sentir já nem sei.
Só teço versos de dor,
Amortecido viandante do amor...

365

Tudo pro nobis

Não me falem dos querubins que rondam sonhos,
Não sabem eles que já não durmo?
Sorvem o suor dessa fronte cálida,
Depois partem levando nas asas meu coração pela boca.

Não me falem mesmo do que já sei!
É que me sinto envelhecer pelos poros,
Feito fruta no armário, amadurecida demais.

Não me digam do único soldado no “front”.
Já não sabe ele a causa da guerra, enlouqueceu;
Come qualquer coisa, já não dorme,
Quer apenas poder voltar.

Nem me avisem do homem no poder.
Nada entendo de vilezas assim,
a olho nu.

Sequer me digam que há desemprego na Europa.
Poeta que se preza labuta versos,
come, calça e veste versos (de poesia).
Sem mentir jamais, vidente é.

Não me contem também da mulher sofrida.
Talvez não suportasse ela ser exposta ainda.
Falem somente da sua esperança parda
e esqueçam as traças que roem a roupa dela todo dia.

Também não me lembrem do pequenino que chora.
Tem seus motivos que lamentar.
Apenas alimentem a ele e aos seus sonhos pueris,
Fazendo dele verdadeiro homem.

Nem queiram me dizer do velho na calçada.
Já nem lembra o que o levou ali.
Dêem-lhe abrigo, sossego e saberá ele morrer grato.

Tampouco insistam na tristeza da jovenzinha só.
Não sabe ela que o mundo é vil?
Dêem-lhe trabalhos manuais, um Rimbaud, Paul Verlaine
e saberá ela agasalhar outras quimeras.

Deixem o viciado usando seus antídotos...
Não sabe ele o que é suicídio?
Dêem-lhe trabalho árduo e o que sonhar.
O resto é para o seu esforço próprio, se quiser.

Também esqueçam o alcoólatra;
a prostituta; a doméstica; o travesti; o fuzileiro;
o general; o fazendeiro;
o fraco; o banqueiro;
o tolo; o verme; o verdureiro;
a virgem; o exilado;
o louco e todos os termos!

Deixem-nos em paz!
Não venham me dizer do que já sei.
É que me sinto feito fruta no armário...

Sei manejar os olhos;
o Português; o violão.
Uma noite sem lua; um catre escuro;
a imensidão.

Vinte e oito aros na minha corrente
De saber (de)mais.

382

Labirintos


I
Me diz quem és Senhora do Tempo
Me conta teus sonhos e teus medos,
Juro que faço segredo
E ajudo a espantar teus fantasmas.
Me conta de novo tua trajetória na sombra
E tuas estórias secretas
Me faz entender a origem da tua força de mulher guerreira,
Mesmo que hoje já não existam guerras,
Nem vencedores, nem vencidos.
Permite que eu entenda teus labirintos
E onde teus passos te levam,
O motivo da tua solidão contemplativa
Que eu nada conseguie aplacar
E por que mesmo que sorrias com facilidade,
Teus olhos ainda olhem tristes
Além do horizonte da tua alma
Que não se desnuda a ninguém
Mas deixa à mostra, ao mesmo tempo,
Todo o teu ser.
II
Ah! Me mostra a tua face real,
Retira toda dureza e seja apenas você...
Sei que trazes marcas profundas,
Um rosto querido na lembrança,
Um sorriso meigo que se perdeu,
Um afago que te marcou...
Minha adorada Senhora do Tempo,
Fazes do tempo teu maior inimigo!
Nada sou, é verdade,
Mas ousei um dia seguir teus passos sem pegadas no chão.
Olho para trás e ainda te vejo, lúcida, linda e firme
Mesmo que teus olhos teimem chorar em segredo.
Juro que vejo tua alma de menina,
Vejo que tens o brilho de uma pedra preciosa
E se algum mortal chegou tão perto, não fui eu, não fui eu.
Quem terá o teu carinho sem pagar o preço de ser sempre triste?
Quem se deitará em tua cama, senão quem de ti possa se defender?
Quem terá a armadura contra teu forte domínio?
Sim, não sou eu, não sou eu...
III
Também andei caminhos escuros.
Meu corpo igualmente se deu a quem de amor nada sabia.
Também eu escondi minha face
E me fiz rude para que não me notasses
E me deixasses fugir de ti, sem mais nada dizer,
Porque tanta luz em ti me ofusca a alma...
Jamais eu seria teu dono, pois caminhas veloz
E teus passos sempre te levam para longe de mim.
Por isso insisto em olhar para trás ainda,
Nada espero com esse gesto assustado.
Apenas te olho com indefinido carinho,
Até te ver sumir além da tarde que se vai
Através da nuvem do esquecimento.
Não tente fazer o que faço,
Porque se teus olhos de novo me virem
Serás que nem eu, triste também
E não te quero triste de novo. Segue!
Tua luz é própria e te guia,
Enquanto fico a te admirar em silêncio...
Vai agora, minha Fada, minha Senhora do Tempo,
Dorme teu sono de estrelas
Enquanto me encontro com a minha realidade de anjo caído
Velando sempre por ti em segredo.

394

Luas duplas

Venho de boemias sem fim
Marcada que estou de chorar
Em bares e banheiros - altares de quem ama
E onde um dia fui
Verter prantos e cantos de certo pesar.

Sou aquela que ama em agonia
E escreve nas mesas poemas ao seu amor
Na paixão lancinante que devora.

Que ri clamando razão entre tragos de algum conhaque barato
Embriagando o senso de êxtase e torpor,
Mas tudo o que lava, lanha e sangra a vero carne

Leva-nos, enfim, concisos a crer
Que muito mais vale
Rastejar em sarjetas nuas,
Bebendo o néctar das luas duplas,

Renegado que se fica de si
Que dormir sem ver a noite morrer.

380

Comentários (0)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.