DIAFORESE
As pedras que foste colocar
Nos alicerces pálo mundo afora
Me fazem merecer o chão
Qu'eles m'impedem de pisar
Não fosse a cangalha em que se transformara
Meu mundo por meio da escravidão
" A Depressão " que aprendeste a cantar
À bordo de negreiras embarcações
Me faz entender a coisa diabólica
Que foram as travessias difíceis, em alto-mar
E o ardor do Sol, nas vastas plantações
Onde na terra, se meteram sementes d'África
O doce de nostalgia com amarga calda
É a labiríntica herança do dia
Que parecia nunca ter fim
Mas, depois de tirada a nojenta fralda
Vê-se agora, claramente, a diaforese da poesia
Que acaba de sair de dentro de mim
Alberto Secama 23 de Junho de 2018
NOS BAIRROS IMUNDOS DA PERIFERIA
Notícias de violação sexual
E assaltos à mão-armada
Recheiam as páginas do jornal
Qu'informa a multidão deseperada
Disparos de arma de fogo
Ouvem-se com doentia frequência
E os cadáveres, ao léu, qual sôo oco
Nos bairros imundos da periferia
Às largas, pelas ruas, está a incerteza a deambular
Nos bairros famigerados da periferia
Onde o luto é um pomar
E a dor, geme deliciosa melodia
No infinito adeus, aos que vão a enterrar
Com o descaso da autoridade policial
A insónia que agora implode
Nos corações aflitos da multidão
À quem, somente o favor de Deus acode
Senão p'las próprias mãos, quem fará
A justiça qu'inexiste cá?
Alberto Secama 25 de Agosto de 2018
VINDICTAS ERUPÇÕES
Ao chão, plásticos, papéis e metais
À mistura, sucatas, pneus estragados e sujos pedaços de pano
Em meio a ecossistemas naturais
De cuja laxação escapa natural
O inflamável gás metano
Triatómica, é a variedade alterada do oxigénio, pela acção
De descargas eléctricas nas alturas
Cujo estrago total, com o inventar da máquina à vapor
E o desenvolver da indústria, começou então
O prenúncio de que as gerações futuras
Viveriam no claustro do climatérico pavor
Às vezes, com os abusos, parece que se conforma
Quando nas florestas, indiscriminadamente aos milhões
Patógenos abates, exacerbam o enfisema pulmonar
Do planeta azul, cuja fúria é o magma
Que nada poupa e tudo consome em vindictas erupções
Alberto Secama 15 de Julho de 2015
PERDOA-ME SENHOR
Perdoa-me Senhor
Pelo uso impróprio
Do dom da palavra
E pála mágoa no coração
Por isso tornado frio
Pela falta de fé
E exagerada vaidade
Quando tudo isso, mais não é
Do que falta de humildade
Obrigado Senhor,
Por mais um dia
Poder estar sobre esta terra
Embora de males tão cheia
Poder gozar de saúde boa
E do suor do meu rosto
Comer o digno pedaço
De broa
Com gosto
Poder desbravar
Este solo que um dia
Há de má acolher
Quando o fôlego me faltar
Alberto Secama 26 de Julho de 2015
LIVRO NUNCA FOLHEADO
No misto de poeira
Que repousa serena
Sobre a velha estante
Encostada, à parede pouco resistente
Da sala apertada de tão pequena
Para a mobília fora de moda
Há tanta bicharia
Como que numa boda
A degustar com insaciável folia
A liberdade da poesia
Nas folhas, em papel reciclado
Dum livro nunca folheado
Alberto Secama 04 de Agosto de 2015
RITMO RITMADO DE JAZZ
Simples simplicíssima
Doce mensagem quáés minháalma
Num ritmo ritmado de Jazz
Aqui distante ou além próximo
Só um negro nigérrimo
Sabe o ritmo sincopado que paz
Quero como sempre quis
Querendo quão bem te fiz
Um ritmo ritmado de Jazz
Que só o faz um negro negrão
Cá sem dita ou lá suspicaz
Sabe por que entoa triste canção
Ritmo titmado de Jazz
Tem triste tristeza de quem o bem-faz
Quáimporta a hora ou o lugar
Se a negra negrura da negridão
Só um negro saberá negrejar?
Alberto Secama 05 de Agosto de 2018
KIMPA VITA
[ À memória de Kimpa Vita ]
Nas terras do Kongo dya Ntotila
Monte Kibango te viu nascer
Ó destemida filha de fala tranquila
Nganga Marinda do clã Mwana Kongo
No " Antonianismo ", tua crença deste a conhecer
Aos dogmas da fé católica, foste contrária
" Herege! " - a morte condenou-te o clero
Viva, no fogo que tanto ardia
Ainda assim, teu adeus foi sincero
Agora, profundo que é o sono
De louros coroada, na eterna glória
Descansa esquecida do imundo colono
Alberto Secama 13 de Setembro de 2015
ZONG
Dáescravos cruelmente cheio
Estava o habituado porão
De Zong, o maldito navio
Da sanguinária baldeação
Da costa da Ilha de São Tomé
Na margens do oeste africano
À todo vapor, para o arquipélago jamaicano
Zong, o maldito navio
Pôs-se a navegar
E o total de cento e trinta e três
Foi o magote feudatário
Que ao abisso do Atlântico mar
Crudelíssimo capitão mandou atirar
Qual não fosse o surto deletério
Por vontade própria, em seguida
Ao mar, lançou-se uma dezena enfurecida!
Com grilhtetas amarradas nos tornozelos
Ó Deus, quão horrível e brutal
Enquanto o Atlântico, com seus próprios olhos
Via o trato que o homem dava ao seu igual!
Alberto Secama 04 de Setembro de 2015
RAPTO
[Em homenagem à Olaudah Equiano]
Olaudah, ainda menino
Com sua irmã e outros petizes
Enquanto brincavam n'aldeia
Um rapto mudou-lhes o destino
E para Bridgetown, Barbados
Em quanta angústia
De Igboland, o Atlântico viu-os partir
Entre 244 cruelmente acorrentados
No apertadíssimo porão
De Ogden, a negreira embarcação
Dias depois, para a Virgínia
Nas margens do rio York
Partiu o miúdo Equiano
Com a alma podre e fria
À bordo de Nancy
Com os pés descalços
E a pesada bagagem
No imaginário sem norte
Equiano calcou no solo americano
O medo da morte
Nada mais temia
E nada mais sentia
Nem dor nem alegria
Alberto Secama 27 de Setembro de 2015
ALBÍZZIA LEBBECK
Da família das leguminosas
Chamam-lhe Albízzia Lebbeck
DáÁfrica, sua terra natal
Levou-a Dom João VI , para o Brasil
Onde as suas cascas para curtume
Para indústria a sua madeira
E sua folhagem forrageira
São os seus donativos
De aspecto agradável
É a sua folhagem, com flores
Tão pouco visíveis; os frutos dáafro sabores
Que pelo número e dimensão
São vagens amarelas e delgadas
Porém, bastante alongadas
Como longa se tornou a lição
Do pernoite que durou
Quinhentos anos de escravidão
Alberto Secama 19 de Julho de 2015