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I. De pulvere

Vê-me, Pai Amado,
entras nas frestas onde me escondo de mim.
Levas as angústias que calado conservo,
as lágrimas que esqueci, as saudades que lamento.

Nada sou, nem desejo engrandecer-me de formas,
porém busco escapar-me do traidor que me visto,
das insignificâncias que grandeza uma tenho dado,
das razões desertas que em vão protestei.

Vê-me, Pai Amado,
não sou mais que poeira que o vento conduz.
Não peço alívio – mas pertença,
não trago méritos – mas arrependimentos.

Pai Amado, vê-me.
Vê-me, Pai Amado.

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Poemas

5

Tom Jobim

Quando não há você,
sem chão,
é tudo queda e desatino.
Pois você
é a razão
que me faz encontrar o caminho. 

E eu que me escondia em tristeza
com dor e sem fé no que é a vida,
ao encontrar você, finalmente percebi 
Meu amor 
o que é essa tal felicidade que dizem por aí
e o que é esse tal de amor.

Meu amor, meu amor,
Não me deixe na escuridão, 
não me finde em esquecimento,
para que eu tenha alma,
para que eu não me perca 
no que tenho sido até agora,
na dor que me consome,
no vazio 
que é viver
Quando não há você.

301

Encontro

Por via de causas e efeitos, do imediato acaso fatal,

nossas almas se cruzam, tão breves, tão vastas, tão cedo.

Em você, vejo um mundo que me lê e me parte, me envolve e me devora.

Quando você passar outra vez, que horas serão, meu amor?

 

Em que minuto se encontra o instante esperado?

Quando é que o tempo decide ser o tempo certo?

Dois estranhos íntimos numa manhã qualquer sorvendo o aroma do café, 

e ela passa, sem pressa, e meu coração fica aguardando o verso seguinte.

 

Lindos foram os enganos. Era destino que eu te encontrasse.

370

Ela é

Ela é fronteira com a Bolívia,
chá de erva-mate e o nascer do sol.
Tem dias em que ela é banho do rio,
e noutros, dançar na chuva.
Seu espaço é debaixo do céu mais azul,
se perdendo no marrom da cor dos meus olhos.
Ela é feita do soneto mais delicado,
um horizonte sutil, sem fôlego e sem fim,
nebulosa do coração, sim, ela é,
e meu lugar é ao lado dela.

E então nossos toques se encontraram.
Eu fui verde, e ela, o amarelo,
uma pintura renascentista,
com toques de revolução.

287

Indelével

Nem o tique-taque do relógio
falha em me lembrar da saudade
de quem foi, de quem marcou,
de quem veio e não soube ficar.

E no silêncio das estrelas, sigo,
até o brilho dos teus olhos,
onde encontro, ileso e eterno,
o amor que o tempo não soube levar.

285

Maracatu e Nós

Te vi passar, ao som de Alceu, com a alegria solta no rosto,

O maracatu batia fundo, como se o coração já soubesse,

Teu sorriso, mais quente que o sol no Recife, tocou minha alma,

Entre o frevo e a saudade, teu jeito de ser virou casa,

Para viver um grande amor, só tinha de ser com você.

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