António Patrício Pereira

António Patrício Pereira

n. 1963 PT PT

Jornalista

n. 1963-10-20, Óbidos

Perfil
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Carta

Escrevo-te, mulher amiga
À sombra desta saudade vertical
aqui deitado em areias adormecidas
pela maré da lembrança…
cintilação do teu ser
onde, abandonado, me recrio,
homem incompleto que sou.

Escrevo-te, mulher amada
nesta busca constante
do principio do mundo
que transportas e guardas
no teu corpo, espaço sagrado,
mistério indecifrável
centelha que me deu vida
em silencio

Escrevo-te, mulher amante
nesta tentativa desesperada,
desesperante de manter
alento neste meu corpo…
cratera infindável e escura
onde o lume do desejo
jamais se cansa de imolar o sonho
corromper a palavra…

Escrevo-te , mulher
de um lugar qualquer da terra,
que somos e continuamos,
completamente só
apodrecendo lentamente ao sul
esperando sequioso o teu norte.

António Patrício pereira

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Biografia

Sou (ou tento ser), uma pessoa igual, e diferente, de todos os outros.
Na bagagem levo já amores (uns ganhos outros perdidos), dores (o quanto baste), e algumas, outras, lutas por começar.
Nasci… Tenho alguns anos de vida…
E ainda não morri!
É a vida!!!

E agora, se me permitem, vou continuar a respirar; que a viagem é longa e a vida muito curta para a completar.

Poemas

19

Carta

Escrevo-te, mulher amiga
À sombra desta saudade vertical
aqui deitado em areias adormecidas
pela maré da lembrança…
cintilação do teu ser
onde, abandonado, me recrio,
homem incompleto que sou.

Escrevo-te, mulher amada
nesta busca constante
do principio do mundo
que transportas e guardas
no teu corpo, espaço sagrado,
mistério indecifrável
centelha que me deu vida
em silencio

Escrevo-te, mulher amante
nesta tentativa desesperada,
desesperante de manter
alento neste meu corpo…
cratera infindável e escura
onde o lume do desejo
jamais se cansa de imolar o sonho
corromper a palavra…

Escrevo-te , mulher
de um lugar qualquer da terra,
que somos e continuamos,
completamente só
apodrecendo lentamente ao sul
esperando sequioso o teu norte.

António Patrício pereira

178

Todas as coisas dizíveis

Nas tuas mãos magras
guardas a raiz de todas as coisas
dizíveis…
Mãos de renúncia,
mãos de tudo fazer, de nada querer.
Mãos de vontade indomável
de força incontrolável… mãos.
De trabalhos feitas.
De amores vincados na dobra dos dedos
Brandos segredos,
tão velhos como o mundo,
derramados no silêncio da noite.

Mãos!… As tuas.

António Patrício Pereira

252

Fala d’um homem vulgar

Sou um homem vulgar;
Nada de especial a assinalar.
Vejo as horas crescerem dias
e os dias amadurecerem noites.
Para manter as mãos ocupadas,
e a imobilidade não me doer nos ossos.
vou enfeitando as sombras com nadas…
nadas meus, que só eu sei ler;
coisas de pouca importância
para o rumo das estações
ou para o ritmo migratório dos pássaros.
Bebo os ventos para matar a sede de viajar,
de sair de mim…
Navego olhares pelos mares interiores,
degredos meus
em voluntárias condenações.

Sou um homem vulgar,
viajo no limite do meu corpo;
Este corpo sem tempo
que ainda leva alguns sonhos
mas que já perdeu o desejo de eternidade.

António Patrício Pereira

179

Coisas sem importância II

Ao olhar uma poça de água há quem consiga ver o céu imenso; há quem só consiga ver o seu reflexo… e há aqueles que não vêm nada.
Há, ainda, quem nem se dê ao “trabalho” de olhar para uma poça de água… esses estão mortos e não sabem.

António Patrício Pereira

172

Coisas de gatos

Ali estava ela, mais uma vez, muda nos gestos.
Não sei se contemplativa se letárgica…
Somente o abandono se manifestava nas horas,
lentamente…
Exílada ficava a cor que morrendo se perdia na imobilidade tardia.

No quintal dois pequenos gatos brincavam com o tempo
na tentativa vã de agarrar um momento de vida.
Um pássaro deu-lhes a fuga num sobressalto piado.

De tão suspensa entregava,
sem um lamento, a clepsidra à noite
que branda entrava pelos olhos dos corpos agitados;
num desespero de quem não quer perder a sombra,
efemeridade da matéria.

Dos pequenos gatos ficou a bailar na penumbra
o movimento de uma corrida feita rumor.
O que resta é o jardim, perdido nas trevas.

Agora era já a noite que impunha o seu querer
feito de todos os sobressaltos.
E a nós, barcaças de estreito calado,
restava-nos segurar, de órbitas secas,
a vida, por desepero mantida.

Amanhã voltarão os pequenos gatos…
para brincar ao futuro.

António Patrício Pereira

184

Temor dos deuses

Os meus olhos
como dois náufragos,
cansados,
vão lendo o mover das águas
já sem olhar
Nos ossos sinto o gotejar da chuva
sobre as pedras da minha cidade…
Tudo é água e cinzento;
E os homens,
temerosos,
lamentam a vida num fio de voz
para não ofender os deuses.

António Patrício Pereira

175

Coisas sem importância III

Pensar dá trabalho. É uma canseira questionar os dias, os “quês” e os porquês.
Aceitar sem questionar é o mais fácil… Mas é também o mais triste.
Viver sem horizontes próprios, porque sim, de olhos fechados…
Viver com um cenário como horizonte é o mesmo que adiar a vida; vegetar.

António Patrício Pereira

188

Coisas sem importância VI

Acredito que um dia os Homens descubram, entendam que o maior valor da vida é a sua própria dignidade e o respeito por todos os seres humanos e não o dinheiro que tudo corrompe que tudo justifica, que faz o homem ser predador dos seus iguais numa sociedade, a nossa, cada vez mais medíocre, mesquinha, mais amoral, mais sem ética. Tenho de acreditar. Quero acreditar.

António Patrício Pereira

168

Todas as noites

À noite os homens
acendem a inquietação
no peito,
e esperam que o breu
amadureça claridade
para ganharem mais um tempo de
esperança.

António Patrício Pereira

171

Coisas sem importância VII

Há uma Terra onde os Homens nascem de carne feitos e morrem em pedra talhados.

António Patrício Pereira

194

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