Avidaamar

Avidaamar

n. 1972 PT PT

Mais um debaixo do sol...

n. 1972-04-30, 30-04-1972

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Ecrã das Hipóteses

Na cadeira,
cercado de papéis,
meio lápis e fita métrica,
peças e pecinhas por companhia.
Dissolvido no ecrã das hipóteses,
ignoro-me
entre ideias, mais ideias.
Os ideais que brincavam num final de tarde morno,
refastelados e inteiros,
ficaram no relvado verde.
Olho o todo... o olhar leva-me.

Por vezes desperto
com a sinfonia das teclas
da orquestra pífia.
Então... bordo com retalhos
mantos de sonho que me cobrem;
deitado, aponto as estrelas...

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Poemas

16

Demasiado humano

Foi assim —  
portas entreabertas,  
um olhar que busca.  
Esmagado sob o vislumbre,  
além das muralhas umbilicais.  
Entre pedras e lajes,  
arrasto alçapões.  
Nas masmorras, a penumbra;  
nos beirais, o olhar semicerrado — a luz.
Serão castelos de areia?  
“Não… nada assim.”  
Demasiado desumano —  
e eu, sentinela?  
Pedaços, mineral…  
demasiado humano.

63

Esdrúxulo

esdrúxulo?

abismado, atónito
prostrado à unidade

existo
abrasado
infimamente exíguo

dúvidas, deleite
dores que amamentam

tenho-me prometido

ai...
tentativas apenas e só.

por cumprir
por começar
por ir

78

Tempo

Tique.

Taque.

Um —

dois —

três.

In…

out…

in.

Agora.

Logo.

Assim que possível.

Meu tempo.

Teu tempo.

Nosso.

Vosso.

Pra sempre

e nunca.

Prolonga.

Alonga.

Longe.

Distante.

Devagarinho,

em Morfeu,

tomba,

desmaia,

definha,

esmorece,

falece.

Teu final,

recusado.

Condenado à eternidade,

à direita de Zeus,

sem escolha.

Tempo:

matematicamente criado,

legislado, adorado, reprovado,

amordaçado,

subtraído,

anulado.

Medi-lo?

Que atrevimento

mortal.

A magia

acabou.

A poção.

A poção.

Quero-a.

Pra onde

vou?

Acabou

70

Métrica da Ausência

Quanto vale, afinal, uma alma?
Uma lágrima, que percorre
a face de uma criança,
roubando-lhe o brilho e a paz?
Haverá preço na angústia da espera,
no peito que aperta, que anula?
Como medir a dor advinda?
Como pesar a lamúria?

A balança que afere o tormento
permanece imóvel, sem voz;
estática, indiferente...
A languidez tudo abarca e consome,
qual toldo me cobre;
anónima, perdida,
debruço-me na varanda do desconhecido
pronto a aceitar, não fujo.

Não busco o perdão ou a glória;
não sou resiliente, nem obediente,
apenas "estou" entre a memória...
E o que resta,
na espera...
Vazio, tédio sem fim;
a eterna e fria quimera
que habita o que resta de mim

50

Meridiano do eu

Que realidade esta?

Olho... não vejo.

Escuridão, ou luz que ofusca?

Oiço... não escuto.

Silêncio, ultrassom?

Ao toque...

Ausência de relevo. Plano e pluma…sem peso…

Não queima, nem gela.

Não pica, nem arrepia.

Realidade da treta... ou inteligível?

Indefinível — por provar.

Provavelmente... teria um sabor agridoce.

Fico por aqui: pelos planos teóricos.

Será isto? Ou aquilo?

Assim? Assado?

Cozido... ou frito?

Tantos morreram na procura.

Outros tantos — em igual número — nada encontraram.

E os restantes?

Os restantes acordaram... e que sonhavam?

Desculpas. E mais desculpas.

Não a quero enfrentar.

Ela espelha-me, sim.

Moro na imagem refletida?

Mas quando a olho de frente —

me devolve o nada.

Um dia destes... racho-me.

No meridiano para tirar a limpo:

Estou no centro de mim?

Dentro? de dentro, fora?

Em toda a parte, repartido?

Único, indivisível? deste mundo?

Divisível, doutros mundos; Imundo, limpo e liberto?

Serei apenas isto:

Verdades e mentiras sem fim...

Ou inteiro?

Em Paz, que bom seria!…

100

Pedra filosofal

Permanecer estátua, ausente por fora.

O toque da eternidade sussurra

entre vales de contentamento.

 

Terra, lama, água, vida.

Sons de outrora acicatam os sentidos.

Olho em volta: nada.

Ausência incompleta – vazio e busca.

 

Ser marmóreo, coração de carne.

Tuas veias secaram há muito.

Teu querer pulsa.

A lava brota. A crosta revela

Um querer desmedido, inconsolável.

 

Horizontes que limitam.

Profundidades infinitas que ecoam, refletem.

Desperto: Pedra a filosofal.

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