Lista de Poemas
Abraço
Fui para todos os lados,
percorri universos.
A casa ficou à espera, vazia.
Fui por mim mandado,
em busca de mim.
Espero pousar algures
onde mora o tempo sem fim.
Aí, na justa medida,
serei inteiro,
sem migalhas.
Depois, bem cedo,
de porta em porta,
perguntarei por mim.
Talvez ainda esteja em casa,
e me dês um abraço.
Caravela da Tristeza
Minha sombra confidente,
fiel companheira.
E tu, tristeza,
caravela que te aventuraste
por outros mares, outros amores —
que mal te fiz eu?
Foram as lamúrias?
As pequenas redenções?
Não me abandones, por favor.
Preciso ser alguma coisa —
ainda que só tristeza
e sombra, por companhia.
Inteiramente só,
aguardo o teu regresso.
Espero que tragas os porões
cheios de memórias,
de tantas tristezas,
até que, enfim,
possamos ser muitos…
Demasiado humano
Foi assim —
portas entreabertas,
um olhar que busca.
Esmagado sob o vislumbre,
além das muralhas umbilicais.
Entre pedras e lajes,
arrasto alçapões.
Nas masmorras, a penumbra;
nos beirais, o olhar semicerrado — a luz.
Serão castelos de areia?
“Não… nada assim.”
Demasiado desumano —
e eu, sentinela?
Pedaços, mineral…
demasiado humano.
Esdrúxulo
esdrúxulo?
abismado, atónito
prostrado à unidade
existo
abrasado
infimamente exíguo
dúvidas, deleite
dores que amamentam
tenho-me prometido
ai...
tentativas apenas e só.
por cumprir
por começar
por ir
Métrica da Ausência
Quanto vale, afinal, uma alma?
Uma lágrima, que percorre
a face de uma criança,
roubando-lhe o brilho e a paz?
Haverá preço na angústia da espera,
no peito que aperta, que anula?
Como medir a dor advinda?
Como pesar a lamúria?
A balança que afere o tormento
permanece imóvel, sem voz;
estática, indiferente...
A languidez tudo abarca e consome,
qual toldo me cobre;
anónima, perdida,
debruço-me na varanda do desconhecido
pronto a aceitar, não fujo.
Não busco o perdão ou a glória;
não sou resiliente, nem obediente,
apenas "estou" entre a memória...
E o que resta,
na espera...
Vazio, tédio sem fim;
a eterna e fria quimera
que habita o que resta de mim
Tempo
Tique.
Taque.
Um —
dois —
três.
In…
out…
in.
Agora.
Logo.
Assim que possível.
Meu tempo.
Teu tempo.
Nosso.
Vosso.
Pra sempre
e nunca.
Prolonga.
Alonga.
Longe.
Distante.
Devagarinho,
em Morfeu,
tomba,
desmaia,
definha,
esmorece,
falece.
Teu final,
recusado.
Condenado à eternidade,
à direita de Zeus,
sem escolha.
Tempo:
matematicamente criado,
legislado, adorado, reprovado,
amordaçado,
subtraído,
anulado.
Medi-lo?
Que atrevimento
mortal.
A magia
acabou.
A poção.
A poção.
Quero-a.
Pra onde
vou?
Acabou
Meridiano do eu
Que realidade esta?
Olho... não vejo.
Escuridão, ou luz que ofusca?
Oiço... não escuto.
Silêncio, ultrassom?
Ao toque...
Ausência de relevo. Plano e pluma…sem peso…
Não queima, nem gela.
Não pica, nem arrepia.
Realidade da treta... ou inteligível?
Indefinível — por provar.
Provavelmente... teria um sabor agridoce.
Fico por aqui: pelos planos teóricos.
Será isto? Ou aquilo?
Assim? Assado?
Cozido... ou frito?
Tantos morreram na procura.
Outros tantos — em igual número — nada encontraram.
E os restantes?
Os restantes acordaram... e que sonhavam?
Desculpas. E mais desculpas.
Não a quero enfrentar.
Ela espelha-me, sim.
Moro na imagem refletida?
Mas quando a olho de frente —
me devolve o nada.
Um dia destes... racho-me.
No meridiano para tirar a limpo:
Estou no centro de mim?
Dentro? de dentro, fora?
Em toda a parte, repartido?
Único, indivisível? deste mundo?
Divisível, doutros mundos; Imundo, limpo e liberto?
Serei apenas isto:
Verdades e mentiras sem fim...
Ou inteiro?
Em Paz, que bom seria!…
Pedra filosofal
Permanecer estátua, ausente por fora.
O toque da eternidade sussurra
entre vales de contentamento.
Terra, lama, água, vida.
Sons de outrora acicatam os sentidos.
Olho em volta: nada.
Ausência incompleta – vazio e busca.
Ser marmóreo, coração de carne.
Tuas veias secaram há muito.
Teu querer pulsa.
A lava brota. A crosta revela
Um querer desmedido, inconsolável.
Horizontes que limitam.
Profundidades infinitas que ecoam, refletem.
Desperto: Pedra a filosofal.
Pérola
Cansaço este, que tolhe o meu pensamento —
outrora fonte, hoje solo gretado.
Que monotonia.
Que paleta de dois tons:
falta de contraste
que cega,
entorpece,
sufoca a consciência.
Pudera romper
as amarras titânicas que me comprimem
com o malho do Deus Trovão!
Pudera purgar
a negritude do meu ser
pelas narinas —
qual extrema-unção —,
embalsamado,
enfaixado,
mumificado.
Pudera raspar
a gordura imunda que me cobre
com mãos e unhas,
qual espátula!
Ungido e purificado,
reduzido
a cinza cálida,
então gritar ao Altíssimo!
Gritar
todos os ais do mundo!
Provocar
o ciclone dos Apocalipses,
a colisão de todas as galáxias,
a fusão
dos universos existentes
e vindouros!
Obter
uma única gota,
a única gota
caída desse alambique —
mecanismo panmorfista,
destilando o infinito,
destilando o eterno,
destilando o impossível.
Gota de mel
que se fossilizará
após a morte de tudo,
formando uma pérola —
uma pérola
que acrescentarei ao teu colar,
meu amor,
meu eterno amor.
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