Avidaamar

Avidaamar

n. 1972 PT PT

Mais um debaixo do sol...

n. 1972-04-30, 30-04-1972

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Ecrã das Hipóteses

Na cadeira,
cercado de papéis,
meio lápis e fita métrica,
peças e pecinhas por companhia.
Dissolvido no ecrã das hipóteses,
ignoro-me
entre ideias, mais ideias.
Os ideais que brincavam num final de tarde morno,
refastelados e inteiros,
ficaram no relvado verde.
Olho o todo... o olhar leva-me.

Por vezes desperto
com a sinfonia das teclas
da orquestra pífia.
Então... bordo com retalhos
mantos de sonho que me cobrem;
deitado, aponto as estrelas...

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Poemas

26

A Mão - Verbo

A mão-verbo,
arado ventre do vazio.
Com cerdas famintas afasta os portões:
eis o bailado em vertigem.

Tempo e cadências ondulam retas,
mergulham planícies,
erguem-se os vales…

Formas diluídas na superfície cega,
o gesto,
o sentir.

Polpa de terra. Pó. Céu vegetal.
Silhuetas febris.

Da poltrona, o ancião:
espera pela eternidade,
um amanhã de mármore.

Arquiteto dum mundo
entre traços e silêncios:
almas, rostos…

— que vejo do jardim.

 

10

Anatomia da Centelha

Aqui me encontro.
Piso a linha de partida
e avanço — inteiro.
Fujo da casa em chamas,
levando-a aos ombros.
Vou — energia em carne,
massa em combustão,
corpo que se dispersa
em círculos, espirais.
O cansaço vence.
Aquele estalido —
não o esqueço.
Sou abatido,
o tiro ainda ecoa.
O cervo sagrado
falece no húmus,
sangra.
Da ferida, uma fonte.
Mergulho — mineral, denso —
num brilho de selénio.
Lava vertida
no subterrâneo aberto.
A casa cede,
tomba em silêncio.
Dos escombros, a Fénix —
olhos semicerrados —
vasculha entre estilhaços,
procura e encontra
uma centelha.
Crava-lhe as garras.
Sopra.
Incandescente, rubra —
a matéria devora-se
até desaparecer.
Imóvel, o coração aguarda
um cintilar,
por ínfimo que seja.

11

A sétima vaga

valeu a pena

caminhar vestido de sombras

galgar as sétimas vagas

carregar o céu

sentir todos os ais

 

chorar:

as derrotas

o que padece

o adeus

ter medo:

do vir

do ter tido

querer ter

não ter tido

voltar a ter.

 

tanta resistência

para no fim

nada ter valido

de tão pouco

ter sido.

10

A doce companhia

Anjinho da guarda,

minha doce companhia,

guardai a minha alma

de noite e de dia…

Era luz que tudo revelava,

tudo recriava, em doçura.

Matéria e espírito, unidos,

como o cordel

ao pião em vertigem pura.

Vivia-se.

Que razão? Que pensar em ser feliz?

Brincadeiras, letras, traços, números…

o tempo não cabia na equação;

pousado, ficou para trás.

Estar vivo e pensar, nada trouxe;

apenas aquela memória

que faz pulsar, de leve…

que aconchega.

Único,

sob as asas

de um guardião,

suspenso sobre mim.

23

Abraço

Fui para todos os lados,

percorri universos.

A casa ficou à espera, vazia.

Fui por mim mandado,

em busca de mim.

Espero pousar algures

onde mora o tempo sem fim.

Aí, na justa medida,

serei inteiro,

sem migalhas.

Depois, bem cedo,

de porta em porta,

perguntarei por mim.

Talvez ainda esteja em casa,

e me dês um abraço.

36

Caravela da Tristeza

Minha sombra confidente,  
fiel companheira.
E tu, tristeza,  
caravela que te aventuraste  
por outros mares, outros amores —  
que mal te fiz eu?
Foram as lamúrias?  
As pequenas redenções?
Não me abandones, por favor.  
Preciso ser alguma coisa —  
ainda que só tristeza  
e sombra, por companhia.
Inteiramente só,  
aguardo o teu regresso.  
Espero que tragas os porões  
cheios de memórias,  
de tantas tristezas,  
até que, enfim,  
possamos ser muitos…

54

Demasiado humano

Foi assim —  
portas entreabertas,  
um olhar que busca.  
Esmagado sob o vislumbre,  
além das muralhas umbilicais.  
Entre pedras e lajes,  
arrasto alçapões.  
Nas masmorras, a penumbra;  
nos beirais, o olhar semicerrado — a luz.
Serão castelos de areia?  
“Não… nada assim.”  
Demasiado desumano —  
e eu, sentinela?  
Pedaços, mineral…  
demasiado humano.

67

Esdrúxulo

esdrúxulo?

abismado, atónito
prostrado à unidade

existo
abrasado
infimamente exíguo

dúvidas, deleite
dores que amamentam

tenho-me prometido

ai...
tentativas apenas e só.

por cumprir
por começar
por ir

83

Tempo

Tique.

Taque.

Um —

dois —

três.

In…

out…

in.

Agora.

Logo.

Assim que possível.

Meu tempo.

Teu tempo.

Nosso.

Vosso.

Pra sempre

e nunca.

Prolonga.

Alonga.

Longe.

Distante.

Devagarinho,

em Morfeu,

tomba,

desmaia,

definha,

esmorece,

falece.

Teu final,

recusado.

Condenado à eternidade,

à direita de Zeus,

sem escolha.

Tempo:

matematicamente criado,

legislado, adorado, reprovado,

amordaçado,

subtraído,

anulado.

Medi-lo?

Que atrevimento

mortal.

A magia

acabou.

A poção.

A poção.

Quero-a.

Pra onde

vou?

Acabou

76

Métrica da Ausência

Quanto vale, afinal, uma alma?
Uma lágrima, que percorre
a face de uma criança,
roubando-lhe o brilho e a paz?
Haverá preço na angústia da espera,
no peito que aperta, que anula?
Como medir a dor advinda?
Como pesar a lamúria?

A balança que afere o tormento
permanece imóvel, sem voz;
estática, indiferente...
A languidez tudo abarca e consome,
qual toldo me cobre;
anónima, perdida,
debruço-me na varanda do desconhecido
pronto a aceitar, não fujo.

Não busco o perdão ou a glória;
não sou resiliente, nem obediente,
apenas "estou" entre a memória...
E o que resta,
na espera...
Vazio, tédio sem fim;
a eterna e fria quimera
que habita o que resta de mim

56

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