Bianca Lopes

Bianca Lopes

n. 2002 BR BR

Menina em rascunho. Um dia publico minha edição definitiva.

n. 2002-07-11, Rio de Janeiro

Perfil
16 559 Visualizações

A voz

A voz que hoje se apresenta
Através desses versos sem métrica
É voz já um tanto cansada
Mas atenta

A voz que agora se mostra
Traz consigo alguma coisa de lágrima
Deixa tocar alguma nota de dor
É voz calejada, já sem pudor

Esta voz, que não decide
Entre ser altiva ou ser silenciosa
Transparece anseios de menina, que agride
Que traga a vida, segura e solta

Esta voz, que a duras penas sobrevive
Entre o calento e o abandono
Procura desejos de mulher, que não atingem limite
Que abrem portas e pernas, sem convite

Uso esta voz porque é a única que tenho
Não tem enfeites nem disfarces
Busca tão somente o deleite da coragem
Vive só pela esperança de não ter mais medo.
Ler poema completo

Poemas

4

Voo noturno

Hoje enquanto passeava entre as nuvens
Logo antes do amanhecer
Observei uma estrela solitária

Seu brilho provavelmente vinha de muito longe
E encantei-me pela estrela
Era a última testemunha da noite

Olhamo-nos por alguns instantes
Observei como era pequena aos meus olhos
E, no entanto, como era grande a distância que percorria

Indaguei-me: "Como terá me achado tal estrela?"
A que deveria eu o prazer de sua visita?
Perguntei à estrela se havia gostado de mim
A estrela riu baixinho e nada disse

À medida que fui caminhando em direção ao dia
A estrela foi ficando mais e mais tímida
Fiquei chateada e achei que ela não me quisesse ali
A estrela me consolou

Contou-me uma história para eu dormir
Antes que ao dia eu chegasse
Disse que já era tarde 
E por isso precisava partir
Disse que toda manhã cedo faz este
Espetáculo para se despedir

Cantou-me canções de ninar 
Até que sua voz se calou
Soprou seu encanto pela Terra
Que acordava
Sobre a cabeça de uma menina
Que sonhava

Hoje enquanto passeava pelas nuvens
Logo antes do amanhecer
Namorei uma estrela solitária
E observei-a desaparecer
513

Pensamento circular

De tempos em tempos eu volto aqui
E que gostoso voltar
Às vezes eu acho que minha vida
É andar em voltas
É de tempos em tempos voltar
E voltar a gostar de alguma coisa
Que eu já não gostava
E voltar a não gostar de mim
Apesar de eu já ter aprendido a gostar

A minha vida é dar voltas
Os seios de uma mulher
São duas grandes voltas
Os olhos de um homem velho
São duas grandes voltas
O miado de um gato
É uma grande volta
Assim como é também 
O teu desprezo pelo meu amor
Esse sim, uma grandessíssima volta

De tempos em tempos eu volto a pensar
E que estranho pensar
Às vezes eu acho que minha vida
É pensar mais um pouco 
É de tempos em tempos parir um pensamento
E pensar de novo algo esquecido
Que eu já não lembrava
E pensar que talvez eu não seja tão boa assim
Apesar de eu já ter provado ser

A minha vida é pensar
O orgasmo
É um pensamento que eu não tive
O sofrimento
É um pensamento que eu não consegui impedir
A morte
É um pensamento que eu ainda não conheço

E o meu problema
É que de tempos em tempos
Eu finjo que sei
Mas ainda não descobri
463

Reflexões de uma jovem poetisa

O primeiro poema é
Uma expressão ingênua
De uma cabeça
Que pensa
E acha que
Pensa alguma coisa importante
Ao ponto de ser escrita

O segundo poema é
Uma expressão fabricada
De um coração
Que tem medo
De não sentir algo
Tão genuíno assim

O segundo poema é 
Por regra geral
Ou acaso
Ou destino
Um poema pudico
Contido
Comprimido pela noção
De que o primeiro poema
Talvez não seja
Tão bom assim

E o primeiro poema
Segue inabalável
Sabendo que
Pode ser bom
Ou ruim
Mas tranquilo porque
Não existirá 
Outro como ele
481

Inquietude

Não quero imitar Fernando Pessoa
Nem ser pretensiosa ao ponto de
Acreditar que posso escrever como Fernando Pessoa
Ou como qualquer outro poeta
Que se preze

Não quero passar a minha vida
Escrevendo neste caderno empoeirado
Ou em tantos outros cardernos empoeirados
Que moram nas minhas estantes 
Espalhadas pela casa

Não quero chegar aos 30 anos 
Lançar-me ao mar violento
Extravasando toda impulsividade que reservei
                                                       [por 30 anos
Para ser resgatada e precisar fingir
Que não queria morrer na praia

Não quero viver de frames da vida alheia
Nem ser enfadonha ao ponto de
Falar que não é tão importante assim a vida
                                                     [dos outros
Que se atirem de pontes e me comovam para
Que eu possa sentir algo profundo

Não quero imitar Fernando Pessoa
Nem Goethe, Nietzsche ou Sylvia Plath
Mas meu Desassossego é tão evidente
(Que para não imitar alguém)
Chamarei esta minha Redoma de Vidro de
Inquietude
492

Comentários (2)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.
Flaquiote
Flaquiote

Que bom, gostei galera

Bianca Lopes

Obrigada, João. Gosto muito dos teus versos!