Um dia acordas num banco à beira da estrada
Um dia acordas num banco à beira da estrada
De uma noite em que foste ausência e dor
E mais nada,
E percebes que já não há amor
Espalhado pelo chão,
No seu lugar está um coração
Que desenha o pó;
A tua teimosia de ali permanecer
É de que o teu nó
Na garganta vá desaparecer.
Um dia vais deitar-te num banco à beira do cansaço
Venceste mas não tens ninguém
À espera de um abraço,
Ninguém.
Percebes que a vida passou
E que tudo mudou.
Mas tu permaneces com a mesma solidão nos pés
No fundo dos lábios tens esse fosso,
Onde cada palavra morre como as marés
E os teus olhos brilham como a água no poço.
03/04/2019
C. A.Afonso
Basta!
Tem de haver um momento em que dizer basta é mesmo
basta.
Um momento em que tudo cessa no mais quieto instante
porque tu queres.
Como um botão que desliga o tempo
e interrompe o devir.
E assim ficar suspenso num astro ou estrela, sem pensamentos
ou memórias.
Sem ruído ao fundo
apenas aragem na carícia da pele,
Existir em fotografia captada nesse instante
e depois,
quando apetecer viver
encontrar o mundo mais adiante.
19/09/2019
C. A. Afonso
O cheiro das palavras
As palavras
Cheiram a maresias
Cheiram a horas perdidas ou ganhas
Cheiram a tempo,
A peixe no pregão
Cheiram a meses e a dias,
Invisíveis e às vezes tamanhas
As palavras
Leva-as o vento
Cheiram a água da ribeira com sabão
cheiram a melodia
A vazio
Cheiram a razão
Cheiram a sim e a não
Cheiram a frio.
As palavras
Fervem por vezes entre a boca
Cheiram a infinito,
Bafo que nos sufoca
Cheiram a peixe frito.
Às vezes são silêncio
Outras, instante
Cheiram a sonho
Com sabor a amante.
As palavras
São por vezes indizíveis
Amargas ou magoadas
Um pedaço de impossível
Ásperas e alheadas.
Cheiram a tempo perdido
Por entre o coração
Perdidas no ouvido
Esquecidas do que são.
18/03/2019
C. A. Afonso
Morrer
Morrer
É deixar de ver a curva na estrada,
Mudar os olhos
Para outra morada
E deixar de acender
Os pensamentos,
Na vez de eles passar a ter nada.
Morrer
É perder a ideia de existir,
Apagar os sonhos
Deixar de dormir
É esquecer
Os sentimentos
É nunca chegar nem partir.
15/03/2019
C. A. Afonso
Portugal
Este Portugal
É um país desigual.
A única verdade que toda a gente aceita
É que é tudo igual à esquerda e à direita.
Ser político é aceder às monarquias
É ter emprego e benefícios sem corte
Viver à grande, ser diferente todos os dias
Dividir o povo, esmagar quem nascer forte.
É tudo verde ou vermelho, tão singelo,
Dão-se vivas à diferença sem ter look
Todos somos um pouco de Marcelo
A fazer da presidência um facebook.
Vivemos na ilusão, tudo é simbólico
Há castelos e pontes a ruir
Em cada português um alcoólico
Um dia deixaremos de existir.
11/02/2019
C. A. Afonso
Ser poeta
Ser poeta é maldição
É ter nascido sem ‘sperança,
É, dentro do coração,
Nunca ter sido criança...
É nunca existir agora
Partilhar de um outro olhar
É partir sem ir embora
Chegar sem nunca chegar.
É não querer explicação
Para tudo o que se sente
Colocar o coração
No lugar frio da mente.
Ser poeta é um destino
Que não leva a nenhum lado
Ser homem sem ser menino
Sem futuro nem passado.
19/01/2019
C. A. Afonso
Palavras
Com palavras
Curtas ou compridas
Ditas em horas felizes
Ou amarguradas
Se constroem vidas
Se criam raízes
Se percorrem estradas.
Com palavras
Gestos do pensamento
Que pintam o que há em nós,
Emoção materializada
Estrelas de firmamento
Pedaços de tudo e de nada
A iluminar a voz.
19/11/2018
C. A. Afonso
Memórias
Relembro dias intactos
Noites perdidas de sono
Instantes que mudaram os factos
Vidas ao abandono...
E relembro tardes anãs
Desesperos perdidos à sorte
Dias sem ter amanhãs
Crianças que abraçaram a morte.
Relembro os grandes mistérios
Que deixam o povo sozinho
Homens que roubam hemisférios
À custa do pão e do vinho.
E relembro verdades perdidas
Por entre a sombra dos dias
Mentiras que roubam vidas,
Solidões ferozes e frias.
28/09/2018
C. A. Afonso
Neófito, quem és?
Não sei como chegaste até mim!
Vieste suavemente
Descer ao centro da terra
Onde ficaste encerrado.
Ali despiste a vida e renasceste,
Ali cada ideia em ti morreu
Como os teus preconceitos,
Um novo tu se forjou na terra de breu.
Permaneceste longo tempo calado
À espera que a palavra te encontrasse.
Para que o teu novo eu,
Despido de todos os metais,
Se revelasse com audácia.
E agora és matéria de um novo universo
Tudo o que és se revelou à sombra da acácia.
Neófito, doaste o teu coração
Para construir um templo de alegria,
O teu caminho, trilhado de imperfeição,
Molda as cordas do templo de Salomão,
Talhas a pedra da meia-noite ao meio dia.
30.12.2017
C. A. Afonso
Urgência
É urgente o dia
Urgente a palavra
A gaivota que transcreve o silêncio;
É urgente amanhecer
Cada janela é urgente,
É urgente viver.
É urgente o amor
Urgente o olhar
Os lábios que dizem o instante;
É urgente ser
Mais do que si próprio,
É urgente morrer.
É urgente a poesia
Urgente a paixão
Um mundo que gira no olhar;
A saudade é urgente
Um pedaço de ilusão,
É urgente sonhar.
17/04/2018
C. A. Afonso