CICLOS DA VIDA
Crescem ânsias em nós, ondas festivas
Soçobrando, depois, gotas caídas
Na dança dos ritmos místicos do tempo.
Em assombrosas vagas descrevemos
A rota que dá rumo ao infinito,
Mas se o impulso de chegar é imperito
Logo outra vaga altiva se levanta
E um novo ciclo na vida se adianta
E novas vagas nascerão quando quiseres.
E é sempre a mesma dança oculta das esferas
É sempre o mesmo bailado das esperas
Que a vida é um eterno retorno
Em ciclos redundantes e ascendentes
De perfeita fusão com o Universo....
Carla Furtado, in "Entre o Sono e o Sonho - Antologia de Poetas Contemporâneos"
ESTÁTUA DO TEMPO
Sucedem-se dias como colinas áridas
No desafio da exaustiva caminhada.
Não te deixes erodir pela corrosão do vento,
Pois nem o tempo ilude a eternidade.
( Tu és a tua alma, mas a tua alma é mais )
Procura-te, mas, nunca te encontres totalmente,
E se te pensas encontrar, perde-te novamente,
Pois só na escuridão dos dias a luz da alma faz sentido.
( Tudo sombrio e denso... Ah! Se não fosse o céu da tua alma... )
Pensas-te uma estátua
Que se embriaga de vento e nunca passa.
Não percebes que és somente
Um átomo inserto na estátua do tempo,
E que tu é que passas pelo tempo e não o tempo que passa...
Que és como uma vaga num oceano imóvel
E que, no entanto, também tu és composto da matéria das águas...
Deveras, os dias, sucedem-se e parece,
Que nada sobre nada permanece...
Mas, é a impermanência um atributo da eternidade.
A respiração incessante do mundo:
... Deus-na-sua-interna-felicidade...
HOJE
Hoje estou
Só entre palavras
Que teimam em permanecer
Como pedras
Silentes e paradas
No livro branco onde me habito.
Perdi-me das horas que restavam
E o crepúsculo emergiu por mim
Excessivamente adentro,
Em escuridão descompassada.
Em vão, uma chama bruxuleante arde
Como estrela imperturbável
(...pudesse a beleza transformar-me …)
Arde como um incêndio que grassa
Nas montanhas. Mas, ao longe…
Onde não queima, não aquece,
Não se extingue, nem permanece,
Onde é apenas um fulgor a acender
De luz um céu dolente,
E em mim
Um desejo de arder somente
Sem palavras e sem gestos.
Uma certeza: de ser mais
Do que um rosto incógnito
Na noite inalterável.
Talvez uma alma que se consome em outra Alma
Talvez um átomo de luz a clarear a noite
A minha, a tua, a nossa noite
A noite dos desalumbrados.……
JUSTITIA
De segredos te encerras, deusa
De segredos te enovelas
De segredos te consomes
E acautelas…
De segredos te ocultas,
Pousando na cidadela
A sombra, apenas,
De mais densa luz
Que não desvelas…
De segredos te encerras, deusa
Nocturna e sedutora,
Esfíngica e bela…
Sapiente sentinela,
Que na Tríade da Pólis
Se constela.
De segredos te encerras, deusa...
De coração pétrido,
E enigmática, austera, selas
Com ordem, sublevação.
(Mas, eis que sepultas, então,
A lágrima que ocultas,
No aluir do teu íntimo perdão…)
Justiça! Justiça!
Quantos desenganos são....
Buscamos teus arcanos, mas em vão…
Pensamo-nos divinos, de humana condição…
Se, ao menos, em nosso palpitar profano,
Infundisses, da justiça divina, a humana cognição!…
Justiça! Justiça!
O teu perdão…
Pois Tu é que és Divina!
Mas nós…não...
SONETO
No silêncio acontece que aconteço
E no silêncio que acontece me anoiteço
E de estrelas me refuljo e me refaço
No tempo íntimo dos íntimos compassos
No silêncio me ausento e precipito
No poema inacabado em que me habito
E em versos ordenados me sustento
De palavras erigidas pelo vento
Mas no silêncio da matéria rarefeito
A flor mais fina do silêncio em que me deito
É de seivas invisíveis afluente...
Dos Teus braços que me cinjem e me deleito
No silêncio dos dias imperfeito
Minha Alma Te busca: Omnisciente
O MEU MISTÉRIO
o meu mistério
é o mistério
de haver oásis e arco-íris
de haver partos e haver caminhos
sinuosos e difíceis
em direcção a feudos encantados...
é o mistério de haver frutas maduras
que se desprendem de árvores em flor
e tesouros encerrados
em cascos de navios antigos e perdidos
na história do tempo
submersos em águas innavegáveis
onde só se pode naufragar...
e até de haver morte
e de haver vida para além dessa morte...
é o mistério de haver serras
altivamente talhadas
na nudez exposta
de pedras multiformes
e passarinhos gorjeando nos beirais
de casas deformadas e ancestrais
qu’inda murmuram
ladaínhas extasiantes...
é o mistério de haver fendas
rasgadas sobre rochas
num choro convulsivo
de águas puras seculares
e haver relâmpagos
fulgentes e contínuos
desafiando a noite imóvel
de traçados regulares...
o meu mistério
não é mistério nenhum
é apenas uma força em contenção
uma alma em secreta vibração
um silêncio exuberante de expressão
que te comove e incendeia
nas veias qual tumulto ateia
o fogo primitivo da paixão...
SEGREDO
segredo ao teu ouvido
o silêncio das manhãs enfeitiçadas por luz
e tu segues o meu olhar como quem busca um deus
eu não profetizo a beleza que te conto
vejo-a como quem acredita no vento
e na existência do amor
vejo-a como quem acredita no tempo
(que tudo purifica meu amor)
segredo ao teu ouvido
o silêncio dos nenúfares a vogar
e sei que não entendes
porque para ti as flores não têm alma
mas eu digo que nós somos a alma das coisas
o términus de todos os significados
em nós desagua o simbolismo da vida
não há quem entenda
eu segredo ao teu ouvido
não porque entendas
mas para que entendas
as metáforas imprecisas
dos motivos e dos porquês
e tu debruças-te como se
pela primeira vez
sobre o lago da existência
mas a essencial pergunta não te ocorre
não vês que é no vagar e no silêncio que se morre?
não vês que sou eu que não entendo?
não vês que eu sou uma pergunta irretratável?
não vês que eu não tenho respostas?
por isso me nutro de beleza e de silêncio
as únicas coisas do mundo que não precisam explicação
espelhos que são a minha casa
HOMEM PROSAICO
O riso ternura dos teus lábios aceno
O perfume cristal do teu pescoço gazela
O cálice tempo que a tua força sustenta
Por sobre a mesa
A face branca do teu rosto luar
O vibrar filigrana do teu olhar crepúsculo
A gravata atadura que o teu colarinho prende
Sobre a camisa
O movimento distinto dos teus ossos alabastro
A cadência musical da tua respiração pássaro
Os botões de punho ouro com que distingues a
Tua prosaica existência
O domesticado ondulante do teu cabelo mar
A ajeitada selva da tua barba amazónia
O after - shave subjecticida – auto - repelente com que abafas
A tua identidade
O sonho defraudado da tua juventude bandeira
A lágrima chuva dos teus olhos céu
O coração puído que te recorda a distância
De ti próprio
TU MINHA ÁRVORE SEM NOME
Tu
minha árvore sem nome, história sem tempo,
meu leito de abandono e deserção,
Raiz
adventícia da esplendorosa Primavera em gestação.
Folha
seminal, trifoliada, oval, orbicular, lobada,
folha de ouro, herança de à terra vinculada.
Âmago
de todas as luminescências que me habitam
crepúsculos incandescentes, impossíveis que me invitam.
Mas tu,
agora gota, agora água, agora arco-íris diluído em mágoa, agora,
água-régia
que embriaga e dissolve em aguarelísticas imagens
esta paz cruxiforme das paisagens.
Recantos
de pureza inesperada, são teu berço, teu braço, teu insólito regaço,
meu céu debutante e sem cansaço.
Oh natureza curvilínea,
de cíclicos e solenes retornos sobre a terra!
Só tu,
sempre estas águas, mansamente debruçadas
sobre minhas esquivas margens escarpadas....
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Carla Furtado, in "Entre o Sono e o Sonho - Antologia de Poetas Contemporâneos"