DESTINOS CRUZADOS
"Alô, Alex?"
"Oi!"
"É a Letícia, tudo bem?"
"Oi Lê"
"Liguei pra dizer que vou fazer um jantar pra nós. Você vem?"
"Legal!" - disse com espanto. Ela, afinal, nunca gostou ou quis cozinhar durante esses três anos de namoro.
"Então você vem?" - agora ela estava surpresa. Ele nunca gostou de nada romântico e que não pudesse controlar.
"Lógico! Que tal um filme tarde da noite?"
"Filme?!" - ele enlouqueceu, com certeza! Conversa estranha! Alex nunca se importou com filmes. Ele só gostava de ganhar dinheiro. - "Claro!"
"Você escolhe." - ela, definitivamente não está bem, pensou. Letícia nunca gostou de nada além de coisas que reforçassem sua beleza. Era o estereótipo narcisista vivo!
"Ok!" - qual seria essa nova versão de Alex? Ele, tão controlador, estava deixando ela decidir? Era assustador.
"Que horas?"
"A de sempre." - ele sempre passava na casa dela para certificar-se de que tudo estava sob seu controle.
Alex riu:
"Você deve estar fazendo piada, né? Às vezes você é muito cruel! É a primeira vez que você me chama pra fazer algo romântico! Já sei: você sabe o quanto gosto disso e resolveu me zombar...Letícia, você é má!"
"Como? Não estou entendendo..."
"Você é má sim! E estranha...e parece outra pesso..."
"Pessoa ? Espere, será que somos quem pensamos que somos? Sou Letícia, noiva de Alex e..."
"Noiva? Não, não. Sou Alex, namorado de Letícia."
"Qual seu número?"
"22655551"
"Opa, liguei errado. Desculpe."
Então desligaram o telefone.
Na mesma noite, Letícia e Alex, o noivo, entrando em um restaurante:
"Não, não. Não quero ficar aqui. Gosto da minha casa, do conforto do meu território."
"Letícia, por favor! Você precisa viver meu mundo. Quer casar? Então, tem que me acompanhar. Garçon, o vinho mais caro, por favor! Com sorte, sairemos em alguma coluna social amanhã. Sorria!"
"Por que você não arruma outra noiva? Eu não sou a mulher perfeita que você quer."
"Não, não é, mas você tem os olhos que eu quero. Minha cara, você será perfeita, acredite!"
Pela porta principal, outro casal chegava em clima de discussão. A loira, alta e esbelta, mostrava-se irritada porque o namorado estva trajado em desacordo com o ambiente e, o que era uma blasfêmia, disse que não gostava de lugares da moda:
"Alex, meu querido! O que faz aqui?" - disse a loira em direção de Alex, o noivo.
"Letícia? Quanto tempo!"
"Esse é meu namorado Alex."
"Essa é minha noiva Letícia."
"Que engraçado! Temos os mesmos nomes. Alex, meu namorado, estava me dizendo que uma Letícia telefonou hoje cedo, por engano, e ele pensou que fosse eu. Tão dramático!"
Letícia, a noiva, corou e olhou para os olhos de Alex, o namorado.
Os quatro se sentaram em uma iluminada e farta mesa. A noite passou entre copos de vinho e papo furado. Ao final, cada um foi para sua casa. Cada um foi para o seu destino: o rompimento dos dois relacionamentos foi inevitável.
Anos depois:
"Mamãe, a gente vai passear esse fim de semana?"
"Talvez, mas acho que seu pai vai querer ver um filme e eu vou cozinhar coisas gostosas para vocês. Amo cozinhar!"
"Que foto é essa?"
Ela estava olhando um caderno com uma fotografia antiga em que quatro pessoas jovens e bonitas estavam em um restaurante. Eles sorriam sorrisos vazios e cansados. Eram infelizes naquela época.
"Sou eu, seu pai e dois amigos: Alex e Letícia."
"Eu já existia?"
Ela sorriu e bagunçou o cabelo da criança:
"Não, seu pai e eu nem namorávamos. Aliás, nós no vimos pela primeira vez durante esse jantar."
"Como foi que vocês se conheceram?"
"Alex, venha explicar para seu filho como nos apaixonamos? Vou preparar um sanduíche."
"Bom, tudo começou quando sua mãe discou um número errado de telefone e eu disse "alô"..."
UMA SOMBRA
Um mundo num vaso de cristal
uma bola de sabão na escuridão
um sonho quebrado,
uma vida repartida,
um momento para sempre
Tudo é tão complicado
me afogo em decisões
nubladas por indecisões
Como será a vida no futuro?
Como serei se os fatos caírem?
Não suporto esse medo
Tenho sonhos que não haverá
nada além disso
O que fazer?
Sempre precisei do seu carinho
mas, deveria ser tarde, pois fui demais
Uma sombra rodeia as imagens
e tudo é assustador
Será que continuarei seguindo?
ANO: 1998
MEDO
Se for assim,
anjos de marfim,
a morte é longe
e perto de mim
azul do hoje,
amanhã talvez
Se for assim,
anjos de cetim,
a morte é perto
mais perto do fim
enquanto respiro
sufoca-me o frio
Se for assim,
anjos de alecrim,
estou em guerra
na Terra
de perigo,
aviso,
castigo
Medo de viver?
ANO: 1996
FRASES
Ninguém é completamente feliz e livre pelo simples fato de existir - 1995
Mais sujo que o mundo só o meu mundo. - 1995
Nunca deseje morrer. Além de morrer em vida, você morrerá em espírito e se transformará numa parte do nada. - 1995
A beleza do mundo não está nas palavras, mas sim depois das janelas, portas e paredes. Está lá fora, debaixo do sol, no riso das pessoas. A beleza está na vida. - 1995
Sabia que você é muito especial? Tão especial que é capaz de ser especial para alguém especial como eu. - 1995
Às vezes a vida é só um subir e descer da escada e ir de encontro ao nada - 2003
A maior grandeza do ser humano é saber que a cada ida a volta é impossível. - 1998
MIL E UMA NOITES DE MENINICE
Alberto, o certo,
fundador do deserto,
do ego, do elo
e hoje estão tão perto
(o ciclo vicioso da vida)
Serginho, meiguinho,
tão pequenininho!
Voou no perigo
e ficou esquecido
(um amigo)
Alceu, foi o seu
trampolim pra perdição
da antiga e tão nova
passada geração
Miguel, de véu
o velhinho volante
vestia vontade
de ser flutuante
(que tédio!)
Carlão, o doidão,
cabelos longos, ilusão!
Na noite de barulho
foi meu rei de confusão
(louco, louco...)
Marcelo, que tédio!
E quanta encenação!
A amiga dormia cedo
e nós na multidão
(foi uma traição)
Luiz, morava ao lado
ao fato, à precisão
tão fofo e tão pacato
e amigo de coração
(fui inocentemente seduzida)
Manu, foi engraçado,
foi bom, foi safado,
foi tudo apenas um dia
e fugiu com minha amiga
(a vida é uma comédia)
Fábio, ferrujinha
tinha cara tão fofinha!
fomos rezar e descansar
mas o destino nos fez beijar
Flávio, foi meu amigo
e tão bonito, o Don Juan
da adolescência, da nostalgia
viciei-me no seu afã
Adriano, o maluquinho,
no carnaval, meu pierrot
me tocou profundamente
foi-se embora e não voltou
(eu sou colombina e você meu pierrot)
Eduardo, loiro tarado
era mais velho e sensual
foi interessante estar ao seu lado
alucinante seu ritual
(se seu fusca falasse...)
Fabiano, doentio
o problmático e sem amor
tenho nada à lhe dizer
indiferença ao seu sabor
(hipócrita!)
Giovane, meu cabeludo
Gigio, sabe-tudo
senti demais quando você
não quis mais me aquecer
(Gigio, Gigio...)
Rick, meu ideal
meu platonista sentimental
o que era fundo e eterno
evaporou-se num cemitério
Marcel, o meu céu
Primeiro homem a aventurar
na mulher que ia nascer
naquela noite de surpresa e prazer
(história forte)
Jiani, era uma vez,
num verão perfeito à beira mar
sol, areia, água
e sua língua a me amar
(milhões de gritos de prazer)
Jorge, me desculpe,
nunca quis te magoar,
mergulhou tão profundo
e não consegui te amar
(desculpe)
Rafael, o baixinho
foi legal ter teu colinho
foi num tempo inocente
e você foi um presente
George, tão inglês,
poderia ser árabe ou japonês,
o seu modo intelectual
me seduziu, sensacional!
(glasses and blue eyes)
Renato, sinto muito,
mas não pude ser assim
nada fiz pra ter você
só queria ser meretriz
(desculpe)
Thomas, meu alemão,
seus olhos cor do sem fim
uma viagem ao teu país
e nos lençóis de cetim
(voltar pra Berlim)
Cleber, foi tão bonzinho
meu menino, meu querido
desculpe se te magooei
queria amar, juro, tentei
Alex, foi sem querer
nunca quis magoar você
simplesmente não teve "um quê"
desculpe todo o auê
Carlos, o sem vergonha
foi tão bom ter sido assim,
uma noite saborosa,
mas foi tudo o que estava afim
(loirinho)
Flávio, não me leve a mal
não estava no humor correto
você foi muito legal
mas não consegui fazer o certo
Paulinho, de um carnaval,
o pigmeu e sensual
foi uma noite tão musical
mas...quem é você afinal/
Rodrigo, lindo sorriso
nada sei sobre os fatos
apenas lembro que no seu carro
registrei o seu retrato
Júlio, de São João
olhos azuis da imensidão
foi tão legal tê-lo ao meu lado
mas nada sei do seu coração
Daniel, não foi por mal
não quis te namorar
muito menos te magoar
apenas quis me deleitar
(desculpe)
Joaquim, meu pequenino
gostei de ti, meu safadinho
não esqueci os teus olhinhos
e de todos, foi o mais novinho
André, fui muito errada
sei que fui safada
mas não tive outra opção
porque viver era minha solução
Carlo, meu italiano,
quanto deleite na sua cama
a Itália foi o local do mundo
mais quente e mais em chama
Rafael, o meu bedel
intelecto e sensual
por tras daqueles óculos
tinha um homem genial
(disciplina era seu nome e o meu era bagunça)
Ricardo, foi lá na praia
na cobertura, toda molhada
aquela chuva nos atiçava
eu eu, mulher, te desejava
Mário lá de Brasília
loirinho e tão meiguinho
nos teus braços adormeci
a noite foi de tão carinho
Paulo foi o primeiro
da família dos três irmãos
impiedoso e forasteiro
me beijou com decisão
Luís foi o segundo
da família dos três irmãos
era mais novo e mais risonho
e não tocou meu coração
Alexandre, o grande
da família dos três irmãos
era fogo e muita brasa
me queimou a separação
Marcelo, o meu doutor
mais velho, me enfeitiçou
me seduziu como ninguém
e como veio, me deixou
André, meu grande amigo
foi de repente, sem refletir
que na noite fomos amantes
inesquecível foi te sentir
E assim muitos se foram
e muitos ainda virão
acho que chego aos 40
pra escolher um coração
ANO: 2000
O DRAGÃO E A BAILARINA
Ontem, subindo o morro
um dragão de cauda longa
que andou tantos caminhos
de uma vida
tão cansada de ser só
Cuspiu gelo enraivecido
num potinho made in China
cantou sonhos coloridos
de uma doce bailarina
Onde, subindo o morro
um palhaço de aço
tão bobo,
fez nascer um ar cansado
de uma vida
tão ardente,
tão contida
Viu dragão, duende, bailarina
e chorou porque lembrou de sua filha
que não teve mas nasceu de seu suor
Foste pai, avô, neto da menina
que lhe tocou e aprisionou
numa cauda de dragão
ANO: 2002
LIQUIDIFICADOR DE SENTIMENTOS
Um vazio sem identidade,
um triturador sem eletricidade,
um demolidor confuso,
uma peça a mais,
um local obscuro
o tempo não volta atrás
Esmagador de esquecimento
tudo feito sem movimento
com massa, óleo, cimento
uma máquina ou sentimento
cada vez mais girando,
triturando, confundindo,
esmagando e diluindo
Como explicar essa invasão?
Simples liquidificador ou homem?
Eis a questão
ANO: 1995
VALE DO ESGOTO
O vento sopra no portão
Até que ponto o fim está perto?
Longe de algum parco lugar
Onde filosofias de revistas
Jorram nas mentes doentias
E essa sombra colossal?
E Merlin, vem buscar-me?
As pessoas chegam para assombrar
Todo o temor enternecido
De alguma coisa que um dia foi
Dói, a vida dói
E a cada náusea está partindo
O princípio de um longo fim
Estou amando a morte...
ANO: 1997
LIXOS
Lixo
Lixa
Fico
Ficas
TV
Rádio
Poder
Pátrio
Ordem
Progresso
Matéria
Sucesso
Vocês
Eles
Eu
Vezes
ZERO!!!
ANO: 1993
JOÃO NINGUÉM
Ele nasceu do nada
Cresceu do nada
Viveu do nada
Só suas ilusões o sustentava
Ele passava fome
Não tinha nome
E sempre come
Da mão de um pobre homem
Mas um dia cansado de tudo
De mal com o mundo
Foi lutar
Pra se sustentar
E não acabar
Com fome de não poder falar
No primeiro ano foi aquele pano
De só trabalhar
Não ter onde morar
E se matar
Pra ser alguém
Ia de trem
Trabalhar sem
E não tem Ninguém
No segundo ano
Não teve nem pano
Não tinha trem
Vivia sem
Trabalhar também
Era o "João Ninguém"
Ele nasceu do nada
Cresceu do nada
Viveu do nada
Nem suas ilusões o sustentava
Não tinha a quem
Pedir amém
Diziam estar sem
Pois ele era o "João Ninguém"
ANO: 1993
Adoro suas poesias como adoro seus lábios, minha esposa amada.