METRÓPOLE
Toda noite há uma lembrança
no meio do nada que restou
Faço parte do tudo,
onde vozes gritam com o vento
Só o silêncio pode dizer
as vezes que ri,
as vezes que chorei,
quando gozei,
quando menti,
quando gritei
Sou um todo envolto ao nada
sou lembrança que nunca apaga
Diga-me onde fica nosso novo canto?
Nosso encanto, nosso pranto?
Estou aqui, ao seu lado
pensando quieta, chorando
quero o amor
quero o orgasmo
quero a vida
e você só me trouxe partidas
Sou assim,
preciso que você cante,
no silêncio da noite,
junto comigo
a loucura que ninguém viverá por mim
Segure-se nos meus lábios,
nos meus sonhos
só eles dizem a verdade
ANO: 1996
PEDAÇOS
Foi num desses dias em que o tédio domina o ser mais insignificante, que aprendi a viver. Sinceramente, não me interessava as consequências do futuro porque talvez não tivesse um pela frente.
Conheci a vida tarde, mas de uma forma intensa. Drogas e aventuras embalaram minha entrada na vida adulta.
Hoje sinto uma dor tão incrivelmente forte que chega a sufocar o que restou de mim. Quem sou eu? Eu existo?
As viagens sóbreas da vida são mais alucinógenas do que uma balinha.Será que um dia a humanidade será mais receptiva e acolhedora?
Os homens são os animais mais complexos que já vi! Talvez queria estar onde estive com pessoas que já vivi.
A dor de um viciado em sonhos é maior que sua jornada social. Por que o mundo insiste em ignorar ou desprezar o diferente? Nós existimos! Grito novamente: Nós existimos!!!
Preciso de um buraco para ficar e encontrar-me de verdade. Não consigo respirar nesse turbilhão de compromissos impostos desde que nascemos.
Meus amigos estão por aí, ligados num mundo externo. Estou presa, sozinha. Sair da escória e voltar para a história? O sentido está se perdendo novamente e eu estou me desfazendo. Me perdoe!
Sábado, aquele sábado! Estive lá no momento certo e na hora certa, apenas não fui a pessoa certa. Estou aqui, hoje, aguentando os resultados dessa sólida viagem.
Do lado de fora está o medo de correr os mesmos riscos. Talvez eu já esteja caída numa dessas armadilhas factuais e sem volta.
Meu corpo está fora da casca, mas meu coração está protegido pelo meu temido eu. Como é difícil ser alguém!
Espero encontrar o verdadeiro caminho. Continuar andando...
ANO: 1995
DENTRO DESSE MUNDO
Vida perdida,
massacrada,
quem nasce ferida,
morre em vida,
vive perdendo,
sofrendo,
vive lutando por nada,
esquecendo:
a dor não acaba!
Ser diferente dói
mata, destroi
Vivo sem nexo,
sou poeta
enfraquecida
por esses curtos longos anos de vida
Se for para ser vegetal
prefiro ser radical,
ou me deixem viver
ou escolho morrer
de tiro, de queda
talvez, quem sabe,
de uma dose a mais
Fui feliz
mas me esqueci
que isso era proibido
agora, com licença,
acho que puxarei o gatilho
ANO: 1995
GOTAS
Dádiva dos deuses,
no ex-zul celeste
caem uma
caem duas
e correm
todas
para o mesmo verão,
pingando,
girando,
caindo,
sumindo,
na poça
que roça
a palma do chão
Longas,
curtas,
azuis,
transparentes,
de sereno,
orvalho,
chuva,
temporal
Bricalhonas, vem gritando,
ou caladas, vem descendo...
...garoa fúnebre,
pingos quentes,
gotas de natureza
humana ou animal,
formam rios, formam choros
são de chuva,
chuveiro,
temporal
ANO: 1999
LIQUIDIFICADOR DE SENTIMENTOS
Um vazio sem identidade,
um triturador sem eletricidade,
um demolidor confuso,
uma peça a mais,
um local obscuro
o tempo não volta atrás
Esmagador de esquecimento
tudo feito sem movimento
com massa, óleo, cimento
uma máquina ou sentimento
cada vez mais girando,
triturando, confundindo,
esmagando e diluindo
Como explicar essa invasão?
Simples liquidificador ou homem?
Eis a questão
ANO: 1995
DESTINOS CRUZADOS
"Alô, Alex?"
"Oi!"
"É a Letícia, tudo bem?"
"Oi Lê"
"Liguei pra dizer que vou fazer um jantar pra nós. Você vem?"
"Legal!" - disse com espanto. Ela, afinal, nunca gostou ou quis cozinhar durante esses três anos de namoro.
"Então você vem?" - agora ela estava surpresa. Ele nunca gostou de nada romântico e que não pudesse controlar.
"Lógico! Que tal um filme tarde da noite?"
"Filme?!" - ele enlouqueceu, com certeza! Conversa estranha! Alex nunca se importou com filmes. Ele só gostava de ganhar dinheiro. - "Claro!"
"Você escolhe." - ela, definitivamente não está bem, pensou. Letícia nunca gostou de nada além de coisas que reforçassem sua beleza. Era o estereótipo narcisista vivo!
"Ok!" - qual seria essa nova versão de Alex? Ele, tão controlador, estava deixando ela decidir? Era assustador.
"Que horas?"
"A de sempre." - ele sempre passava na casa dela para certificar-se de que tudo estava sob seu controle.
Alex riu:
"Você deve estar fazendo piada, né? Às vezes você é muito cruel! É a primeira vez que você me chama pra fazer algo romântico! Já sei: você sabe o quanto gosto disso e resolveu me zombar...Letícia, você é má!"
"Como? Não estou entendendo..."
"Você é má sim! E estranha...e parece outra pesso..."
"Pessoa ? Espere, será que somos quem pensamos que somos? Sou Letícia, noiva de Alex e..."
"Noiva? Não, não. Sou Alex, namorado de Letícia."
"Qual seu número?"
"22655551"
"Opa, liguei errado. Desculpe."
Então desligaram o telefone.
Na mesma noite, Letícia e Alex, o noivo, entrando em um restaurante:
"Não, não. Não quero ficar aqui. Gosto da minha casa, do conforto do meu território."
"Letícia, por favor! Você precisa viver meu mundo. Quer casar? Então, tem que me acompanhar. Garçon, o vinho mais caro, por favor! Com sorte, sairemos em alguma coluna social amanhã. Sorria!"
"Por que você não arruma outra noiva? Eu não sou a mulher perfeita que você quer."
"Não, não é, mas você tem os olhos que eu quero. Minha cara, você será perfeita, acredite!"
Pela porta principal, outro casal chegava em clima de discussão. A loira, alta e esbelta, mostrava-se irritada porque o namorado estva trajado em desacordo com o ambiente e, o que era uma blasfêmia, disse que não gostava de lugares da moda:
"Alex, meu querido! O que faz aqui?" - disse a loira em direção de Alex, o noivo.
"Letícia? Quanto tempo!"
"Esse é meu namorado Alex."
"Essa é minha noiva Letícia."
"Que engraçado! Temos os mesmos nomes. Alex, meu namorado, estava me dizendo que uma Letícia telefonou hoje cedo, por engano, e ele pensou que fosse eu. Tão dramático!"
Letícia, a noiva, corou e olhou para os olhos de Alex, o namorado.
Os quatro se sentaram em uma iluminada e farta mesa. A noite passou entre copos de vinho e papo furado. Ao final, cada um foi para sua casa. Cada um foi para o seu destino: o rompimento dos dois relacionamentos foi inevitável.
Anos depois:
"Mamãe, a gente vai passear esse fim de semana?"
"Talvez, mas acho que seu pai vai querer ver um filme e eu vou cozinhar coisas gostosas para vocês. Amo cozinhar!"
"Que foto é essa?"
Ela estava olhando um caderno com uma fotografia antiga em que quatro pessoas jovens e bonitas estavam em um restaurante. Eles sorriam sorrisos vazios e cansados. Eram infelizes naquela época.
"Sou eu, seu pai e dois amigos: Alex e Letícia."
"Eu já existia?"
Ela sorriu e bagunçou o cabelo da criança:
"Não, seu pai e eu nem namorávamos. Aliás, nós no vimos pela primeira vez durante esse jantar."
"Como foi que vocês se conheceram?"
"Alex, venha explicar para seu filho como nos apaixonamos? Vou preparar um sanduíche."
"Bom, tudo começou quando sua mãe discou um número errado de telefone e eu disse "alô"..."
O DRAGÃO E A BAILARINA
Ontem, subindo o morro
um dragão de cauda longa
que andou tantos caminhos
de uma vida
tão cansada de ser só
Cuspiu gelo enraivecido
num potinho made in China
cantou sonhos coloridos
de uma doce bailarina
Onde, subindo o morro
um palhaço de aço
tão bobo,
fez nascer um ar cansado
de uma vida
tão ardente,
tão contida
Viu dragão, duende, bailarina
e chorou porque lembrou de sua filha
que não teve mas nasceu de seu suor
Foste pai, avô, neto da menina
que lhe tocou e aprisionou
numa cauda de dragão
ANO: 2002
VALE DO ESGOTO
O vento sopra no portão
Até que ponto o fim está perto?
Longe de algum parco lugar
Onde filosofias de revistas
Jorram nas mentes doentias
E essa sombra colossal?
E Merlin, vem buscar-me?
As pessoas chegam para assombrar
Todo o temor enternecido
De alguma coisa que um dia foi
Dói, a vida dói
E a cada náusea está partindo
O princípio de um longo fim
Estou amando a morte...
ANO: 1997
LIXOS
Lixo
Lixa
Fico
Ficas
TV
Rádio
Poder
Pátrio
Ordem
Progresso
Matéria
Sucesso
Vocês
Eles
Eu
Vezes
ZERO!!!
ANO: 1993
LÁGRIMAS DE SANGUE
Era apenas uma vez:
um olhar triste e sombrio
preso no próprio silêncio,
na dor de ser alguém
Quando sorria,
seu sangue brotava
através das lágrimas sufocadas,
da luta de conseguir algo em vão
E chegar lá era ver
a frustração
angústia
Engula seus sonhos,
doce menina!
Dormir tranquilo era ver
que o mundo se consumia
e os nervos ficavam
a flor da pele
e ela...
...não era ninguém
ANO: 1995
Adoro suas poesias como adoro seus lábios, minha esposa amada.