Claudio de Jesus

Claudio de Jesus

n. 1971 BR BR

n. 1971-06-24, Novo Hamburgo

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Fantasia de uma noite de verão

 

Eu hoje, às vezes, me pergunto como era:

Um pesadelo, algum boato ou se existia

Nos dias antes do brotar da primavera,

Só solidão, longo fastio, tarde sombria?

 

O sol chegou já revogando o que houvera

Com um gesto quente acalentou a noite fria 

Lambeu da terra sua geada mais severa

E a fecundou com mil sementes de alegria

 

E hoje há dálias, há alecrins e há violetas

A brisa morna é a terna mão que acaricia

Nesse jardim canta um coral de borboletas:

A dor da noite converteu-se em ardor do dia!

 

Eu beijo cores, toco cheiros, bebo flores 

E que me lembre sempre foi essa harmonia:

A noite avança em serenata de cantores

E o dia escorre em galopante sinfonia

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Poemas

45

Programa dos dias livres

Eu te aguardo para os sábados

Eu te aguardo nos domingos

Sempre te espero em feriados:

 

Tu virás no dia 1º de maio?

Ou passarás só no 7 de setembro?

 

Que seja em 2 de novembro!!

Em dias vagos te aguardo

 

(E se vem, quando vem, bem me tem?)

 

Pareces o papai Noel!

És meu coelhinho da Páscoa?

Rasga o teu Corpo a Paixão?

 

Mas não nasces no Natal,

não ressuscitas ao Domingo,

nem sequer morres na Sexta!

 

Te aguardo pro Ano-novo.

Te espero no Tiradentes.

Nos vemos na Aparecida.

Venha pular o Carnaval!

 

(Mas não vem, nunca vem, mal me tem?)

 

Ontem foi meu aniversário

Tomei dos vinhos mais caros 

para alegrar tua chegada

Acabou que me esqueci 

qual dos anos eu contava

e acordei rouco e enrugado

 

Ah, se eu soubesse, neném,

o dia exato da morte

certeza te aguardaria

confiante na minha sorte!

 

(Certo vem, sem porém, mais além...)

115

Quero aprender a morrer

 

Quero morrer

por morrer

Quero morrer

pra nascer

 

Quero morrer

para sempre

Quero brotar

da semente

 

Quero morrer

masculino

E despertar

feminino

 

Quero tentar

sabor morte

Quero provar

nova sorte

 

Quero cair

de maduro

Ressuscitar

mais futuro

 

Quero morrer

sol poente

E despontar

lua ardente 

 

Quero morrer 

passarinho

Para eclodir 

em teu ninho

 

Quero morrer

na penúria 

E ressurgir

na luxúria

 

Quero

aprender

fenecer

 

Quero

aprender

florescer

 

Quero

aprender

a morrer

82

Confissão

 

Hoje fui pedir perdão a Deus

por algum grave pecado cometido

Mal me olhou e já pediu

Mas que esporte tu praticas?

E me aplicou uma injeção 

no ombro esquerdo

Serei salvo? – Perguntei

Dessa vez. – Respondeu

Graças a…

Passar bem. Até mais ver.

E se foi

Deus cobra horrores por consulta

58

Ave migratória

 

Hoje de manhã, bem cedinho,

um bando de pássaros

negros

passou por sobre mim

feito nuvem em retirada

Acho que dentre eles

nenhum sequer atinou

que um alguém troteava embaixo

as gramas brancas do parque

Mas também eu, veja só,

mal ou menos os pressenti

enevoado que andava

por gelados pensamentos

Foi só agora, nesse instante,

sobre a tela-teto escura

que os repintei

revoando,

em cores vivas

partindo

54

Ato falho

 

Intrigante,

o que a cabeça faz em mim

mal eu ponho em ti meu olho

só me vem: tu, querubim!

Poderia ser o Orfeu

algum deus, Hermes, Cupido

grega estátua de um museu

talvez o Apolo esculpido

Mas me vem: tu, querubim!

Mero conceito rimado

cujo tom, significado

eu bem sei:

Te

quero 

em

mim

45

São Flores de Sangue & Osso

 

Flores brotam de mim

as flores de sangue e osso

 

Nem sempre,

às vezes só de sangue

às vezes só de osso

 

As flores de osso

eu sirvo aos cachorros

ou fervo sopas

que ofereço a convidados

 

As flores de sangue

essas seco com papel

e as escondo 

entre as folhas de um livro

aquele com o título:

Dos Perigos ao Regar Flores de Sangue & Osso

 

(ou as uso para escrever

cartas a Deus, mas isso

não conta, isso é segredo)

 

Já a flor de osso e sangue

essa vendo, essa doo, essa exponho no meu vaso

 

Flores brotam de mim

não só quando me corto

mas também

quando entro num cinema

ou viajo com o ônibus Nº 7

catando de canto a canto

meus cachos pela cidade

 

Não suporto mais 

flor no pé

flor na mão

flores no rosto e pescoço

(e a cara dos passageiros

fingindo desinteresse

como se fosse a coisa mais

natural desse mundo

um homem brotar flores de sangue e osso 

dentro de um ônibus)

 

Vão dizer 

a culpa é minha:

És que te adubas demais!

51

Ao toque do anoitecer

 

Os meus amores não passam 

de lembranças prematuras

uns toques toscos

tonturas

que esvanecem ao sol nascer 

 

Meus desejos são assim

não ardem poros

orifícios

não me elevam a

precipícios

ou me engasgam de prazer

 

São imagens desbotadas

de raras cenas

sustadas

que me embotam 

os pensamentos 

antes de eu adormecer

45

Amor degradável

 

Nosso amor

tem um cheiro de comida

bem gostosa, bem cozida

temperada com primor

Só que há meses esquecida

no fundo da geladeira:

azedou, gerou bolor

 

Ninguém mais nega

que só serve 

para fartar

a barriga da lixeira

 

Ou serviria 

um banquete

para os germes

invisíveis

que pululam 

aos milhões

as terras 

de algum jardim?

38

Aizinhos

 

Ah, meu amigo,

minhas dores

são sem sal

Não sabem o nome

da rosa

nem colhem as flores

do mal

 

São dorzinhas

pequeninhas,

imaginárias

reais,

sobem descem

pela espinha

queimando febres 

locais

 

Essas dores,

meu amigo,

tem caráter

intestinal

não enxergam

além do umbigo

nem acusam

o mal social

 

Bem quisera

as minhas dores

fossem mágoas

mais morais

que abraçassem

o mundo inteiro

me irmanassem

aos marginais

 

Ou quem dera

a dor, amigo,

não fosse

apenas carnal

e esta mera

dor de ouvido

me elevasse

ao celestial

 

Me dói tanto,

caro amigo,

doer dores

tão banais

essas penas

chinfrinzinhas

puramente

corporais

 

Tantas vezes

fantasio

sofrer moléstia 

abissal

ou tormento

tão pungente

que me turve

a luz da mente

e me ascenda

ao surreal!

 

Chega o dia, 

mano velho,

que algum achaque 

fatal

(talvez desgosto

mais sério)

me traga a cura

afinal

soprando o pó

do mistério

dessa indolência 

animal

59

Fui pro ar perdi o lugar

 

Não gosto de me expandir

sempre que me retorno

está faltando um pedaço:

vai ficando dia a dia

largo o rasgo, grande o espaço

onde não cabe mais nada

que se ajeitar no escasso

 

E, no entanto, não encontro

das proporções, a devida

que costure em leves traços

os retalhos de uma vida,

 

quem conserte o estilhaço

e que me lamba a ferida,

quem me contorne um abraço

e me devolva à medida

 

Tudo aquilo que não toco

vaga pra sempre perdido

como um desejo moído

pela pedra do cansaço

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