Poemas
45Programa dos dias livres
Eu te aguardo para os sábados
Eu te aguardo nos domingos
Sempre te espero em feriados:
Tu virás no dia 1º de maio?
Ou passarás só no 7 de setembro?
Que seja em 2 de novembro!!
Em dias vagos te aguardo
(E se vem, quando vem, bem me tem?)
Pareces o papai Noel!
És meu coelhinho da Páscoa?
Rasga o teu Corpo a Paixão?
Mas não nasces no Natal,
não ressuscitas ao Domingo,
nem sequer morres na Sexta!
Te aguardo pro Ano-novo.
Te espero no Tiradentes.
Nos vemos na Aparecida.
Venha pular o Carnaval!
(Mas não vem, nunca vem, mal me tem?)
Ontem foi meu aniversário
Tomei dos vinhos mais caros
para alegrar tua chegada
Acabou que me esqueci
qual dos anos eu contava
e acordei rouco e enrugado
Ah, se eu soubesse, neném,
o dia exato da morte
certeza te aguardaria
confiante na minha sorte!
(Certo vem, sem porém, mais além...)
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Quero aprender a morrer
Quero morrer
por morrer
Quero morrer
pra nascer
Quero morrer
para sempre
Quero brotar
da semente
Quero morrer
masculino
E despertar
feminino
Quero tentar
sabor morte
Quero provar
nova sorte
Quero cair
de maduro
Ressuscitar
mais futuro
Quero morrer
sol poente
E despontar
lua ardente
Quero morrer
passarinho
Para eclodir
em teu ninho
Quero morrer
na penúria
E ressurgir
na luxúria
Quero
aprender
fenecer
Quero
aprender
florescer
Quero
aprender
a morrer
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Confissão
Hoje fui pedir perdão a Deus
por algum grave pecado cometido
Mal me olhou e já pediu
Mas que esporte tu praticas?
E me aplicou uma injeção
no ombro esquerdo
Serei salvo? – Perguntei
Dessa vez. – Respondeu
Graças a…
Passar bem. Até mais ver.
E se foi
Deus cobra horrores por consulta
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Ave migratória
Hoje de manhã, bem cedinho,
um bando de pássaros
negros
passou por sobre mim
feito nuvem em retirada
Acho que dentre eles
nenhum sequer atinou
que um alguém troteava embaixo
as gramas brancas do parque
Mas também eu, veja só,
mal ou menos os pressenti
enevoado que andava
por gelados pensamentos
Foi só agora, nesse instante,
sobre a tela-teto escura
que os repintei
revoando,
em cores vivas
partindo
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Ato falho
Intrigante,
o que a cabeça faz em mim
mal eu ponho em ti meu olho
só me vem: tu, querubim!
Poderia ser o Orfeu
algum deus, Hermes, Cupido
grega estátua de um museu
talvez o Apolo esculpido
Mas me vem: tu, querubim!
Mero conceito rimado
cujo tom, significado
eu bem sei:
Te
quero
em
mim
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São Flores de Sangue & Osso
Flores brotam de mim
as flores de sangue e osso
Nem sempre,
às vezes só de sangue
às vezes só de osso
As flores de osso
eu sirvo aos cachorros
ou fervo sopas
que ofereço a convidados
As flores de sangue
essas seco com papel
e as escondo
entre as folhas de um livro
aquele com o título:
Dos Perigos ao Regar Flores de Sangue & Osso
(ou as uso para escrever
cartas a Deus, mas isso
não conta, isso é segredo)
Já a flor de osso e sangue
essa vendo, essa doo, essa exponho no meu vaso
Flores brotam de mim
não só quando me corto
mas também
quando entro num cinema
ou viajo com o ônibus Nº 7
catando de canto a canto
meus cachos pela cidade
Não suporto mais
flor no pé
flor na mão
flores no rosto e pescoço
(e a cara dos passageiros
fingindo desinteresse
como se fosse a coisa mais
natural desse mundo
um homem brotar flores de sangue e osso
dentro de um ônibus)
Vão dizer
a culpa é minha:
És que te adubas demais!
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Ao toque do anoitecer
Os meus amores não passam
de lembranças prematuras
uns toques toscos
tonturas
que esvanecem ao sol nascer
Meus desejos são assim
não ardem poros
orifícios
não me elevam a
precipícios
ou me engasgam de prazer
São imagens desbotadas
de raras cenas
sustadas
que me embotam
os pensamentos
antes de eu adormecer
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Amor degradável
Nosso amor
tem um cheiro de comida
bem gostosa, bem cozida
temperada com primor
Só que há meses esquecida
no fundo da geladeira:
azedou, gerou bolor
Ninguém mais nega
que só serve
para fartar
a barriga da lixeira
Ou serviria
um banquete
para os germes
invisíveis
que pululam
aos milhões
as terras
de algum jardim?
38
Aizinhos
Ah, meu amigo,
minhas dores
são sem sal
Não sabem o nome
da rosa
nem colhem as flores
do mal
São dorzinhas
pequeninhas,
imaginárias
reais,
sobem descem
pela espinha
queimando febres
locais
Essas dores,
meu amigo,
tem caráter
intestinal
não enxergam
além do umbigo
nem acusam
o mal social
Bem quisera
as minhas dores
fossem mágoas
mais morais
que abraçassem
o mundo inteiro
me irmanassem
aos marginais
Ou quem dera
a dor, amigo,
não fosse
apenas carnal
e esta mera
dor de ouvido
me elevasse
ao celestial
Me dói tanto,
caro amigo,
doer dores
tão banais
essas penas
chinfrinzinhas
puramente
corporais
Tantas vezes
fantasio
sofrer moléstia
abissal
ou tormento
tão pungente
que me turve
a luz da mente
e me ascenda
ao surreal!
Chega o dia,
mano velho,
que algum achaque
fatal
(talvez desgosto
mais sério)
me traga a cura
afinal
soprando o pó
do mistério
dessa indolência
animal
59
Fui pro ar perdi o lugar
Não gosto de me expandir
sempre que me retorno
está faltando um pedaço:
vai ficando dia a dia
largo o rasgo, grande o espaço
onde não cabe mais nada
que se ajeitar no escasso
E, no entanto, não encontro
das proporções, a devida
que costure em leves traços
os retalhos de uma vida,
quem conserte o estilhaço
e que me lamba a ferida,
quem me contorne um abraço
e me devolva à medida
Tudo aquilo que não toco
vaga pra sempre perdido
como um desejo moído
pela pedra do cansaço
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