Poemas
48No barco vago do pai
...o meu pai pescava peixe
em rede que entra e sai
no entra e sai dessa rede
pescava peixe o meu pai...
Negra noite um barco vaga
Vaga o barco num balanço
As ondas gemem risadas
E os ventos caçoam prantos!
...e num vai que vem e volta
e num volta que vem e vai
me ensinou meu pai a voga
e a voga aprendi do pai...
Na maré que sobe e desce
Relanço redes ao mar
Num rumorejo de preces
Pedindo pro pai voltar!
...meu pai me ensinou a orar
contando as ondas do mar
contando as ondas do mar
me ensinou meu pai a orar...
Só uma gaivota responde
Bradando um grito de ai:
E teu pai se foi pra onde?!
Onde foi pescar teu pai?!
...ó filho, aprendi pescar
ouvindo o vento chorar
aprenda a temer, ó filho
os risos loucos do mar...
Foi no mar que vem e volta
E em onda que sobe e cai
Que a vaga remou de volta
O barco que foi do pai!
...o pai pescava seu peixe
cantando pra retornar
o filho pesca chorando
me deixem morrer no mar...
70
Ladainha do Coração Desmesurado
Terça
Ah fosse eu dona Maria
lavava roupa em tua pia
Se eu fosse o Seu João
te tratava a arroz-feijão
Fosse eu irmão do Zé
te passava um bom café
E se fosse a banda Eva
te compunha moda brega
Quarta
E se me dera ser duque
não aceitava retruque
E se me dera ser princesa
te prendia ao pé da mesa
E se me dera ser eu rei
tu me casavas por lei
E se me dera imperatriz
te imputava um fim feliz
Quinta
Ai quem dera eu fosse ele
te pescava com esta rede
Ai quem dera eu fosse ela
só te amava à luz de vela
Ai quem dera eu fosse tu
me chamava meu chuchu
Sexta
Virasse eu um boteco
transbordava o teu caneco
Virasse eu bar de esquina
eu seria a tua ruína
Virasse eu um bordel
tu tinhas puta fiel
Virasse eu Casa Branca
te anunciava zona franca
Sábado
Ah se eu fosse um relés padre
eras mais que só compadre
Ah, se eu fosse um sábio bispo
te ergueria a altar de Cristo
Ah, se eu fosse um cardeal
te elevava a santo Graal
Mas se eu fosse santo papa
eras o herói da Vulgata
Domingo
E fosse eu um beato
veneravas meu retrato
E fosse eu algum santo
tu beijavas o meu manto
E fosse eu um arcanjo
te tocava harpa e banjo
E se no céu fosse eu Zeus
me idolatravas qual Deus
Segunda
Ah se eu fosse mesmo eu
não negavas quanto és meu!
93
A Pathétique de Tchaikovski
As putas do Bukowski
apreciam um bom
Vivaldi
Seus bêbados,
seus ladrões e
os suicidas
papeiam sobre cavalos,
proseiam sobre Rimbaud
e versam sobre Van Gogh
E até seus assassinos
aumentam o volume
do rádio
quando entoa a
Pathétique!
Agora,
o meu vizinho,
— engenheiro
diplomado pelo MIT,
motorista de um Scénic,
pai de Arthur e
Laura Alice —
reclama que
ler Machado
não passa de uma chatice,
põe no zap
que o Buarque
é veado e
bolchevique,
e arregaça
o som do áudio
quando escuta um
Zé Henrique...
(Queira Deus
que no meu
rádio
jamais toque
a Pathétique!)
85
Alma bêbada
Flores Flores Flores Flores
Eu a vejo em mim chorando mares e marés
Vejo-a colhendo cascalhos cinzas me apedreja
Eu simplesmente a vejo beijando grãos, doce ela
Ela está caçoando das nuvens e dançando tempestades
Ela é tão docemente... humilde como o ouro das flores
Ela come loucuras domésticas na praia sua
Saboreia água que a molha nua
Só isso nua santa
Sonho com ela sonhando comigo
Vejo-a tentando, tentando ter compaixão
Oh, ter compaixão de si mesma!
Ela, só ela, seca lágrimas suas
E eu a vejo, a vejo cantarolando poemias
Bêbada, com carícia conforta suas amargas
Ela entra na água some
Ela salgamolha-se no próprio pranto próprio
Amaldiçoando pássaros que não colhem
E lírios que não fiam
E deuses que só dormem, só
Eu a vejo... vejo... eu a vejo
Encosta seus molhados em mim ri
Sacra-me da areia amarezada da noite
E me cobre de si mesma
... De flores e dores
Cuida de solar, brilha no mar
É em mim, é ela que é
Molhada de seu gástrico
Suada de límpidos confessos
...De flores e dores
Ela me há
Ela me em, esquecida
Só
Flores... Flores...
60
Auto de amor e traição na granja do pai João
Cena I
A galinha bateu asa
e pediu cocoricó?!
O galo crispou a crista
e berrou cocorocó!!
Coitadinha da galinha
tá tristinha de dar dó
pois o galo, o safadinho,
tá cantando a carijó!
Coro:
Uma vaca que pastava ruminando tão tristonha
revolveu os olhos brava e mugiu: Ô sem-vergonha!
Cena II
Um pintinho pequeninho
deu um peido amarelinho
e cantou sou um baita galo!
Piu piu piu piava o pinto
olha o cheiro que eu exalo!
Coro:
Uma vaca que sonhava mastigando seu lamento
regalou o olho em brasa e mugiu: Bicho nojento!
Cena III
Noite o galo e uma galinha
foram ao baile da raposa
o seu galo bebeu todas
e flertou com a mariposa
Sá galinha por vingança
dançou já com a tropa toda
e o galinho descornado
foi dormir só co’a esposa
Coro:
Uma vaca que acordava murmurando uma tristeza
viu que o galo cambaleava e mugiu: Ô safadeza!
65
O Jasmim ressuscitado
Na casa da minha amiga
tudo tem lugar sagrado
um copo na cabeceira
zolpidem dormindo ao lado
Na casa da minha amiga
reina um ar empoeirado
não se areja lá faz tempo
nunca passa um namorado
Na casa da minha amiga
reina um ar meio encantado
tudo tem seu pouso certo
e o tempo corre arrastado
Na casa da minha amiga
há cortinas com plissado
me arrepio quando o vento
vem ondear o cortinado
Na casa da minha amiga
toda a mesa tem rendado
e no vaso verde em vidro
um jasmim sonha o passado
Na casa da minha amiga
tudo tem lugar honrado
não se troca não se tira
nem se mexe no estofado
Certo dia a minha amiga
me pregou susto danado
se piscando qual mocinha
com o olhinho rebocado
Na casa dessa minha amiga
já não vou nem correntado
se desfez das tralharias
tomou dinheiro emprestado
e comprou roupa e cortina
em tom vermelho encarnado!
65
Melhor amigo
Um grito gritou prum eco:
Eco é alma penada?
E o eco todo irrequieto:
Nada, nada, nada, nada!
E o grito lançou arteiro:
Quer roubar fruta do conde?
E o eco muito parceiro:
Conde, conde, conde, conde!
O grito pediu pro eco:
Vam‘ brincar de pegar bonde?
O eco não parou quieto:
Bonde, bonde, bonde, bonde!
O grito lembrou correto:
E ele vai pra muito longe!
E o eco com todo afeto:
Longe, longe, longe, longe!
O grito pensou inquieto:
Mas vai saber até onde...
E o eco também incerto:
Onde, onde, onde, onde...
O gritou falou faceiro:
Quer brincar de esconde-esconde?
E o eco sempre ligeiro:
Esconde, esconde, esconde, esconde!
O grito soou contente:
Que brincadeira mais boa!
E o eco que nunca mente:
Boa, boa, boa, boa!
70
Solitude
Aqui há
pessoas sepultadas
em tumbas amplas
abastadas
que ninguém
jamais visita
Não trazem flores
nem prantos
não há
notas de pesar:
De lembrança
só a lápide
à campainha da porta
traz o nome
de um corpo
que a gente toda esqueceu
70
Terezinha
Mamãezinha quando bebe
adormece pelo chão
Papaizinho quando fuma
sente dor no coração
Meu amor quando entorpece
só desboca palavrão
E eu que sou tão miudinha
do tamanho de um fogão
carrego a mamãe pra cama
e o papai para o plantão
O bolso furou
o dinheiro escapou
você se azedou
E o amor que tu me tinhas
era pouco, muito pouco, de tão pouco
se acabou
Ai, na rua, nessa rua, tem um beco...
Lá quem manda e que desmanda é o Salvador
Que ladrilha e maravilha a rua inteira
Con piedritas cristalinas, muy preciosas
Pra acalmar e acabar com toda a dor...
82
Isso seria um poema (se bem pudesse ter sido)
De dona Adélia afirmaram
essa não faz poesia
À dona Clarice, atestaram,
falta a crua maestria
E dona Hilda, acusaram
da mais vil pornografia!
Senhora Prado
senhora Lispector
e até a senhora Hilst
se reencaixaram nos vincos
dos mobiliários domésticos
e criaram seus maridos
sem delírios manifestos
(só em caso de um apuro
financeiro ou de família
recorreram em desespero
à uma antiga bruxaria)
Agora, a dona Adília,
de quem bastou um poema
pra negarem a fantasia
enfartou logo de pronto
e foi ontem sepultada
sem discurso ou honraria
numa cova abandonada
da mais rala burguesia
(só seus versinhos
restaram
e definham em afasia
num magazine esgotado
sobre bolo & astrologia)
(Para: Adélia Prado, Clarice Lispector, Hilda Hilst e Adília Lopes)
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