Claudio de Jesus

Claudio de Jesus

n. 1971 BR BR

n. 1971-06-24, Novo Hamburgo

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Fantasia de uma noite de verão

 

Eu hoje, às vezes, me pergunto como era:

Um pesadelo, algum boato ou se existia

Nos dias antes do brotar da primavera,

Só solidão, longo fastio, tarde sombria?

 

O sol chegou já revogando o que houvera

Com um gesto quente acalentou a noite fria 

Lambeu da terra sua geada mais severa

E a fecundou com mil sementes de alegria

 

E hoje há dálias, há alecrins e há violetas

A brisa morna é a terna mão que acaricia

Nesse jardim canta um coral de borboletas:

A dor da noite converteu-se em ardor do dia!

 

Eu beijo cores, toco cheiros, bebo flores 

E que me lembre sempre foi essa harmonia:

A noite avança em serenata de cantores

E o dia escorre em galopante sinfonia

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Poemas

48

No barco vago do pai

 

...o meu pai pescava peixe

em rede que entra e sai

no entra e sai dessa rede

pescava peixe o meu pai...

 

Negra noite um barco vaga

Vaga o barco num balanço

As ondas gemem risadas

E os ventos caçoam prantos!

 

...e num vai que vem e volta

e num volta que vem e vai

me ensinou meu pai a voga

e a voga aprendi do pai...

 

Na maré que sobe e desce

Relanço redes ao mar

Num rumorejo de preces

Pedindo pro pai voltar!

 

...meu pai me ensinou a orar

contando as ondas do mar

contando as ondas do mar

me ensinou meu pai a orar...

 

Só uma gaivota responde

Bradando um grito de ai:

E teu pai se foi pra onde?!

Onde foi pescar teu pai?!

 

...ó filho, aprendi pescar

ouvindo o vento chorar

aprenda a temer, ó filho

os risos loucos do mar...

 

Foi no mar que vem e volta

E em onda que sobe e cai

Que a vaga remou de volta

O barco que foi do pai!

 

...o pai pescava seu peixe

cantando pra retornar

o filho pesca chorando 

me deixem morrer no mar...

70

Ladainha do Coração Desmesurado

 

Terça

Ah fosse eu dona Maria

lavava roupa em tua pia

Se eu fosse o Seu João

te tratava a arroz-feijão

Fosse eu irmão do Zé

te passava um bom café 

E se fosse a banda Eva

te compunha moda brega

 

Quarta

E se me dera ser duque

não aceitava retruque

E se me dera ser princesa

te prendia ao pé da mesa 

E se me dera ser eu rei

tu me casavas por lei

E se me dera imperatriz

te imputava um fim feliz

 

Quinta

Ai quem dera eu fosse ele

te pescava com esta rede

Ai quem dera eu fosse ela

só te amava à luz de vela

Ai quem dera eu fosse tu

me chamava meu chuchu

 

Sexta

Virasse eu um boteco

transbordava o teu caneco

Virasse eu bar de esquina

eu seria a tua ruína

Virasse eu um bordel

tu tinhas puta fiel

Virasse eu Casa Branca

te anunciava zona franca

 

Sábado

Ah se eu fosse um relés padre

eras mais que só compadre

Ah, se eu fosse um sábio bispo

te ergueria a altar de Cristo

Ah, se eu fosse um cardeal

te elevava a santo Graal

Mas se eu fosse santo papa

eras o herói da Vulgata

 

Domingo

E fosse eu um beato

veneravas meu retrato

E fosse eu algum santo

tu beijavas o meu manto

E fosse eu um arcanjo

te tocava harpa e banjo

E se no céu fosse eu Zeus

me idolatravas qual Deus

 

Segunda

Ah se eu fosse mesmo eu

não negavas quanto és meu!

93

A Pathétique de Tchaikovski

 

As putas do Bukowski

apreciam um bom

Vivaldi

 

Seus bêbados,

seus ladrões e

os suicidas

papeiam sobre cavalos,

proseiam sobre Rimbaud 

e versam sobre Van Gogh

 

E até seus assassinos 

aumentam o volume

do rádio 

quando entoa a 

Pathétique!

 

Agora,

o meu vizinho,

— engenheiro

diplomado pelo MIT,

motorista de um Scénic,

pai de Arthur e

Laura Alice —

reclama que

ler Machado

não passa de uma chatice,

põe no zap

que o Buarque

é veado e

bolchevique,

e arregaça 

o som do áudio

quando escuta um

Zé Henrique...

 

(Queira Deus

que no meu

rádio

jamais toque

a Pathétique!)

85

Alma bêbada

 

Flores Flores Flores Flores

Eu a vejo em mim chorando mares e marés

Vejo-a colhendo cascalhos cinzas me apedreja

Eu simplesmente a vejo beijando grãos, doce ela

Ela está caçoando das nuvens e dançando tempestades

 

Ela é tão docemente... humilde como o ouro das flores

Ela come loucuras domésticas na praia sua

Saboreia água que a molha nua

Só isso nua santa

 

Sonho com ela sonhando comigo

 

Vejo-a tentando, tentando ter compaixão

Oh, ter compaixão de si mesma!

Ela, só ela, seca lágrimas suas

E eu a vejo, a vejo cantarolando poemias

Bêbada, com carícia conforta suas amargas

 

Ela entra na água some

Ela salgamolha-se no próprio pranto próprio

Amaldiçoando pássaros que não colhem

E lírios que não fiam

E deuses que só dormem, só

 

Eu a vejo... vejo... eu a vejo

Encosta seus molhados em mim ri

Sacra-me da areia amarezada da noite

E me cobre de si mesma

... De flores e dores

 

Cuida de solar, brilha no mar

É em mim, é ela que é

Molhada de seu gástrico

Suada de límpidos confessos

...De flores e dores

Ela me há

Ela me em, esquecida

Flores... Flores...

60

Auto de amor e traição na granja do pai João

 

Cena I

 

A galinha bateu asa

e pediu cocoricó?!

O galo crispou a crista

e berrou cocorocó!!

Coitadinha da galinha

tá tristinha de dar dó

pois o galo, o safadinho,

tá cantando a carijó!

 

Coro:

Uma vaca que pastava ruminando tão tristonha 

revolveu os olhos brava e mugiu: Ô sem-vergonha!

 

Cena II

 

Um pintinho pequeninho

deu um peido amarelinho

e cantou sou um baita galo!

Piu piu piu piava o pinto

olha o cheiro que eu exalo!

 

Coro:

Uma vaca que sonhava mastigando seu lamento 

regalou o olho em brasa e mugiu: Bicho nojento!

 

Cena III

 

Noite o galo e uma galinha

foram ao baile da raposa

o seu galo bebeu todas

e flertou com a mariposa

Sá galinha por vingança

dançou já com a tropa toda

e o galinho descornado

foi dormir só co’a esposa

 

Coro:

Uma vaca que acordava murmurando uma tristeza

viu que o galo cambaleava e mugiu: Ô safadeza!

65

O Jasmim ressuscitado

 

Na casa da minha amiga

tudo tem lugar sagrado

um copo na cabeceira

zolpidem dormindo ao lado

 

Na casa da minha amiga

reina um ar empoeirado

não se areja lá faz tempo

nunca passa um namorado

 

Na casa da minha amiga

reina um ar meio encantado

tudo tem seu pouso certo

e o tempo corre arrastado

 

Na casa da minha amiga

há cortinas com plissado

me arrepio quando o vento

vem ondear o cortinado

 

Na casa da minha amiga

toda a mesa tem rendado

e no vaso verde em vidro

um jasmim sonha o passado

 

Na casa da minha amiga

tudo tem lugar honrado

não se troca não se tira

nem se mexe no estofado

 

Certo dia a minha amiga 

me pregou susto danado

se piscando qual mocinha

com o olhinho rebocado

 

Na casa dessa minha amiga

já não vou nem correntado

se desfez das tralharias

tomou dinheiro emprestado

e comprou roupa e cortina

em tom vermelho encarnado!

65

Melhor amigo

 

Um grito gritou prum eco:

Eco é alma penada?

E o eco todo irrequieto:

Nada, nada, nada, nada!

 

E o grito lançou arteiro:

Quer roubar fruta do conde?

E o eco muito parceiro:

Conde, conde, conde, conde!

 

O grito pediu pro eco:

Vam‘ brincar de pegar bonde?

O eco não parou quieto:

Bonde, bonde, bonde, bonde!

O grito lembrou correto:

E ele vai pra muito longe!

E o eco com todo afeto:

Longe, longe, longe, longe!

O grito pensou inquieto:

Mas vai saber até onde...

E o eco também incerto:

Onde, onde, onde, onde...

 

O gritou falou faceiro:

Quer brincar de esconde-esconde?

E o eco sempre ligeiro:

Esconde, esconde, esconde, esconde!

 

O grito soou contente:

Que brincadeira mais boa!

E o eco que nunca mente: 

Boa, boa, boa, boa!

70

Solitude

 

Aqui há

pessoas sepultadas 

em tumbas amplas

abastadas

que ninguém 

jamais visita

Não trazem flores

nem prantos

não há

notas de pesar:

De lembrança

só a lápide

à campainha da porta

traz o nome

de um corpo

que a gente toda esqueceu

70

Terezinha

 

Mamãezinha quando bebe

adormece pelo chão

Papaizinho quando fuma

sente dor no coração

 

Meu amor quando entorpece

só desboca palavrão

 

E eu que sou tão miudinha

do tamanho de um fogão

carrego a mamãe pra cama

e o papai para o plantão

 

O bolso furou

o dinheiro escapou

você se azedou

E o amor que tu me tinhas

era pouco, muito pouco, de tão pouco

se acabou

 

Ai, na rua, nessa rua, tem um beco...

Lá quem manda e que desmanda é o Salvador

Que ladrilha e maravilha a rua inteira

Con piedritas cristalinas, muy preciosas

Pra acalmar e acabar com toda a dor...

82

Isso seria um poema (se bem pudesse ter sido)

 

De dona Adélia afirmaram

essa não faz poesia

À dona Clarice, atestaram,

falta a crua maestria

E dona Hilda, acusaram

da mais vil pornografia!

Senhora Prado

senhora Lispector

e até a senhora Hilst

se reencaixaram nos vincos

dos mobiliários domésticos

e criaram seus maridos

sem delírios manifestos

(só em caso de um apuro 

financeiro ou de família

recorreram em desespero

à uma antiga bruxaria)

Agora, a dona Adília,

de quem bastou um poema

pra negarem a fantasia

enfartou logo de pronto

e foi ontem sepultada

sem discurso ou honraria

numa cova abandonada

da mais rala burguesia

(só seus versinhos

restaram

e definham em afasia

num magazine esgotado

sobre bolo & astrologia)

 

 

(Para: Adélia Prado, Clarice Lispector, Hilda Hilst e Adília Lopes)

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