Poemas
48À Jeniffer Lopez
Jennifer Lopez
foi uma grande artista portuguesa
A internet inteira se tarjou de preto
quando a Jennifer Lopez morreu
Jennifer Lopez foi enterrada no cemitério dos Prazeres
Veio um cardeal e rezou-lhe sete missas
O porta-voz do governo disse
que o Presidente da República
tinha lido todos os livros da Jennifer Lopez
Até as gentes da África e das Américas
enviaram pomposas coroas de flores
- flores brancas, de papel, feitas uma a uma à mão -
Jennifer Lopez amava flores de papel feitas à mão
Ainda bem, as flores de papel não morrem jamais
(mas só se feitas à mão)
E as coroas ainda aguardam no porto de Lisboa
pois ninguém soube o caminho
do túmulo da Jennifer Lopez
Nem o presidente, nem o cardeal, nem o porta-voz do governo
O coveiro diz que nunca leu Jennifer Lopez
É que na lápide doada pelo Estado francês
(O francês em si adora doar lápides)
o escultor desleixado
ou gravemente dislexado
escrevera o nome errado
Nunca se descobriu até hoje
se o túmulo da Jennifer Lopez
é o túmulo da Maria da Silva ou
o túmulo do José da Silva ou
o túmulo da Viana Fidalgo ou
o túmulo do Fidalgo de Oliveira ou
o túmulo da Adília Lopes ou…
54
Há versos no corpo todo
Verso morde, verso expele,
verso fede e verso sua,
versos pés e versos mãos:
um corpo se faz de versos
um verso te enruga a pele
um outro invade o pulmão
há verso que mói as costas
já outros turvam a visão
vivos versos movem pernas
versos mortos cavam chão
há versos pro corpo todo
é o verso que move a mão
o verso que ferve a veia
e o verso da indigestão
um verso sobe à cabeça
e ali planteia a ilusão
há verso que treme o corpo
e o verso só da razão
há versos por todos pelos
tais versos dão comichão
tem verso que é ronco à noite
tem versos na solidão
há versos pra todo o corpo
vêm versos do coração
Mas quando as rimas
se espalham
da cabeça até o dedão
do corpo ao meio
se apossam
mil versos de diversão
71
Abelha Rainha
O barraco do pedreiro
é feito todo de mel
todo dia tinha enxame
azoando o seu Miguel
Vinham tu, vinha a Maria,
vinham Joelma ou Joel
tudo que é abelha pedia
pra provar daquele mel
Na palhoça do pedreiro
amor era um carrossel
um sai-entra todo o dia
do cafofo do Miguel!
Fui pedir ao seu pedreiro
por um basta no bordel
fez zum-zum na minha orelha
e me fez provar do céu
Na maloca do pedreiro
não sou abelha infiel
eu só bebo da doçura
dos favos do rei do mel
Nem mais tu, mais nem Amélia
Nem mais Joelma ou o Joel
vão reinar nessa colmeia
pois me caso com o Miguel!
61
Panapanã
Não têm mãe, nem têm um pai
na brevidade dessa vida
que brotou já colorida
sob o morno sol do ar
Pura seda, finas pétalas
se acenam de par em par
floreiam voltas incertas
pra em nova cor repousar
Beijam flores encantadas
com o sumo deste beijo
e na fome do desejo
querem mil flores beijar
Se de pólen fecundadas
sementes vão semear
sobre folhas como fadas
perolinhas de um colar
Sete noites, sete dias
cumprem a sina de voar
belezas recém-nascidas
para um breve farfalhar
E findada a primavera
se despedem do luar
e com o todo que se altera
vão ao pó do pó voltar
75
Tardezinha ensolarada numa praça de Lisboa
Queria tanto saber cantar
disse a pomba que arrulhava
catando os restos de pão
na beira de uma calçada
Já eu o que mais queria
é poder planar no ar
disse o homem que passava
varrendo o lixo da estrada
Pois não quero incomodar
disse a poeta que ouvia
debruçada na janela
do terceiro ou quarto andar
Já que a mim o que me resta
é só cantar e voar
E baixou as persianas
retornou a sua mesa
e se pôs a rabiscar
68
Breve sonho de fama
Sonhei que da noite para o dia
meu nome tinha ficado famoso
em todas redes sociais
E me nomearam para um prêmio
concorrido e de caráter nacional
Me convidaram a dar entrevistas em
podcasts de abrangência mundial
E eu falava verdades filosóficas:
que tudo me vinha qual sonho
e que eu temia acordar de repente
etcetera e tal, etcetera e tal, etcetera e tal
Me desconvidaram de todos podcasts
Me desnomearam do prêmio nacional
E do dia para noite meu nome foi cancelado
em todas as redes sociais
67
Mais um conto de fada
Lá nas lonjuras dos tempos
houve uma mãe
das mais severas
que de filhos
tinha três:
João, Joaquim, José, e o Adão
que era o seu marido então
Uns guris fortes que eram
bem formados, dedos grossos,
mas viviam maltratados
pela mãe, uma megera,
que adorava uma maçã,
mas odiava gente sã
Certo dia
a mãe se foi
deixando sós o marido,
o muito honrado Adão
mais José, mais Joaquim
e um outro seu irmão
Como o pai sempre fora
gente da boa, decente,
tudo aceita, nunca mente,
viveram quase felizes
o pai manso e os descendentes
até o findar dessa história
Com exceção do João
que migrou
para o tablado
pra purgar um crime à toa
de algum fruto
envenenado
87
O orgulho da família
Meu pai fez milhões
filmando
a vida secreta
dos elfos
dos do ar e dos da terra
dos do fogo e dos do mar
Minha irmã foi a primeira
a escalar
todas as sete
montanhas
da lua
Meu irmão
gastou seus dias
estudando
provérbios gregos
extintos
Minha mãe
a mais premiada
curou males
findou guerras
pondo o rosto
na janela
e semeando
sorrisos
Agora eu
e quanto mim…
sou o único
que ainda guarda
a lembrança
disso tudo
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