Claudio de Jesus

Claudio de Jesus

n. 1971 BR BR

n. 1971-06-24, Novo Hamburgo

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Fantasia de uma noite de verão

 

Eu hoje, às vezes, me pergunto como era:

Um pesadelo, algum boato ou se existia

Nos dias antes do brotar da primavera,

Só solidão, longo fastio, tarde sombria?

 

O sol chegou já revogando o que houvera

Com um gesto quente acalentou a noite fria 

Lambeu da terra sua geada mais severa

E a fecundou com mil sementes de alegria

 

E hoje há dálias, há alecrins e há violetas

A brisa morna é a terna mão que acaricia

Nesse jardim canta um coral de borboletas:

A dor da noite converteu-se em ardor do dia!

 

Eu beijo cores, toco cheiros, bebo flores 

E que me lembre sempre foi essa harmonia:

A noite avança em serenata de cantores

E o dia escorre em galopante sinfonia

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Poemas

48

À Jeniffer Lopez

 

Jennifer Lopez 

foi uma grande artista portuguesa 

A internet inteira se tarjou de preto

quando a Jennifer Lopez morreu 

Jennifer Lopez foi enterrada no cemitério dos Prazeres 

Veio um cardeal e rezou-lhe sete missas

O porta-voz do governo disse 

que o Presidente da República 

tinha lido todos os livros da Jennifer Lopez 

Até as gentes da África e das Américas

enviaram pomposas coroas de flores 

- flores brancas, de papel, feitas uma a uma à mão -

Jennifer Lopez amava flores de papel feitas à mão

Ainda bem, as flores de papel não morrem jamais

(mas só se feitas à mão)

E as coroas ainda aguardam no porto de Lisboa

pois ninguém soube o caminho

do túmulo da Jennifer Lopez

Nem o presidente, nem o cardeal, nem o porta-voz do governo

O coveiro diz que nunca leu Jennifer Lopez

É que na lápide doada pelo Estado francês

(O francês em si adora doar lápides)

o escultor desleixado

ou gravemente dislexado

escrevera o nome errado

Nunca se descobriu até hoje

se o túmulo da Jennifer Lopez 

é o túmulo da Maria da Silva ou

o túmulo do José da Silva ou

o túmulo da Viana Fidalgo ou

o túmulo do Fidalgo de Oliveira ou

o túmulo da Adília Lopes ou…

54

Há versos no corpo todo

 

Verso morde, verso expele,

verso fede e verso sua, 

versos pés e versos mãos:

um corpo se faz de versos

 

um verso te enruga a pele

um outro invade o pulmão

 

há verso que mói as costas

já outros turvam a visão

 

vivos versos movem pernas

versos mortos cavam chão

 

há versos pro corpo todo

é o verso que move a mão

 

o verso que ferve a veia

e o verso da indigestão

 

um verso sobe à cabeça 

e ali planteia a ilusão

 

há verso que treme o corpo

e o verso só da razão

 

há versos por todos pelos

tais versos dão comichão

 

tem verso que é ronco à noite

tem versos na solidão

 

há versos pra todo o corpo

vêm versos do coração

 

Mas quando as rimas 

se espalham

da cabeça até o dedão

do corpo ao meio 

se apossam

mil versos de diversão

71

Abelha Rainha

 

O barraco do pedreiro

é feito todo de mel

todo dia tinha enxame

azoando o seu Miguel

Vinham tu, vinha a Maria,

vinham Joelma ou Joel

tudo que é abelha pedia

pra provar daquele mel

Na palhoça do pedreiro

amor era um carrossel

um sai-entra todo o dia

do cafofo do Miguel!

Fui pedir ao seu pedreiro

por um basta no bordel

fez zum-zum na minha orelha

e me fez provar do céu

Na maloca do pedreiro

não sou abelha infiel

eu só bebo da doçura

dos favos do rei do mel

Nem mais tu, mais nem Amélia

Nem mais Joelma ou o Joel

vão reinar nessa colmeia 

pois me caso com o Miguel!

61

Panapanã

 

Não têm mãe, nem têm um pai

na brevidade dessa vida

que brotou já colorida

sob o morno sol do ar

 

Pura seda, finas pétalas

se acenam de par em par 

floreiam voltas incertas

pra em nova cor repousar

 

Beijam flores encantadas

com o sumo deste beijo

e na fome do desejo

querem mil flores beijar

 

Se de pólen fecundadas

sementes vão semear

sobre folhas como fadas

perolinhas de um colar

 

Sete noites, sete dias

cumprem a sina de voar

belezas recém-nascidas

para um breve farfalhar

 

E findada a primavera

se despedem do luar

e com o todo que se altera

vão ao pó do pó voltar

75

Tardezinha ensolarada numa praça de Lisboa


Queria tanto saber cantar

disse a pomba que arrulhava

catando os restos de pão

na beira de uma calçada

 

Já eu o que mais queria

é poder planar no ar

disse o homem que passava

varrendo o lixo da estrada

 

Pois não quero incomodar

disse a poeta que ouvia

debruçada na janela

do terceiro ou quarto andar

Já que a mim o que me resta

é só cantar e voar

 

E baixou as persianas

retornou a sua mesa

e se pôs a rabiscar

68

Breve sonho de fama


Sonhei que da noite para o dia

meu nome tinha ficado famoso

em todas redes sociais

E me nomearam para um prêmio 

concorrido e de caráter nacional

Me convidaram a dar entrevistas em

podcasts de abrangência mundial

E eu falava verdades filosóficas:

que tudo me vinha qual sonho

e que eu temia acordar de repente

etcetera e tal, etcetera e tal, etcetera e tal

Me desconvidaram de todos podcasts

Me desnomearam do prêmio nacional

E do dia para noite meu nome foi cancelado

em todas as redes sociais

67

Mais um conto de fada


Lá nas lonjuras dos tempos

houve uma mãe

das mais severas

que de filhos

tinha três:

João, Joaquim, José, e o Adão

que era o seu marido então

Uns guris fortes que eram

bem formados, dedos grossos,

mas viviam maltratados

pela mãe, uma megera,

que adorava uma maçã,

mas odiava gente sã

Certo dia

a mãe se foi

deixando sós o marido, 

o muito honrado Adão

mais José, mais Joaquim  

e um outro seu irmão

Como o pai sempre fora

gente da boa, decente,

tudo aceita, nunca mente,

viveram quase felizes

o pai manso e os descendentes

até o findar dessa história

Com exceção do João 

que migrou

para o tablado

pra purgar um crime à toa

de algum fruto

envenenado

87

O orgulho da família


Meu pai fez milhões 

filmando

a vida secreta

dos elfos

dos do ar e dos da terra 

dos do fogo e dos do mar

 

Minha irmã foi a primeira 

a escalar 

todas as sete

montanhas

da lua

 

Meu irmão 

gastou seus dias

estudando

provérbios gregos 

extintos

 

Minha mãe 

a mais premiada

curou males

findou guerras

pondo o rosto

na janela

e semeando

sorrisos

 

Agora eu 

e quanto mim… 

sou o único 

que ainda guarda 

a lembrança

disso tudo

 

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