Desenha-mo-nos lentamente percorrendo flancos lambendo o desejo que corre pela pele.
Desejo-te! Arrepio-te a vontade de me teres agora toda.
Deseja-me! Arrepias-me vontade de te ter agora todo.
Bebo-te! Bebe-me!
Cresce a ânsia de te desenhar de me desenhares com lápis de cera de lua. As bocas são o palco onde as línguas vão dançando ao nosso sabor sem critério...
Esboçam o abrir das minhas pernas o afastar das tuas e as línguas percorrem-nos bailam em nós ávidas!
Cai amor pelo chão enquanto nos tocamos. Néctar! Pingam gestos estalactites na gruta onde nos escondemos. É de pó de cumplicidade esta delícia que bebemos celebrando as festas das danças dos corpos desenhados pelas nossas línguas.
À flor da pele da minha semeias arrepios. À entrada da pele da tua deponho este frio moldado soprado a quente.
Amaciamos o silêncio num jogo de luzes de olhares.
Recolhe-te em mim. Vem passear-te sulca o trilho percorre-me deixa que eu use e abuse que de todo me lambuze te levante cada pedaço de pele pousando neles meus olhos nocturnos te percorra os silêncios com os meus gemidos me derrame me desnude mas no instante em que nos despirmos vamos vestir-nos
Comprazemo-nos trajando adolescências, abafando o som dos risos, quando nos espreitamos à socapa, pela cortina que afastamos na janela dos nossos dedos.
Deleitosa esta espécie de olhar de garotos, nesta ciranda em que dançamos, visualizando-nos tão bem, que nos tocamos. Fundamental saber o que amamos tanto com as mãos do imaginário, com os olhos rasos de mil pedaços, nesta imagem de estarmos juntos. Relevante que nos emocionemos ao experimentar com análoga intensidade desenlear do tempo comum, o tempo só nosso. Singular a carência de cruzarmos silêncios, de não nos deixarmos concluir, numa interrupção atabalhoada própria do desejo de nos mantermos conspirados.
Temos ainda tanto para trocar entre nós. Temos um mundo próprio, esta paisagem pré concebida, grafitada num muro de uma avenida qualquer, só pelo prazer de nos vermos quando por ela nos circulamos.
Importa o resto? Claro que não! Importa que continuemos a compartir silêncios ilimitados. Enquanto continuarmos nesta permuta Importam-nos sim, as frases, imagens nossas que prendemos na lapela, condecorações deste bem-estar que cogitámos: Falta um infinito imenso! Falta o inimaginável para que nos dissipemos!
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E não haverá mais o meu ou o teu
Falavas-me dum livro, bom de ler e reler. Fazes lá ideia das vezes que o pousaremos, junto ao vaso, esse, que ficará silencioso, que se tornará todo ouvidos, no parapeito da janela da casa que construiremos, quando não nos dermos conta que sorrimos, enquanto nos vestimos de tanta carícia bonina, com o som dos pássaros verdes e azuis que nidificarão nos ramos da árvore frondosa que espreitará, curiosa, a nossa história.
Ainda que não saibamos que é baseadoem nós que aquele livro será escrito, por ela, enquanto for crescendo, se for cobrindo de folhas verde esperança, faremos marcadores com as pétalas de rosa encarnadas que nos vamos dar. Festejaremos cada folha e com elas marcaremos os parágrafos mais belos! Seremos felizes quando no livro pegarmos, todo ele pleno do aroma que daquela cor rubra advirá, que será para nós, já que quando nos despirmos, saber-nos-á a tanto, esquecermo-nos do prazer que teremos, por irmos colher, unos, aquele ensejo.
Aprendemos, quando nos esquecíamos, quando nos negávamos olhar, a fixar os movimentos ternos, quando para nós desnudávamos a alma, nos desvendávamos. Julgávamos - nos desatentos, mas, aprendemos, todas as vezes que nos imaginámos a procurar em nós as marcas do tempo imaculado, a semeá-lo no colo, a vê-lo crescer, para que, então sim, nos completássemos, na época em que sequer sabíamos que íamos existir.
Não olhemos para mais nada, nem nos importemos com o tempo que fará, fora do mês que depois habitaremos. Não nos vamos distrair com a árvore. Ouçamos apenas a melopeia dos pássaros que a habitam, então já pais de outros mil, ainda mais coloridos. Não vamos espalhar qualquer preocupação no tempo que ainda poderá faltar para nos unirmos. Não nos neguemos pois que saberemos naquele instante que o verão terá chegado.
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Esvoaços
Uma história como a vossa não se repete. Foi escrita no céu com a tinta de todos os beijos que foram semeando no campo do vosso encontro. É a esse mesmo céu que a vou buscar, sempre que desejo ouvir-vos voar. Se te vir rolar uma lágrima, não ta vou limpar, não a farei parar. Vou ver como ela se vai aninhar nesse vosso começo.Tudo ficará quieto e eu vou poder olhar-vos, sem que mais nada seja preciso dizer, apenas imaginando que, talvez um dia, seja eu capaz, de esvoaçar assim, no horizonte dum abraço. Um beijo, Mãe.
Não quero que disfarces, quando corres a vestir à pressa um sorriso, porque te vejo chorar.
Não faças isso, peço-te! Não vês? Esse teu choro é o colar que te envolve que te torna ainda mais bonita. É o que ele te diz do olhar que guardas.
Curioso! Nem reparas que não estás aqui, pois não? Que te deixas levar, derrogando a falta que sentes ao tornares-te no gesto, alagando-te por esse campo de lembrança com o movimento sereno em constante crescendo nas palavras só vossas!
Adoro ouvir-te voar! Quão doce ver como lhe vestes a voz, deixando que ele te vá despindo, passeando pelos segredos bonitos que te vai sussurrando. Abres as janelas do lar do vosso começo com tal enlevo, a casa onde guardas as mais ternas expressões, os vossos olhares, que bordas com beijos todos os que ele te vai depondo, à entrada do teu olhar!
Por isso te peço: Não escondas o rosto mesmo que seja com pétalas de lágrima. Deixa que se espalhe a saudade, aceita dela esse enlaço, vive-o e chove! Chove muito, muito, para que eu apreenda de ti esse talhe de sedução e me torne capaz de voar assim, sentindo que me olham, comovidos, tal como estou eu agora a olhar-te saboreando o prazer imenso de esvoaçar no céu desse tão vosso terno e doce abraço!
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Voo
dispo-me para me vestir de ti. leva-me num simulacro de rapto. leva-me que volto a ter asas que te acompanho num voo planado.
sentes a vontade de arrepiar cada um dos poros do corpo?
deitada na noite soletro os teus gestos. finge que dormes finge para que invente o tempo capaz de parar. quando abrires os olhos serei desejo rubro.
Agora vem para te degustar o corpo e reter na boca o sabor dúctil do poema.
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Vira do Minho
Tão belo, cheio de cor. Tão belo, cheio de música, pleno de finais da tarde, pleno de noites para se bailar na eira, ao som dum acordeão, duns ferrinhos, duma viola braguesa, dum cavaquinho.Demoramo-nos por aqui, onde o tempo nos dá o braço, nos puxa, nos rodeia a cintura e nos encanta, ausente de pressa.
Queria ser vilarejo, Aldeia de casas caiadas, Sardinheiras nas janelas, Cheiro a flor de campo pelo chão! Ser a fonte, Beber de água, Ser ribeirinha a correr, Regadio de muitos prados.
Queria ser o "bom dia!", Saudação bonacheirona, Queria ser banco da venda, Ser conversa, Ser velhinho, A sua boina, Ser o grupo que ali se encontra, Um jogo de dominó, Uma boa gargalhada, Ser uma história de avó, Alvos fios de cabelo, Ser semblante enrugado, Ser olhos, ouvidos de neto...
Ser o sabor do estio, O sol deitado p'los muros, O chiado de duas rodas, O cantar de carros de bois,
Ser o portão de uma quinta Aberto de par em par, Ser muitas arvores de fruto!
Ser o recreio de escola, Ser meninos a correr, Ser uma cantiga de roda, Meninas de cabelo aos cachos, Ser a alegria de uma boneca de trapos Ser fisga de rapazinho, Ser um pássaro, ser um ninho. Ser tanque de água gelada, Ser roupa branca a secar.
Queria ser feira, Ser toalha, Cântaro de barro, Jarrinha, Roupa interior colorida, Gaiola de passarinho, Ser morena, Ser trigueira, Ser tamancos, ser sapatos, Chinelo de meter o dedo, Ser tecidos, Ser cadeiras, escaninhos, Armários, mesas, panelas, Discussão de lavradeiras, Cestos de vime entrançado, Ser a foice, Ser ancinho, O cabo de uma enxada, Alguidares, jarros e loiça, Vasos a abarrotar de flores, Bebé no meio de mantas.
Ser domingo, Saída da missa, Ser chão do adro da igreja, Um bonito fato engomado, Ou vestido vindo da França... O casamento a preceito, Boda à sombra da latada, Ser riso da jovem casada, Ser dela o noivo bonito, O galanteio guloso, Uma flor na lapela.
Ser desejo, ser anseio, Da vontade que não acaba Ser só dele, dali a nada... Queria ser um Arraial, Foguetes de muitas cores, Mesas com bancos corridos, Tendinha de pano-cru. Ser cheiro a sardinha assada, Pão ensopado em azeite, Vinho a pintar a tigela, Boroa de forno de lenha, Fêvera a grelhar no carvão...
Queria ser festa animada, Um coreto engalanado, Um rancho de folclore, Uma chula, um vira do Minho, Ser a dança ou rodopio, Ser andar de braço dado, Ser voz da rapariga animada O olhar de moço cobiçado Um beijo dado à socapa, Ser lenço de namorados. Ser ainda a última cantiga, Ser as "santas noites!" a todos, A porta da casa encostada, Ser do sono a recompensa... Ser o silêncio satisfeito Ou céu pejado de estrelas.
Eu queria ser madrugada, O galo a cantar no poleiro, O chilreio da andorinha, Ser povoação, ser um largo, Ser aquele vilarejo, Ser todas as casas branqueadas, Um gato a dormir no colo, A cortina da janela, Ser caminho, Ser um passeio.
Eu queria ser um ano, Ser um mês,Ser só um dia, Ser uma hora ou um minuto, Ou ainda que por menos tempo, Ser vida a andar com vagar, Bordada a mil e uma cor, Na barra de um avental!
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Um poema
poder-te-ia dizer tantos mas só este digo e sei de cor
dizer d e v a g a r o teu nome
poder-te-ia dizer tantos mas não seria qualquer deles o mais belo poema de amor
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Tanto e mais
saber-me-ás em cada gesto.
todos todos a correr para ti como um rio...
do amor? não preciso dizer-te...
adivinhas-me!
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Sonho
Falo-te dum sonho, Daquele que tantas vezes tenho. Dispo a ansiedade, Desapertando, Botão a botão, Desejos insaciáveis, Até ficar despida, um instante...
Aliso o leito, Aquele mar por ti amado. Com ele me cubro, Apagando a luz da realidade, Deixando apenas acesa, A lua da imaginação...
Agora, fecho os olhos. Não há tempo, distância, matéria... De mim só existe a alma Coberta por um mar de mil cores Que não te explico, Que conheces, Bem melhor do que eu.
Assim fico, Escrevendo esta quase imitação de carta Tão sem tempo! Tenho frio! Tardas!
Eis senão quando, Quase no fim do horizonte, Onde o teu mar abraça a minha lua, Vejo uma ave voando, E que, num bailado único, Raiado de verde e de azul, De mim se aproxima, À minha alma se dirige.
Quase não me mexo... (e tão ansiosa me sinto!), Para que de mim se não desvie O voo daquela ave. Levanto a ponta do mar, Preparo um espaço, Uma praia, Neste leito onde estou E peço a Deus Que o bater do meu coração A não afugente...
Percebo que és tu! Ainda assim, Fico-me neste aparente sossego... Sobrevoas-me Sem um bater de asas Acabando por pousar, No areal imenso que para ti preparei. Que mais dizer? Calar este meu desejo? Afinal havia tempo! E é desse tempo que te falo.
Desvendo agora o meu segredo: Do meu corpo me distanciei, Para que na minha alma pousasses. Agora estás em mim! Sobe pelo meu corpo E deixa que no teu, O meu se derrame... Fiquemos assim, Tendo como limite O espelho do nosso encontro: Um mar, uma lua, uma brisa...
Falei-te dum sonho. Foi meu, Talvez teu, Mas agora é nosso! Completou-se o triângulo: Um vértice - Tu! Outro - o Mar! O último - Eu!
CM 1998
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Por de Poema
Aparto-me do corpo Abandonando a voz num grácil descanso. Sou o teu silêncio. Sente, Devagar, Como me enleio pela tua imaginação, Como se de ti, fizesse parte. Dela, Não te separarias por nada! E porque a saberias fina, Delicada, Qual folha de papel de arroz, Apartar-te-ias do corpo, Abandonando a voz num não menos dócil emudecimento.
E assim, Incorpóreos, Existiríamos! Seríamos de quando em vez Movimento, De quando em vez Tacteio leve...
Era assim que nos víamos, Quando no céu deste lugar Nos contámos do que iríamos fazer, Quando por fim nos encontrássemos!
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Estamos juntos... Acendamos a magia deste momento E sob a luz doce que dela emana, Vamos emocionar-nos, Vamos tocar-nos sem nos tocar, Causando com que a pergunta que nos fizemos, Se deite, E adormeça, feliz.
Vamos ser a certeza de nos termos, Deitando fora a distancia, Saboreando o prazer de ver a resposta acordar Espalhando-se por nós, Tornando-se na nossa pele, Tal como este por de sol que vem aquecer-nos, Depondo no parapeito do desejo A certeza de que o amanhã é agora: Tão certo, Tão vivo, Tão quente, Tão só nosso.
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Encanta-me com resquícios de lua
Serena a montanha quando acorda Com ela acordam cheiros fragrâncias que se espreguiçam como risos azuis buscando o dia
Despertam árvores estendendo ramos
Renasço paulatinamente no respirar do teu corpo descansado
Deixa que me deite no leito da tua pele para que te sussurre: Espalha o teu sonho pelo meu avesso.
Cristina, me deparei com seus poemas e fiquei em estado de extâse, você tem muita sensibilidade e talento. Pretento ler todos os seus poemas e poesias, desgustando-as pouco a pouco. Parabéns
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