Daniel Castro

Daniel Castro

n. 1976 BR BR

n. 1976-07-25, Atibaia

Perfil
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Baptiste

Despeça guia
ao andar por Calcutá
que traço de poema sem reflexão
é sujeira de debaixo do tapete
para tristeza de qualquer ladrão.

Se me ponho à faxina e verbos
recupero, alegria é de dona de casa
divã de corpo e copo são.

Pessoa talvez heteronímia
a praga deite ao meu renego
de cansaço
furto de consciência e cangaço
de economia escrivã.

Desde voluntária servidão, mercê
ao coveiro de defuntas palavras
é requerer feitiço posto ao escovão

à memória de revólver na cintura,
sem conta alguma,
Maria Bonita sem Lampião.

Transcrevo de interrogação o ponto
à exaustão, de ouvido
sem ideia compreender
a alma, sequer sentido
de interrogação.

E desse mudo sentimento falo
pouco ou quase nada
sua prosa é contígua sorte
e morte de interdita cultura.

Oral procissão decifrando as alamedas
desce à praça, ode conversa
onde cantam sertanejas monções

às criaturas.

Faz-se chuva-canções de todo morto,
de mim faz porto, qual seguro e improvável canal
eu Suez

interliga desertos povos
sem comunicação, e de surdas divindades,
mote para cartas à mesa postas
e novo baralho às mãos.

Eu sofreguidão, serenata
de gente cuja inata noção é pouca
nenhuma

Ester a por dormir
noite, que sobre nós recai
carrossel de contradições
Jesus...

Faz-se mister
descê-lo da cruz.
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Poemas

33

Apontamentos

308

Recadinho de mim

Um recadinho pra quem me lê
ou depara com esses pensamentos soltos
que no Face eu vou botando

- na rima:


Eu cá escrevendo à toa
brincando com sérios versos
considere por provérbio, que
o que escrevo é inacabado.

Tudo está por revisar
caso nisso haja pretexto.

Porque escrever é nada mais, por hora
que minha escolha de solidão.

Como fazer bolo, por roupas pra secar
lavar banheiro e arear panelas...

Ou mesmo o gato por pra mijar
(eu, que nem gato tenho).

E que é contudo
melhor que pinga com limão
pelo menos pra mim
filho de um novo fevereiro.

Seja o que tiver que ser
estar, estou
vida irreversível
por se revisar e reconsiderar
sem que em momento algum
seja isso possível

318

Suspensas considerações

Uma coisa é certa
quanto ao não me haver dado
de antemão ou solução
vida feita cadeado.

Predicado,
descoberta rota
não mais que interpretação,

- de viver
não aprendo é nada.

Janeiro é todo mês
surpresa e prova
de nota nunca igual.

E a namorar Severina
que me deixei à estação
onde trem passa, também

prosa
rima qual converso,
ateu

flores muitas de açucena
Rosas, que recolhi
ao léu.

Sigo adiante brejo
adentro, beijo príncipes
sem cetro e coroa

recupero fôlego
limão
que me adoça a boca.

Tenho frágil a nuca
ao abraço desta vida inteira
e nua
que pelos meus
arrepia, ais ruas afora ecoa.
321

Essa má poesia

305

Encruzilhada

Uma rua e toda a cidade
deserto de faróis sirenes
todos nós alarde
a plenos pulmões, silêncio.

Vago entre becos
e percorro ecos meus
palavras que a mente em vão
guarda para si.

Estou diante do espelho
meu reflexo é senão o mundo
inteiro, essa parte
que ignoro, desejo ruim.

Suo e acordo
e meu frio é de calor e sede
esse medo das gentes
que sentimento é só.

Viro-me, e do outro lado
parede treme
de pé enrolada ao cobertor,
um retrato de Narciso
copo sem líquido sentido
quando tem comigo
e se embriaga.

Ficamos assim às risadas
banido o pudor
embaçadas as vidraças.

Nós que, senão manhãs
sempre noites passadas.

Sou eu essa via erma
ao mesmo tempo tumultuada
que nunca o meio fio beija
bueiro ou calçada.
213

Eu, que não sou daqui

Estou por fora
e tranquei-me a porta
chaves decomponho estigmas,
cantigas.

Sou livro aberto
de Luiza, carinhos
que Pixinguinha pede ler.

Sou felicidade
que me tem por companheira
e água bota ao feijão.

Sou sete de setembro
outras vezes, não.

Um dessa gente por se descobrir
Disney, quando Paris.

Eu que não sou nada
e que o que sou é por você
conceder-me do que sobrou
o pouco do viver.

Dessa gente boa
talvez a água de beber.

Triste é querer estar sozinho
e o mundo querer ter com você.
233

Vendo-me

Tenho a porta aberta
à sete palmos de relevo
e a paz que nos concedemos
é pá de cal e medo.

Não peço flores
condecorações promessas
meu coração tem pressa
amplidão, a alma.

Desespera as gentes
a nau vaga, espraia à terceira
margem, acalmam-se.

Aos sais com panelas
quiabos, cozinha de santo
morto é fogo dado.

Quiseram-me concreto
fiz-me abstrato,
estou-me a por vendas
e não há preço, de tão barato.
 
214

País cadê?

Poema surdo-mudo
diz e quer se ouvir
o que de mim você tateia
e que em braile à teia arma.

Somos labirinto adentro
e de nós a fuga escapa
inútil revolver as portas.

Ainda morta, língua
é quem nos maltrata.

Poema surdo-mudo
desdenha-me os segredos
e à espreita escuta em relevo
sentimentos Guimarães.

Diadorim Dora
Caymmi, ilusões.

Íntima tempestade
minha alma em taça sorve
bebe de si sertões
onde houvera pão com céu.

Sou Canudos
e pedra no caminho do meio
onde quando meu cordel.

Conosco todos ao beleléu
terra por derradeiro beijo
toca-me os lábios rijos.

É o Brasil um inventário
de ocasos, a procissão.

Às margens do rio Preto
sou de Tejo corsário pagão
de volta sobre os tamancos.

É o Brasil sudário
de um morto a viver de espanto
Calabar Romeu.
222

Sem demora

A cada passo um ancestral
se faz presente - e eu não duvido
que na fé, o prometido
cumpre-se.

Esquisito rogo,
sou meu sogro e não nego.

Casamenteiro é o santo no prego
cujas alianças em meu seio
são desassogeo e mansidão.

Eu que não componho versos
apenas sonho, venho e vou.

Acordo ao dormir
o meu avô, o tintureiro,
pois que outro, o verdadeiro
ainda vive de curar ressaca.

Toca à banda
quando ciranda faz dança
cruz às almas, os braços...

São mascates,
e de passagem, relapsos
porteiros são.

Temos todos a mesma sina
tardar quando se faz manhã
deste lado, abaixo e acima
os pés pelas mãos.
223

Evoé de primavera

Legado de minha alma e chiste
de forma dura, prosódia ideia
pôs-se ao quintal da cultura
fez-se ouvir às galeras.

Claras de Candeia, é Portela
de samba sambista e passarela bamba
que cantam e pedem passagem
versos sem alma e gana.

Sai às ruas e põe afora goela
já é vinda a manhã
de novo setembro.

Descuido algum faz panela
de Amélia que à cozinha
trouxe novos mundos
234

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