Suspensas considerações
Uma coisa é certa
quanto ao não me haver dado
de antemão ou solução
vida feita cadeado.
Predicado,
descoberta rota
não mais que interpretação,
- de viver
não aprendo é nada.
Janeiro é todo mês
surpresa e prova
de nota nunca igual.
E a namorar Severina
que me deixei à estação
onde trem passa, também
prosa
rima qual converso,
ateu
flores muitas de açucena
Rosas, que recolhi
ao léu.
Sigo adiante brejo
adentro, beijo príncipes
sem cetro e coroa
recupero fôlego
limão
que me adoça a boca.
Tenho frágil a nuca
ao abraço desta vida inteira
e nua
que pelos meus
arrepia, ais ruas afora ecoa.
Cálculos Gaia
Vida
espelho e cachoeira
onde se contempla e
banha, Oxum
corre para o mar amar
as gentes, e terra,
que entranha adentro
somos mesmos um.
Estranha o pensamento e
vaga campinas
deste nosso sertão e mundo
amolando o fio que
o vento corta
quanto mais estou
de vocês
perto.
São
desertos que areia beija
esconde e enterra
segredos de peito
aberto, que se revelam
verso ao reverso
nesse ensejo e fevereiro de todo
domingo, estação
que bruxa sabá impõe
e reza
quaresma
rito pagão.
Destino da terra, que
quarentena sabiá canta
Cantão
não saberemos
quão longínquo, de antemão.
Encruzilhada
Uma rua e toda a cidade
deserto de faróis sirenes
todos nós alarde
a plenos pulmões, silêncio.
Vago entre becos
e percorro ecos meus
palavras que a mente em vão
guarda para si.
Estou diante do espelho
meu reflexo é senão o mundo
inteiro, essa parte
que ignoro, desejo ruim.
Suo e acordo
e meu frio é de calor e sede
esse medo das gentes
que sentimento é só.
Viro-me, e do outro lado
parede treme
de pé enrolada ao cobertor,
um retrato de Narciso
copo sem líquido sentido
quando tem comigo
e se embriaga.
Ficamos assim às risadas
banido o pudor
embaçadas as vidraças.
Nós que, senão manhãs
sempre noites passadas.
Sou eu essa via erma
ao mesmo tempo tumultuada
que nunca o meio fio beija
bueiro ou calçada.
Eu, que não sou daqui
Estou por fora
e tranquei-me a porta
chaves decomponho estigmas,
cantigas.
Sou livro aberto
de Luiza, carinhos
que Pixinguinha pede ler.
Sou felicidade
que me tem por companheira
e água bota ao feijão.
Sou sete de setembro
outras vezes, não.
Um dessa gente por se descobrir
Disney, quando Paris.
Eu que não sou nada
e que o que sou é por você
conceder-me do que sobrou
o pouco do viver.
Dessa gente boa
talvez a água de beber.
Triste é querer estar sozinho
e o mundo querer ter com você.
Vendo-me
Tenho a porta aberta
à sete palmos de relevo
e a paz que nos concedemos
é pá de cal e medo.
Não peço flores
condecorações promessas
meu coração tem pressa
amplidão, a alma.
Desespera as gentes
a nau vaga, espraia à terceira
margem, acalmam-se.
Aos sais com panelas
quiabos, cozinha de santo
morto é fogo dado.
Quiseram-me concreto
fiz-me abstrato,
estou-me a por vendas
e não há preço, de tão barato.
País cadê?
Poema surdo-mudo
diz e quer se ouvir
o que de mim você tateia
e que em braile à teia arma.
Somos labirinto adentro
e de nós a fuga escapa
inútil revolver as portas.
Ainda morta, língua
é quem nos maltrata.
Poema surdo-mudo
desdenha-me os segredos
e à espreita escuta em relevo
sentimentos Guimarães.
Diadorim Dora
Caymmi, ilusões.
Íntima tempestade
minha alma em taça sorve
bebe de si sertões
onde houvera pão com céu.
Sou Canudos
e pedra no caminho do meio
onde quando meu cordel.
Conosco todos ao beleléu
terra por derradeiro beijo
toca-me os lábios rijos.
É o Brasil um inventário
de ocasos, a procissão.
Às margens do rio Preto
sou de Tejo corsário pagão
de volta sobre os tamancos.
É o Brasil sudário
de um morto a viver de espanto
Calabar Romeu.
Sem demora
A cada passo um ancestral
se faz presente - e eu não duvido
que na fé, o prometido
cumpre-se.
Esquisito rogo,
sou meu sogro e não nego.
Casamenteiro é o santo no prego
cujas alianças em meu seio
são desassogeo e mansidão.
Eu que não componho versos
apenas sonho, venho e vou.
Acordo ao dormir
o meu avô, o tintureiro,
pois que outro, o verdadeiro
ainda vive de curar ressaca.
Toca à banda
quando ciranda faz dança
cruz às almas, os braços...
São mascates,
e de passagem, relapsos
porteiros são.
Temos todos a mesma sina
tardar quando se faz manhã
deste lado, abaixo e acima
os pés pelas mãos.
Constelação de nós e de estrelas da manhã, passados
Enredo pouco compreendo
com os quais nesses retratos me encontro
seja o mesmo ou outro de mim
que os configura
pois meus já eram os sapatos calçados
quando me pus a caminhar
e rica a favela e pintura
que tomou minha alma por esposa.
Novela de assunto estéril
personagem dúbia e protagonista
faz de nós caricatura
e põe a acordar os pesadelos
ao que se contenta com perdão ligeiro
às confissões precárias de terço à mão
e muito cartucho à cintura.
Trazemos o olhar afora
no receio de que à volta estejam os demais
testemunha do todo que se mente e embota
aos parcos sentidos de tudo, e de ninguém.
Assim se expõe nessa galeria, pinturas não
confeitarias, que a gula faz comer
ainda que se tenha medo
de ser envenenado por instantes de prazer.
Absurdo é ter por merecer (confesso)
a reputação à prova
de todo o que tem somente a esconder
de si e do outro.
Nunca fui de guardar segredo
tenho feridas em relevo
que me orgulho de as ver sorrir.
Vida mesma é candelabro
velas postas em circunflexo acento
pastel de vento, maçã.
Visa sempre o amanhã
sem cuidar do dia de hoje
a enterrar os dias que se recusou viver.
É uma espécie de oratório
oferenda ou velório
de gente que dorme no quando
sono não lhe pertence mais.
Contenta-se com pouco e canta
vitórias com tanto encanto
a deixar-se enganar o santo
que a reza crer, satisfaz.
Sem paciência, e desespero
na gana de verdadeiro desejo
de ser tudo e capaz.
Tem desprezo por inteiro
de todo quem se expõe receios
que alma vã atrai.
Sou diferente em nada
um desses e todos juntos
que bate atrás de si a porta
e segue adiante, vagabundo.
Contudo às vezes consciente
bato e bato contente
portas que não quero ver abertas.
Pois que dão em salas antevistas
de mesmas caras e sentimentos
com deméritos e unguentos
desvelados de paixão.
Prefiro dessa maneira
não os ter à cabeceira
a guisa de ostentação.
E à vida itinerante
sempre esboço e avante
de cada um de nós
é que me faz de
gato e sapato
põe-me a lavar pratos
sem me dar água ou sabão.
Essa louça rude e precária
dessa fome temerária que faz
de mim e de você
entidades esfomeadas
de pernas cruzadas à beira da estrada
quando o sol levante e chama
- venham gente
venham agora e sem demora
façam valer a escolha e história
que de si vantagens conta
e as contas façam todos
se há razão ou distorção
na soma e subtração
do que se apaga ou pinta.
Sejam as cores dessa paisagem
vida nova ou tempestade
de outro inverno, verão.
Mas sejam cores intensas
com as quais se reclama verossimilhança
à cama posta na varanda
quando brisa morna agita
folhas dessa vegetação agreste
que vem o sol, a peste
de bichas cobrir-lhe
a pintura e restinga.
Mofina escultura de povo
sem opinião ou identidade
que faz de tudo espetáculo
haja graça, drama ou seja
banalidade.
Nada além de tédio da existência
quando se tem noventa aos vinte e sete
e muita virilidade na velhice
que mal dá conta da sandice
de o próprio nome esquecer.
Nós que de viver nos cansamos
mal saídos da infância
amamos e casamos, por dinheiro
importa se para o mundo inteiro, pouco
ou pra se dividir o desgosto
e somar as prestações.
Somos nós sempre os mesmos
desejosos de ser diferente
toda e qualquer gente
que não seja eu ou você.
Pomos vistas aos retratos
de barões calçamos os sapatos
e o resto fica para depois.