Lista de Poemas

Cálculos Gaia

Vida
espelho e cachoeira
onde se contempla e
banha, Oxum

corre para o mar amar
as gentes, e terra,
que entranha adentro
somos mesmos um.

Estranha o pensamento e
vaga campinas
deste nosso sertão e mundo

amolando o fio que
o vento corta
quanto mais estou
de vocês
perto.

São
desertos que areia beija
esconde e enterra

segredos de peito
aberto, que se revelam
verso ao reverso

nesse ensejo e fevereiro de todo
domingo, estação
que bruxa sabá impõe
e reza

quaresma
rito pagão.

Destino da terra, que
quarentena sabiá canta
Cantão

não saberemos
quão longínquo, de antemão.
283

Diamantes, palavras e cascalhos

Que dia será, poeta
pergunta à beira do riacho,
lavadeira de tacho na cabaça,
muitas as roupas, 
e pouco o sabão nas mãos.

Pergunta que me desata
às palavras desditas, o incerto nó
empregado, quando imprevista é a hora
e certeira a dúvida do vocábulo só.

Eu, que das palavras desejo ser
lavrador, temo a dó
e arada terra semear com deserta
flor - sob gorjeio de rouxinóis
- e que é saudade,
uma caduca, já murcha flor em botão.

Palavras requisitam quarar,
decifrar-lhe sentidos ocultos
de corações vagabundos
que o mundo guarda para si.

São pequenas palavras apenas,
entre as quais se esconde
mudo e grande sentimento 
que a felicidade se pôs a extorquir.

Essa arte e pormenor, pensamentos
dispersos e cisma com os quais
canções se criam, bordadeiras
tecem confissões

compõe-se de instantes fúlgidos,
os quais, de manhã, vidraça de janela
embaçam
quando tudo é ainda sonho

fantasia idem
com outrora rua do Ouvidor,
que é a mesma e não mais existe.

De hiatos é feita a empreitada
cujo destino de mim se esqueceu,
qual pena indistinta imposta aos lábios
por beijos que não serão meus.

Segue trabalhadeira a sua rotina
e traz as águas dos rios ao ofício cotidiano.

E a resposta para sua pergunta calou-me, sabe;
e não se sabe por onde ou quantos anos.
291

Recadinho de mim

Um recadinho pra quem me lê
ou depara com esses pensamentos soltos
que no Face eu vou botando

- na rima:


Eu cá escrevendo à toa
brincando com sérios versos
considere por provérbio, que
o que escrevo é inacabado.

Tudo está por revisar
caso nisso haja pretexto.

Porque escrever é nada mais, por hora
que minha escolha de solidão.

Como fazer bolo, por roupas pra secar
lavar banheiro e arear panelas...

Ou mesmo o gato por pra mijar
(eu, que nem gato tenho).

E que é contudo
melhor que pinga com limão
pelo menos pra mim
filho de um novo fevereiro.

Seja o que tiver que ser
estar, estou
vida irreversível
por se revisar e reconsiderar
sem que em momento algum
seja isso possível

296

Lesa religiosa e moral, que se chama?

Um camarada, cujo espanto carece de
juízo e entendimento
chama obra de pomba gira
os versos dispostos em assentamento 

Pois lhe apresento:

Dona pomba gira letrada!

Recebe na encruzilhada
Neruda oferenda
Rosas e Guimarães, Noel.

Não fuma cigarro
ou bebe champanhe

porque faz do turíbulo, cigarro
Notre-Dame, catedral;
e do mar de flutuante espuma
mata a sede ancestral.

Vem por sal grosso (assunto)
à porta de casa, é pedido
que a Iemanjá em mim, defunto
sob o mar suas lágrimas (jazigo)

- boiadeiro o sal, o churrasco
têmpera ao som de Antero e Fundo de Quintal.

Frango com farofa
seja bom ou não (despacho)
é souvenirde eixo poema
e tira-teima.

Desgosto que seja próxima
rodada a sua, da próxima... em diante.

Suas as cadeiras, cansadas
rezam mendicantes
a ranger mais que
as portas do inferno, às caveiras
Dante.

Não lhe direi, ôh pobre...
chega nunca sua vez,
não é verdade?

Ambos louvaremos um depois
seja qual for, sorte ou sortilégio
armagedom de núpcias
com o cemitério.

E à madrugada, notívago
orvalho de sua gente me espanta
quando mundo, mundo gira

evoé e prece que
língua enrola na garganta,
dança a pomba gira, e canta.

Creio em Deus Pai!

Toma e lê, compadre - a dica
é antiga, e voz que Augustinho,
quando veio a conversão, ouviu.

Bom proveito,
tens de bandeja o prato feito!

Pomba gira letrada faz
companhia à refeição.

Seu ponto de força finca
à biblioteca,
embora seja analfabeta,
e à estrada muitas se encontram.

Estejam suas portas cerradas,
não cisme:
há download em PDF
siga firme.

Se há religião?

Se ateu ou Prometeu qualquer
no quando fogo?

Toma e lê com que
o espírito aquecer, quiçá
alumiar quebranto.
285

Encruzilhada

Uma rua e toda a cidade
deserto de faróis sirenes
todos nós alarde
a plenos pulmões, silêncio.

Vago entre becos
e percorro ecos meus
palavras que a mente em vão
guarda para si.

Estou diante do espelho
meu reflexo é senão o mundo
inteiro, essa parte
que ignoro, desejo ruim.

Suo e acordo
e meu frio é de calor e sede
esse medo das gentes
que sentimento é só.

Viro-me, e do outro lado
parede treme
de pé enrolada ao cobertor,
um retrato de Narciso
copo sem líquido sentido
quando tem comigo
e se embriaga.

Ficamos assim às risadas
banido o pudor
embaçadas as vidraças.

Nós que, senão manhãs
sempre noites passadas.

Sou eu essa via erma
ao mesmo tempo tumultuada
que nunca o meio fio beija
bueiro ou calçada.
199

Vendo-me

Tenho a porta aberta
à sete palmos de relevo
e a paz que nos concedemos
é pá de cal e medo.

Não peço flores
condecorações promessas
meu coração tem pressa
amplidão, a alma.

Desespera as gentes
a nau vaga, espraia à terceira
margem, acalmam-se.

Aos sais com panelas
quiabos, cozinha de santo
morto é fogo dado.

Quiseram-me concreto
fiz-me abstrato,
estou-me a por vendas
e não há preço, de tão barato.
 
199

Sem demora

A cada passo um ancestral
se faz presente - e eu não duvido
que na fé, o prometido
cumpre-se.

Esquisito rogo,
sou meu sogro e não nego.

Casamenteiro é o santo no prego
cujas alianças em meu seio
são desassogeo e mansidão.

Eu que não componho versos
apenas sonho, venho e vou.

Acordo ao dormir
o meu avô, o tintureiro,
pois que outro, o verdadeiro
ainda vive de curar ressaca.

Toca à banda
quando ciranda faz dança
cruz às almas, os braços...

São mascates,
e de passagem, relapsos
porteiros são.

Temos todos a mesma sina
tardar quando se faz manhã
deste lado, abaixo e acima
os pés pelas mãos.
210

País cadê?

Poema surdo-mudo
diz e quer se ouvir
o que de mim você tateia
e que em braile à teia arma.

Somos labirinto adentro
e de nós a fuga escapa
inútil revolver as portas.

Ainda morta, língua
é quem nos maltrata.

Poema surdo-mudo
desdenha-me os segredos
e à espreita escuta em relevo
sentimentos Guimarães.

Diadorim Dora
Caymmi, ilusões.

Íntima tempestade
minha alma em taça sorve
bebe de si sertões
onde houvera pão com céu.

Sou Canudos
e pedra no caminho do meio
onde quando meu cordel.

Conosco todos ao beleléu
terra por derradeiro beijo
toca-me os lábios rijos.

É o Brasil um inventário
de ocasos, a procissão.

Às margens do rio Preto
sou de Tejo corsário pagão
de volta sobre os tamancos.

É o Brasil sudário
de um morto a viver de espanto
Calabar Romeu.
208

Eu, que não sou daqui

Estou por fora
e tranquei-me a porta
chaves decomponho estigmas,
cantigas.

Sou livro aberto
de Luiza, carinhos
que Pixinguinha pede ler.

Sou felicidade
que me tem por companheira
e água bota ao feijão.

Sou sete de setembro
outras vezes, não.

Um dessa gente por se descobrir
Disney, quando Paris.

Eu que não sou nada
e que o que sou é por você
conceder-me do que sobrou
o pouco do viver.

Dessa gente boa
talvez a água de beber.

Triste é querer estar sozinho
e o mundo querer ter com você.
219

Constelação de nós e de estrelas da manhã, passados

Enredo pouco compreendo
com os quais nesses retratos me encontro
seja o mesmo ou outro de mim
que os configura


pois meus já eram os sapatos calçados
quando me pus a caminhar
e rica a favela e pintura
que tomou minha alma por esposa.


Novela de assunto estéril
personagem dúbia e protagonista
faz de nós caricatura


e põe a acordar os pesadelos
ao que se contenta com perdão ligeiro
às confissões precárias de terço à mão
e muito cartucho à cintura.


Trazemos o olhar afora
no receio de que à volta estejam os demais
testemunha do todo que se mente e embota
aos parcos sentidos de tudo, e de ninguém.


Assim se expõe nessa galeria, pinturas não
confeitarias, que a gula faz comer
ainda que se tenha medo
de ser envenenado por instantes de prazer.


Absurdo é ter por merecer (confesso)
a reputação à prova
de todo o que tem somente a esconder
de si e do outro.


Nunca fui de guardar segredo
tenho feridas em relevo
que me orgulho de as ver sorrir.


Vida mesma é candelabro
velas postas em circunflexo acento
pastel de vento, maçã.


Visa sempre o amanhã
sem cuidar do dia de hoje
a enterrar os dias que se recusou viver.


É uma espécie de oratório
oferenda ou velório
de gente que dorme no quando
sono não lhe pertence mais.


Contenta-se com pouco e canta
vitórias com tanto encanto
a deixar-se enganar o santo
que a reza crer, satisfaz.


Sem paciência, e desespero
na gana de verdadeiro desejo
de ser tudo e capaz.


Tem desprezo por inteiro
de todo quem se expõe receios
que alma vã atrai.


Sou diferente em nada
um desses e todos juntos
que bate atrás de si a porta
e segue adiante, vagabundo.


Contudo às vezes consciente
bato e bato contente
portas que não quero ver abertas.


Pois que dão em salas antevistas
de mesmas caras e sentimentos
com deméritos e unguentos
desvelados de paixão.


Prefiro dessa maneira
não os ter à cabeceira
a guisa de ostentação.


E à vida itinerante
sempre esboço e avante
de cada um de nós


é que me faz de
gato e sapato
põe-me a lavar pratos
sem me dar água ou sabão.


Essa louça rude e precária
dessa fome temerária que faz
de mim e de você


entidades esfomeadas
de pernas cruzadas à beira da estrada
quando o sol levante e chama


- venham gente
venham agora e sem demora
façam valer a escolha e história
que de si vantagens conta


e as contas façam todos
se há razão ou distorção
na soma e subtração
do que se apaga ou pinta.


Sejam as cores dessa paisagem
vida nova ou tempestade
de outro inverno, verão.


Mas sejam cores intensas
com as quais se reclama verossimilhança
à cama posta na varanda
quando brisa morna agita


folhas dessa vegetação agreste
que vem o sol, a peste
de bichas cobrir-lhe
a pintura e restinga.


Mofina escultura de povo
sem opinião ou identidade
que faz de tudo espetáculo
haja graça, drama ou seja
banalidade.


Nada além de tédio da existência
quando se tem noventa aos vinte e sete


e muita virilidade na velhice
que mal dá conta da sandice
de o próprio nome esquecer.


Nós que de viver nos cansamos
mal saídos da infância
amamos e casamos, por dinheiro


importa se para o mundo inteiro, pouco
ou pra se dividir o desgosto
e somar as prestações.


Somos nós sempre os mesmos
desejosos de ser diferente
toda e qualquer gente
que não seja eu ou você.


Pomos vistas aos retratos
de barões calçamos os sapatos
e o resto fica para depois.
232

Comentários (0)

ShareOn Facebook WhatsApp X
Iniciar sessão para publicar um comentário.

NoComments