Mudo sentido e prosa
De razão bêbado e trôpego
recobro o juízo ao menos - minto
é a verdade o oposto de um domingo
onde alma se pinta de queda, ideais.
Ambíguo sol ilumina e cega
o abrigo, que de feras, toca
flauta música e hipnose
aquece e queima febre terçã.
Sempre amanhã em alma toda
cada segundo de passado surdo
que me escuta e sonha presente.
Parente, que de ancestral, é ponta
um iceberg de faz de conta
vara e cordão de irmão madrinha
véspera de Questão Coimbrã.
Põe-se mão à cabeça de telhado
e calha abaixo o suspiro terra freme,
zune chaminé diamante costume
e novo evoé o penar escreve.
Somos todos Salomé
quando alma alguma se atreve
questionar a Santa Sé.
Alma pois, almas, novas as mesmas
novenas se põe trabalhador
e pouco é dor que de si trata.
Barata a mão de obra
de autor fama conquista
será entanto nova a terra
que sambista sente e toca.
Eu hoje à luta vou
que muita roupa à linguagem se deu;
entanto a pena do corpo é morta
embora vivo o santo do ateu.
Constelação de nós e de estrelas da manhã, passados
Enredo pouco compreendo
com os quais nesses retratos me encontro
seja o mesmo ou outro de mim
que os configura
pois meus já eram os sapatos calçados
quando me pus a caminhar
e rica a favela e pintura
que tomou minha alma por esposa.
Novela de assunto estéril
personagem dúbia e protagonista
faz de nós caricatura
e põe a acordar os pesadelos
ao que se contenta com perdão ligeiro
às confissões precárias de terço à mão
e muito cartucho à cintura.
Trazemos o olhar afora
no receio de que à volta estejam os demais
testemunha do todo que se mente e embota
aos parcos sentidos de tudo, e de ninguém.
Assim se expõe nessa galeria, pinturas não
confeitarias, que a gula faz comer
ainda que se tenha medo
de ser envenenado por instantes de prazer.
Absurdo é ter por merecer (confesso)
a reputação à prova
de todo o que tem somente a esconder
de si e do outro.
Nunca fui de guardar segredo
tenho feridas em relevo
que me orgulho de as ver sorrir.
Vida mesma é candelabro
velas postas em circunflexo acento
pastel de vento, maçã.
Visa sempre o amanhã
sem cuidar do dia de hoje
a enterrar os dias que se recusou viver.
É uma espécie de oratório
oferenda ou velório
de gente que dorme no quando
sono não lhe pertence mais.
Contenta-se com pouco e canta
vitórias com tanto encanto
a deixar-se enganar o santo
que a reza crer, satisfaz.
Sem paciência, e desespero
na gana de verdadeiro desejo
de ser tudo e capaz.
Tem desprezo por inteiro
de todo quem se expõe receios
que alma vã atrai.
Sou diferente em nada
um desses e todos juntos
que bate atrás de si a porta
e segue adiante, vagabundo.
Contudo às vezes consciente
bato e bato contente
portas que não quero ver abertas.
Pois que dão em salas antevistas
de mesmas caras e sentimentos
com deméritos e unguentos
desvelados de paixão.
Prefiro dessa maneira
não os ter à cabeceira
a guisa de ostentação.
E à vida itinerante
sempre esboço e avante
de cada um de nós
é que me faz de
gato e sapato
põe-me a lavar pratos
sem me dar água ou sabão.
Essa louça rude e precária
dessa fome temerária que faz
de mim e de você
entidades esfomeadas
de pernas cruzadas à beira da estrada
quando o sol levante e chama
- venham gente
venham agora e sem demora
façam valer a escolha e história
que de si vantagens conta
e as contas façam todos
se há razão ou distorção
na soma e subtração
do que se apaga ou pinta.
Sejam as cores dessa paisagem
vida nova ou tempestade
de outro inverno, verão.
Mas sejam cores intensas
com as quais se reclama verossimilhança
à cama posta na varanda
quando brisa morna agita
folhas dessa vegetação agreste
que vem o sol, a peste
de bichas cobrir-lhe
a pintura e restinga.
Mofina escultura de povo
sem opinião ou identidade
que faz de tudo espetáculo
haja graça, drama ou seja
banalidade.
Nada além de tédio da existência
quando se tem noventa aos vinte e sete
e muita virilidade na velhice
que mal dá conta da sandice
de o próprio nome esquecer.
Nós que de viver nos cansamos
mal saídos da infância
amamos e casamos, por dinheiro
importa se para o mundo inteiro, pouco
ou pra se dividir o desgosto
e somar as prestações.
Somos nós sempre os mesmos
desejosos de ser diferente
toda e qualquer gente
que não seja eu ou você.
Pomos vistas aos retratos
de barões calçamos os sapatos
e o resto fica para depois.
Sou quem talvez eu for
Futuro do pretérito
vista pelos olhos sentados na calçada
centavos de uma vida à escondida
Morte e Vida Severina, retirante.
Sorte truncada dias antes
revés de amante e sentinela
que é livre, embora cela
de vida próxima e distante.
Um cigarro solto e raro
provérbio que de mim faço sorteio
farto de si e de mim carente
talvez alegre, nunca somente.
Todo o itinerário
de viagem sem partida.
Foto sem dedicatória, antiga
cartão postal de terra à vista
casta meretriz de um libertino
que me deixa só, gemido vivo.
Nada disso sou e tudo
vida descida de um muro
erguido quando desmorona construção
sou seu e não o meu irmão.
Sou quem talvez eu for
sem jamais ter sido
morte de um domingo
quando não é sol, manhã
Onde eu volto é sempre
Um carretel de linha despenteia
uma trança de reflexões e sentimentos;
quem dera feições de primavera revolvesse
ainda que tessitura cobrasse depois.
Trama de fios, artérias a desconectar paixão
de um órgão qualquer ventríloquo
sem ideia de propagação, requer
interesse e desafio no palpitar do sono.
Sonho no dormir de abraço e nego
dia quem me desse pente escova
impossibilidades de malas postas
com as quais traços se remova.
Dia que noite fosse enfim luar
estrelas costuradas lantejoulas botões
matemática canção de firmamento
desconjuradas suas notas musicais, senões.
Que vida é silêncio e verbo
sorriso quando o chão nos falta
e beijo nos toma raro o momento
de luz e sombra, revelação e mistério.
Tudo o mais descondero e creio
de azul o céu reconfigurado
banidos os raios da manhã
em um sonho ensimesmado.
Tranca de penteado recomposta
espádua coxas costas
de volta o lugar quem mim se perde
portões puídos janelas de verão.
Nunca solidão se faz prosa contínua
de amiga de um instante sem concerto
que de amor jardim efeito avesso
onde almas se despem de joelhos.
Perdão que se reza a si mesmo
quando tudo é saudade e recomeço
espelho com o qual se fala por inteiro
a existência vivida aos pedaços.
E eu felino de garras pinto a canção
que fio de carretel põe-me a enrolar;
se tardo ou se é pobre sensação
olhar divaga recordação Niemeyer.
Sólida, corpos depois de embriagar
arquitetura quer a trama dos cabelos
de volta e de viés mesmo lugar.
Sempre seu colo, carretel novelo
nos quais debruço os cotovelos
e alma ponho alinhavar meu mar.
Poesia, que é afinal?
Por fora estou
o que sou por dentro
incompreensão.
Poesia é
maneira de estar comigo
o mundo inteiro
solidão.
Sem rima
ou artifício que de si construa
poesia que não é
de qualquer um
rouquidão
crua.
Poesia que para o ego
é prego posto no caixão
aos permanentes
ébrios, desfeita métrica vida.
A poesia, se a quis mais
querida companheira
desilusão
foi
palma primeira, pois.
Namorada que não
se esquece, beijo
vil
paixão
que terra
deste gentio, a cova
deste por sertão.
Poesia sempre silêncio
boca de Latrão.
Que é feito de nós?
Janelas quero para divisa,
e concessão ao espírito,
por quais, íntimo de si,
o céu alcance.
E que por instantes aí
debruce, e
grassem à sua vista
saudades; ou quiçá
se despeça, e não recupere
memória de outrem.
Destarte, nesse vaivém
não me maltrate, e antes comigo
repita provérbios de bem querença.
Porque carece
por mundos quais forem
de alavancas, o ser de nós,
senão enguiça, perde-se enfim
em cobiças sem termo, ou
espelho com o qual
refletir.
É, afinal, construção, a
obra do espírito; de portas
não se salvará, fechadas ou
abertas, conforme a necessidade.
Assoalho, telhado por qual andar e
cobrir-se, quando a mente de
sustentação... (o corpo
de abrigo) reclamem,
e minh'alma, em
zigue-zague, desça as escadas
a podar as avencas
que ornam o saguão, pois
chuva vem.
E depois voltará o sol, demais
estrelas que trará, a noite,
se a poluição da São Paulo de meus dias
permitir, e quiser delas me enamorar.
À bem da verdade, nem da metrópole, ou
do interior (céu), depende
alçar aos astros:
quer perto, distante de
nós se encontrem
conforme o caso de
nossas persianas particulares fecharmos, ou
visão lhe concedermos.
Assim é que é, foi e será - penso
e não nego.
Um brinde, portanto, àquele chegado
que não vejo há tempos, e
agora é vindo.
Sobrou prosa de nós, assunto
no entanto, jamais.
Nós, que de nós somos por
vezes, todos queridos;
por outras prisão
Alcatraz.
Quisera saber que é, paixão
Paixão recolhida, feito semente
que a terra acolhe,
desabrocha em flor (se bem nutrida)
para, quem sabe, colibri
roubar-lhe o beijo, que
noivo além-mar deseja.
Quem sabe - eu não sei.
Maligno, o renegado sentimento
retorna à face; petrifica quem
seus olhos cruze; Medusa
amante de carente espírito
qualquer, que pelo mundo, vivo
vaga errante e
moribundo.
Predileto, sim, tem sido
o declarado amor que,
de rubor, cobre o
semblante de amantes despudorados,
ciosos de sua inocente
vaidade, flagrada.
Seja como for, imortais serão (para sempre)
os desejos múltiplos que vêm
assaltar
os incautos heróis do mundo
ordinário
onde tudo é senão,
pois sim, ou
quem sabe, moça,
rapazes
mulheres, homens.
- A nós todos que, embora
mal resolvidos abdome acima,
no mais das vezes, cá estamos dispostos ao
efeito de toda a
causa, cintura abaixo.
E eu continuo sem saber
quem o sabe - e
não me importa; é certo
para quem me conhece e crê.
Bastam-me apenas os
sentimentos que
meu mundo, de toda cor
a realidade plasmam, quando a noite já
é vinda, ainda à
tarde; ou se
amanhece sem me deixarem
vivas
alegorias com as quais pernoitei
mais uma vez.
Que penso de ser
Jurado para morrer de amor, vivo
de amar o tanto que de mim resta
- que é festa
e no enquanto da banda que
passa, toca e dança.
E da sorte desejo apenas
que morte alguma me poupe a dor
que vive a morrer para a graça
de ser feliz em meu destemor
Grata constatação
Sim, eu não pertenço a esse mundo que,
desvirtuado pela banalidade ébria
das razões de não ser mais
perfaz-se nas desrazões das gentes - que,
de tanto querer, podem com nada
- quando ainda é madrugada
e não sonham, mas
se agitam - como quem trabalha,
- se acordados dormem
a vida débia, dias sem fim.
Sou esse que deu pra ruim
e se alegra por nada ser, e que,
porém, está em todo lugar,
sem precisar sair ou entrar.
Segredo de nossas preces
O segredo da prece, verdade é
Deus condena quem
assina divisão da cruz às
costas.
Perdoa a quem dá
outrem a coça
pois que em cada qual é
sina, aprender por erro
experiência e fadiga
– vaga e extensa insolação.
Você, à volta com novena, ponha
fé na tabuada que lhe
consome, mal completa
jornada, irreal o real.
Peça nada ao santo; orçamento
de milagre, é faltar-lhe com
respeito.
Fica a cachaça ao balcão de
sonhos fins, e dos
pulmões tosse pigarro, presságio
ruim.
(você ainda à volta da tarde, noite
infinda, rouca de saudades de
menina, que é João).
Seja a sorte se não
for, nada a ver com lance
algum; crédito à mão
de vista grossa o
desjejum, benzido amor
pagão.
Há de oculto em toda prece
mentira que a gente nega.
Cicatriz da carne fraca, que
feliz guarda Araci, porque mulher
consorte de homem que
a maltrata, diz assim é
o macho
ela condiz.
Talvez passado
humano, de tempos
costume vassalo; em dia
de hoje sem
poder de prece
leão à cova ausente
a regurgitar
preceitos de bem querer:
Daniel:
– segredo da prece, não sei
decerto a alma conta;
sejam lágrimas do rosário, ou
reza de Francisca à mesa
posta
quando ainda é madrugada, e
filho quer café mais
palavra à entrevista
e hora já cadente,
deseja espaldar o
firmamento não, quer
estrelas pelo chão vir
semear.
Pressa antiga, prece nova
queira de mim seu duvidar.
Importa que
deidades mundanas ouçam
cantiga de língua morta?
Lendas que se confrontam
e desamor de quem um
dia fez-te mar?
Segredo e prece é
de avó; sequer o
Padre Nosso – cuja
grandeza é maior – se vasculha
aos cabelos seus; preceitos
quais piolhos da trama
esconde-esconde
mandinga, que a
terra parasita descorçoa
à prazo, à vista, que
diferença tem?
Quer anciã, escuta
atenta dos versos, nada
além.
Pois prece nenhuma recupera
gênio bom.
Prece perdida é
aquela feita, ingratidão.
Profanar deidades assentadas
à guisa de encosto, que de
Cafarnaum à Santa Sé
fez desgosto só
dessa fé trabalhadeira.
Pois que cuíca
de santos filha
ginga-gingante à ladeira
venha me condecorar
sorrindo.
Oremos, rezemos mundos
desdigamos enfim, anos
passados, porvir
Serafins.
Sejam preces de contas, de faz
de conta, de cor, de
sermão
bem-vindas serão todas
que segredo de prece
existe, às vezes não.
Afinal, Deus se fazer ouvir por
todas, quer saiba sua
religião, quer não
exista Deus, se desista em
vão do mistério – ateu (!)
O segredo da
prece, quem tiver o
traga à pele esfolada,
seja ou não Bartolomeu.
E prece será fé que
ditará, cantará
espanto assombro
devoção.
Da roseira, segredo
espinho que a
proteja contra
o que a per-rodeia
oração;
mistério que alma
traz consigo, e quer
batam os sinos,
direi sempre comigo
– não morreu.