Lista de Poemas

O Cansaço do Trabalhador

Segunda feira,
Despertador acionado,
Pés no chão,
Olhos mal abertos,
Preguiça ao deixar a cama,
Comer apressadamente,
Arrumar a casa,
Rápida conversa com familiares,
Trânsito,
Patrão exalando humilhações,
Cansativo trabalho,
A mais valia lapidada em muitas horas.

Diante do suor derramado
Por sujeitos maltratados nas indústrias,
O Estado é o comitê
A defender os grilhões dessa miséria.
Há uma exploração intensa
No centro da Terra que cansa
Muitas mãos em febris afazeres.

É inútil contra isso rebelar?
Agora os trabalhadores estão silenciosos.
Mas o silêncio pode ser a semente
De tudo alterar.
Tudo está paralisado,
Mas pode ser posto em movimento
Em nome da mudança, da libertação.
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Tornar-se o que é

Destilo o corpo e espírito
Sem fórmula a priori.
Torna-se o que é
Na construção
E reconstrução,
Nas cicatrizes
Que agridem
A epiderme...
De 0 a 1000
Nas raivas
Que silencio,
Nas caudas dos erros
Que temo,
Mas insisto em reviver.
Existem dias em que
A boca não prova
Dos sedativos
Do mundo ao redor.
Tornar-se o que é
No exercício
De manter a consciência limpa,
Provar vinhos antigos,
Ser substancia
Que caminha na imperfeição...
Degustar paixões inebriantes
E receber em segundos
As necessidades e fatos
Que apodrecem
O mundo.
Mas converter o
Duro material
Em uma inspiração vertical
Que dê sentido ao corpo
Para levantar todas as manhãs
E persistir nas marcas
Nunca superadas.
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Onde Se Tenta Fazer a Vida Plena

Um novo fim do mundo chega toda semana,

Redes sociais alargam a solidão,

A fome global mantém sua infinitude.

Países imperialistas colidem por domínio global,

E a violência é uma rotina bastante trivial.

E o homem nisso tudo? Afunda nos destroços da civilização.

 

O presente é um soco diário dado nos neurônios,

Onde a humanidade, tosca, egoísta, está perdida.

Mas há um fio, um laço de contentamento:

O amor, não uma mera paixão,

Mas aquele que resiste, que se tece em dias de penumbra.

 

Mãe, amigos de longa data, presenteiam com

Palavras e atos que aquecem dias frios.

Cada encontro é um momento raro,

Pois tudo um dia vira saudade.

Ninguém avisa, nada apara, ideia não prepara

Para a dor que fica quando eles se vão.

Só resta o eco das risadas antigas,

O espírito que sangra, que arde, que lamenta.

 

A vida se ergue, se faz plena nos afetos,

No ombro ofertado, nas longas conversas,

O sentido é pedra lapidada no gesto humano:

Quem amamos, quem precisamos.

Nas trocas, nas reuniões, a existência se torna mais nobre.

 

Neste mundo estéril, cemitério de utopias,

Cada gesto contra é um ato de revolta.

Subir este Everest de tédio e derrota,

E no peito, bombear alguma vontade avulsa.

 

Lapidar o mundo, esculpir toda dor,

Viver em voz ativa, rebelar-se contra o apodrecido.

No fim, resta o que foi vivido,

O abraço, a atenção, o carinho, o pão repartido.

E se o planeta insiste em desmoronar,

Que venha abaixo. Mas que eu caia de pé,

Com memórias, amores e punhos cerrados.

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Sem Paraíso, Apenas Amor

Saber que posso a outra pessoa dar amor,

Sem promessa divina, sem fixação em paraíso,

Nem medo de punição em seu torpor,

Apenas o altruísmo, minha doação.

 

A vida, vazia, sem norte ou caminho,

Não traz da natureza ou cosmos voz de alento.

Mas se não há sentido algum sozinho,

Cabe a nós criarmos o que é valioso ao lado de alguém.

Forjamos o sentido em cada afeto,

Transformamos o vazio que incomoda.

 

Em pura ação, e própria criação,

O sentido da vida é nosso,

Feito pelas próprias mãos, árduo suor,

É a busca de algo que aqueça o coração.

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Na Hora Mais Escura

De repente, no azul da vida, vem o cinza,
Uma cor sem paixão descolore os céus. 
Preso como marionete a um absurdo palco,
Tento resistir à hora mais escura.

A monotonia do cinza causa desmoronamos,
O monótono cotidiano faz a cabeça pesar toneladas. 
Fora disso há a circunferência do pavor lá fora:
Genocídios, corpos caquéticos de fome, 
Ditaduras, mandonismos sem fim, alienações.

Na minha hora mais escura é 
Vital lembrar os bons momentos, 
Os que vivi e os que estou construindo. 
Mesmo com o pânico batendo na porta, 
Me procurando nas calçadas,
É necessário se agarrar aos bons momentos.

Então, nos dias mais cinzas, 
Crio meu próprio sentido diante
Da vastidão de pérolas e porcos mundo afora.
Independente dos tesouros talhados pela sociedade,
É em mim que vou me definir.

Construo meu próprio lar, meus alicerces,
Atribuo meus próprios valores, 
Os vivo da melhor forma ao saber
Que o vasto universo não é consciente,
E que sou temporária partícula a respirar
No canto de alguma galáxia.

O que importa é o que sinto,
O que faço a cada instante,
O que faz dar sentido à vida.
Fazer valer os momentos
Em situações que eu vivencio. 
 

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A Mosca Provocadora

Eu sou a mosca que infectou litros de sopa,
Que roeu os pães e contaminou a esperança.
Eu sou o punk que contestou as raízes do Estado burguês,
Um jovem grunge que se desiludiu
Com os homens presos em caixas.
Eu sou Augusto, o que ficou chorando sobre os
Ossos do caminho, o que poetizou a decomposição da matéria.
Eu sou o lobo que fez sua própria estrada,
Distante das ovelhas que pastam em tediosos caminhos.
Eu sou a mosca que voa
Para além dos muros dos dogmas.
Sou eu que emporcalho
A realidade alienante com putridos ovos,
Aquele que gangrena as carnes podres.
Sou o discurso soturno a incomodar
Os ouvidos dos cidadãos de bem,
A afiada faca no pescoço dos fascistas,
A canção para acordar os dormentes.
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Instantes de Serenidade no Mundo Cão

Eu estou farto, gasto, com o ego perturbado,
Exausto das horas decantadas em selfies,
Cansado das propagandas induzindo compras.
Com os olhos fechados para as bonanças miraculosas dos influencers,
Ouvidos que não suportam as historietas de pessoas de sucesso em redes sociais,
É sempre bom repetir a lição que aprendi
Nas ações de minha mãe e revi na carta epicurista:
Ser rico não é ter posses, mas ter poucas necessidades...
É gozar apenas dos prazeres que dão sustento a vida e a saúde.
E assim me contive na cotidiana sentença
De que tudo se veste na cor embolorada do dinheiro.
Me afastei das preocupações que derivam o gosto pelo poder.
Em pensamento ri das pequenas vaidades dos colegas no trabalho,
Afastei a busca de status sociais.
E os desejos que desaguaram foi degustar
Um vinho em ensolarada tarde na casa de meu pai... Afrouxar o coração nos diálogos com minha mãe.
Quantos reais essas cenas valem?
É cabível de exposição em redes sociais?
São momentos que oferecem felicidade ímpar,
Não lambem o silêncio dos homens zumbis,
Instantes que passam intensos, inteiros,
Fantásticos, metafísicos
Por dentro da vida.
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A Frágil Beleza Humana Perante o Vazio do Cosmo

Do que adianta todas as intenções, todas as ações,
Se tudo é passageiro, ilusório e um comboio para o nada?
Do que adianta construir um anelado castelo baseado nos
Papeis de um eficiente profissional, ganhador de capital
Com o próprio suor, educado vizinho, cumpridor das leis,
Se o cansaço supera os disfarces civilizatórios?
O peito estufado, o orgulho dos status parece que valem
Tanto quanto uma rocha solta na imensidão do universo...
Nada, zero absoluto, nenhuma saída para fugir das fases de um
Vídeo game existencial. Nascer, crescer, trabalhar,
Nutrir vaidades e desintegrar o esqueleto numa lápide (game over).
Será que tudo é apenas o enredo irracional de um jogo sepulcral?
Apesar do aparente monótono movimento há beleza na vida.
Há uma vontade imensa de goza-la, de saudá-la perante cerrado niilismo.
Vacila a saúde, falta ardor, vive-se magreza de alegrias,
Mas sempre se planeja um novo sentido, um valor que a tudo sustente.
Aí vem um novo ânimo, hábito ou amor pelo qual vale a pena viver...
Sempre há alguma coisa que atraia a vida, que secundarize a depressão.
E nas pequenas órbitas deixadas pelo caminho se criam uteis
Respostas, combustíveis pelos quais gozamos a vida.
Se existem os motivos para viver, tudo se desfruta, apesar dos reveses.
Assim eu viajo, bebo, caminho, conheço, como, experimento, beijo, transo,
Reflito... Amo tudo como se fosse a única ação a ser feita.
Não importam os títulos, o dinheiro, o emprego, as exposições sociais,
Sem conexão com os outros ou com valores que amenizem o fardo nas costas,
A existência é apenas uma curta chama apagada pela fatal foice.
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Meu nome é Dennis de Oliveira Santos. Nasci no ano de 1985, numa pacata cidade do interior goiano chamada Ceres. Sou oriundo de uma família humilde e um dos dois filhos que muito ama seus pais. De lá pra cá fiz muitas andanças pelo mundo através de viagens e mudanças de lares ao morar em várias localidades.

Na adolescência tive um intenso contato com obras clássicas da filosofia e literatura de forma autodidata. Escritores e pensadores foram importantes na formação de minha cosmovisão, além dos valiosos ensinamentos e valores cultivados pelos pais e avós. Desde essa época aos dias atuais o meu olhar sobre o mundo é moldado principalmente por perspectivas filosóficas, como o existencialismo e o materialismo. Já na fase adulta segui os estudos universitários me graduando nas áreas de Sociologia e Pedagogia. Hoje sou educador e pesquisador. Minha atuação abrange os campos de pesquisa, ensino e projetos sociais. Além de publicar artigos científicos na área da sociologia.

Do existencialismo ficou na mente a ideia da busca da liberdade, a responsabilidade pessoal e a busca incessante por significado na existência humana. E extraído do materialismo filosófico, a perspectiva de que a compreensão da realidade se dá na matéria e nas leis naturais, buscando explicar fenômenos e experiências humanas através de bases físicas e tangíveis. Politicamente, me situo à esquerda, com inclinações marxistas, buscando constantemente a justiça social e a crítica do sistema capitalista. Tento contribuir para a realização desses ideais através do ensino, pesquisa e engajamento em movimentos sociais.

Sou um sujeito de poucas amizades, com prazeres simples, que valoriza muito a companhia da família, um amador na arte da enologia, ávido por viagens, e, nos raros momentos de inspiração, arrisco a escrita literária. Sou, em prática, um realista com uma pitada de pessimismo, um materialista que vê o mundo através das lentes do concreto (sem misticismo). E por ser um amante da literatura, escrevo poesias e crônicas com foco nas questões sociais e filosóficas.

Na minha escrita, mergulho em temáticas para expor as injustiças geradas pela desigualdade social que permeia nosso mundo. Muitos dos meus textos são ressoantes manifestações de insatisfação, narrativas que se levantam contra os fundamentos do poder e desafiam os contornos cruéis do sistema capitalista. Além disso, busco constantemente refletir sobre a existência humana. Ao escrever, tento compreender e expressar o peculiar sentimento de "estar no mundo", abordando inquietações sobre o sentido da vida, dilemas éticos, o impacto da morte e o confronto do ser com sua realidade.