Lista de Poemas

Bem Vindo à Máquina Senhor Floyd

Bem vindo à máquina senhor Floyd, 
Ao modo de produção capitalista, 
Ao sistema de triturar vidas humanas. 
Dos primeiros choros até a lápide 
Obedeça nossos comandos.  
Sonhou com campos esverdeados 
E distinto paraíso? Animou os neurônios? 
Contente-se com a limitada realidade
E ocupe seu lugar no frigorífico de
Imolar as vértebras da esperança - o trabalho.
Vista a máscara social e corra na busca 
Sem fim do deus dinheiro.

Com a ilusão de seus esforços 
Use o elmo do magnata endinheirado,
A fina pele de ovelha em obediência aos líderes,
A coleira de cães que são nossos capatazes, 
Siga a marcha dos porcos que nos celebram.
Com a cabeça atolada no chiqueiro high tech
Veja os algoritmos sequestrarem seus desejos. 
Sinta passivamente as cargas do trabalho
Moendo os anelados sonhos no caminho, 
Os papéis sociais apequenando os objetivos, 
A vida tornada confortavelmente entorpecida. 

Senhor Floyd, acha que pode se levantar?
Cansado de ser descartável tijolo em nosso muro?
Tem que lutar, não se abater ou temer o inimigo?
Não deseja abaixar a cabeça e seguir a maré 
De ordeiro cordeiro aos nossos ditames?
Deseja ser um louco diamante e irradiar
Revolta contra as paredes que oprimem?
Aposte nesse jogo para não adiar a vida!
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O Cético

Eu não aceito a primeira palavra floreada e proferida.
Eu não dobro a língua perante qualquer ideia publicamente aclamada.
Eu não cruzo os braços ao encontrar um monumento ou belo palácio.
É preciso muito mais para me conquistar e vencer as ácidas intenções.
É sempre difícil remodelar quem eu sou,
O que penso ou o que estou querendo afirmar.
Eu não me entrego aos primeiros ventos de novos ares ou sensações,
Pois meu lar está firmado na areia do contínuo questionar.
Para quem nasceu das entranhas desta terra,
Das condições empíricas da matéria biológica,
Limitado pelo húmus da morte
E pelas regras impostas na natureza,
Às lidas com a mística dos seres humanos
Deve ser sustentada no olhar honesto,
Sem o veneno tentador das afirmativas
Com ausência de provas, sem fundamento.
Eu busco a descoberta do mundo em sua crueza,
Como ele de fato é - sem subjetivismos imaginários.
Tatear a realidade em todas as suas propriedades,
Ir à procura de uma verdade perdida na imensidão do cosmos.
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Ser Comunista

Ser comunista é lutar ao lado dos braços
Que constroem a sociedade,
É erguer a voz possante contra
Patrões e banqueiros que degradam
A vida do povo pobre e trabalhador.
Ser comunista é valorizar as pessoas
Pelo seu caráter e não pelo espúrio cifrão.
Ser comunista é tomar o poder
Para taxar sem pena os imorais bilionários
E distribuir as fortunas com as vítimas da fome.
É querer superar o sistema capitalista
Que pulsa exploração e refundar uma 
Sociabilidade baseada na igualdade 
Econômica e política entre os seres.

Ser comunista é combater o latifúndio com
Reforma agrária que atenda o pequeno agricultor.
Ser comunista é lutar pela soberania nacional
E expulsar as hienas multinacionais que depredam nosso patrimônio...
É estatizar serviços privatizados
E oferecer bons serviços públicos ao povo. 
Ser comunista é acabar com o rentismo
Dos bancos, domar o escandaloso lucro de instituições financeiras...
É concretizar o direito de todo cidadão ter um teto para morar e pão para comer,
Alcançar pleno emprego para os operários.

Ser comunista é ser como Marighella,
Calmo como uma bomba a incendiar
Revolta contra os opressores...
É como Gramsci lutando contra cárceres fascistas
Allende libertando o povo,
Prestes levando esperança para os sem voz,
Lenin organizando as massas para tomar o poder,
Brizola combatendo filhotes da ditadura,
Florestan teorizando sobre o imperialismo, 
Marx elucidando as entranhas do capitalismo.

Ser comunista é desde a infância
Questionar a miseria nos rincões do mundo,
É aprender com as ações de seu pai
A possibilidade de mudar o mundo...
É em seu trabalho ser humilhado
pelo patrão 
E aprender que a desobediência e a revolta 
São sólidos pilares da liberdade. 
Ter ciência que o operário obediente é escravo.
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Simplicidade Dominical

Ao acordar ouvi
A calmaria no cantar dos pássaros,
Sons que cortejam doces ares 
Entre dissabores do caos urbano.  
Livre das preocupações do trabalho, 
Com freios nas lembranças dos desmandos 
Do governo e a imagem 
Da taça de vinho na anterior noite. 
Como duas pessoas em um simples banquete, 
O sincero bom dia dado a mãe 
Enquanto espero contentamento na mesa. 
Embalados em fluido diálogo, 
Lado a lado em uma fria manhã,
No delicioso café da manhã 
Encontrei felicidade, 
Vivenciei harmonia, 
Era cappuccino caseiro, 
Queijo de roça goiano
E nós sentindo alegria. 
Desligado de redes sociais e smartphones, 
Estômago forrado, a prosa expansiva, 
A manhã dominical esplende simplicidade!
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O Mundo Reage a Morte da Rainha Elizabeth II

Um punk londrino ao som eletrizante do The Clash
Comemora a morte da nobre senhora real,
A inútil monarca que multiplicava os impostos ingleses e recheava as revistas de trivialidades.
Um sul africano grita de alegria em seu dialeto
Ao saber do falecimento real e lembra
Que a distinta anciã representa o apartheid
Que sentenciou negros em humilhante segregação.
Embalados pelas canções de liberdade de Bob Marley,
Os jamaicanos xingam muitos fucks
E lembram dos irmãos tratados como cachorros-escravos em canaviais
Em nome do níquel a rolar nos bolsos ingleses.
Enquanto no Brasil mãos plebeias
Homenageiam seu carrasco na tosca
Bajulação do putrefado coração de Dom Pedro,
O mundo reage a morte de Elizabeth II, dizendo :
Go to hell! Vai tarde! Abraços de Robespierre para a rainha!
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Variações Sobre o Tema Felicidade

Quando procurei a felicidade
Em stories e likes, eu me senti vazio.
Também não a encontrei nas entediantes
Academias quando buscava a construção 
Narcísica do corpo escultural.
Da mistura do dinheiro com a notoriedade social,
O desejo incontrolável de querer sempre mais,
A intranquilidade, o vazio que insistia
Em não ser preenchido com a compra irracional
Do produto da moda - a tenaz escravidão mercadológica.
O que é ser feliz?
Uma gorda conta bancária, 
A boca recheada das mercadorias impostas 
Goela abaixo pela indústria?
O dinheiro é fundamental para o mundo concreto,
Mas não é um fim em si mesmo. É preciso mais!
Filha das virtudes e introspecção,
O que aprendi nesses quase quarenta anos de vida
É que a felicidade é a simplicidade dos prazeres vividos. 
É o cachorro quente da esquina ao invés do prato gourmetizado.
A cerveja degustada no bar "pé sujo" ao invés do requintado champanhe. 
Para além do paladar íngreme das necessidades imediatas, 
O prazer se obtém em ações simples e imateriais.
O que é saudável e feliz?
Um quente abraço da mulher amada,
As memórias familiares que nos matem vivos.
Estamos, realmente, sendo felizes?
É possível a felicidade na sociedade
De competição selvagem, de aparência dissimulada,
Que te molda na lógica de torpe individualismo?
Tristeza não tem fim, felicidade sim - já dizia o poeta.
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O Simulacro Universal

Onde se encontra a realidade?
Editada milimetricamente em um photoshop,
Horas de aparentes alegrias e encantos
Que falseiam o vazio no peito das pessoas.
Ela está aprisionada nas banais emoções
Tinderizadas no encontro de pênis e vaginas.

Como estão as artes nesse túnel de futilidades?
Nos limitados streamings
Apenas filmes cor de tédio,
Películas blockbusters a gerar
Barato entretenimento para o povo.
Olhos antenados em filtros
De memeticas histérias coletivas
E presos em um multiverso, em uma realidade
Paralela repleta de criaturas mitológicas...
Rompe o obscurantismo nos smartphones
E likes das vidas superficiais.

E o desejo de viver em paz expresso
No canto universal de Jara, onde está?
Rigorosamente limitado pelas redes sociais
E calado pela uberização das mãos operárias...
Uma imensa fila de trabalhadores com menos
Direitos e com horas contadas por aplicativos.

Proíbe-se pensar, criticar,
Rebelar, desconectar,
Ousar, revolucionar...
Neste recinto universal de simulações
É proibido se libertar da alienação,
Da dormência emanada nas estúpidas vozes on-line.
É proibido sentir a realidade como ela é!
Tudo se vê pelo prisma do grande
E controlador olho imposto pelo capital.
272

Antes Incendiar do que Apagar Aos Poucos

Não me descreva o choro de déspotas...
Sou parte das massas que desejam prendê-los.

Não me fale dos falsos inocentes na guerra entre lobos...
Não me solidarizo com impérios fingindo serem pátrias oprimidas.

Não me incite a aceitação de baixos salários e o espírito do passivo trabalhador...
Faço greve contra a volumosa mais valia dos patrões.

Não me insira no amor líquido e na contenção das emoções...
Não suporto a assepsia dos afetos e a emulação de empatias.

Não me fotografe em poses felizes para redes sociais...
Estou farto de influencers que proliferam discursos de fezes otimistas nos paraísos prometidos aos homens candidos.

Nem me fale da política conciliadora de classes e que deseja humanizar o que é barbárie social...
Sou parte dos contestadores que desejam trucidar multinacionais e bilionários para socializar suas riquezas com os que não conseguem comer três vezes ao dia.

Não me ensinem uma vida monótona...
Da existência quero percorrer diversos caminhos,
Ser flamejante boca que mata a sede nos mananciais,
Samurai que usa afiada lâmina
Em uma constante batalha na busca de luz. 

 
 

298

Eu Digo Sim

Eu não preciso de teologias salvadoras,
Nem de heroína ou cocaína.
Não preciso dos conselhos de influencers,
Nem da pose dos homens nas academias,
Muito menos das selfies de ricos em iates,
Eu só preciso sempre dizer sim à vida.
Mesmo quando o universo assobia a canção
Em que sou minúsculo farelo/átomo de nada,
Mesmo que os dias tenham infindáveis dilemas,
Um jorrar de sangue como em matadouros de vacas,
Mesmo que eu me rasgue no rodopio das emoções,
Jogando pedras em tudo que incomoda os ouvidos,
Mesmo que sinta os vales de lágrimas
Que afloram as vulnerabilidades do eu,
Me engajo por inteiro neste insano planeta
E digo sim plenamente à vida.
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A Poesia Maldita

Oito horas de pé, corpo e mente cansados,
Nas tardes que se passam: cobranças no trabalho.
Ao redor selfies, violência, miséria, burrice coletiva,
O mundo é um luar de entediadas mandíbulas a discursarem.

Um planeta acinzentado que não anima os homens. 
Nessa pesada realidade, nesse chope sem espuma,
Nesse perfume que não adoça os corpos,
A poesia deve incomodar, nada de suave romantismo.

Seus versos devem guilhotinar os afortunados,
Suas rimas alardear sobre a pobreza que avoluma.
A poesia é plurissignificativa de metamorfoses,
Mendigo a caminhar nas ruas dos sentimentos,
Uma defecadora na boca dos hipócritas.

O versejar não pode ser bobamente feliz,
Descrever jocosamente o amor, ser mero entretenimento.
A poesia deve jorrar sangue, desnudar mundos,
Ser jab bem dado para ferir e remontar o cérebro...
Elegia que expõe vértebras e estômagos.

A poesia tange seus pés junto
A tudo que é desconfortável e agressivo.
Ela cospe sobre o descartável,
Esfaqueia os que buscam a felicidade
Pela satisfação de necessidades econômicas.

A poesia tritura os ossos do imediatismo,
Dá pontapés na superficialidade,
Oferece sentido ao mundo à nossa volta.
Ela grita nossos dilemas,
Busca novas possibilidades.

A poesia é a trova dos críticos,
Uma bastarda entre os deuses do Olimpo...
As flores do mal plantadas por Baudelaire, 
Poe, Augusto, Ginsberg, Kerouac e Gregório.  
A poesia beija o peito sofredor.
A poesia deve ser maldita!
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Meu nome é Dennis de Oliveira Santos. Nasci no ano de 1985, numa pacata cidade do interior goiano chamada Ceres. Sou oriundo de uma família humilde e um dos dois filhos que muito ama seus pais. De lá pra cá fiz muitas andanças pelo mundo através de viagens e mudanças de lares ao morar em várias localidades.

Na adolescência tive um intenso contato com obras clássicas da filosofia e literatura de forma autodidata. Escritores e pensadores foram importantes na formação de minha cosmovisão, além dos valiosos ensinamentos e valores cultivados pelos pais e avós. Desde essa época aos dias atuais o meu olhar sobre o mundo é moldado principalmente por perspectivas filosóficas, como o existencialismo e o materialismo. Já na fase adulta segui os estudos universitários me graduando nas áreas de Sociologia e Pedagogia. Hoje sou educador e pesquisador. Minha atuação abrange os campos de pesquisa, ensino e projetos sociais. Além de publicar artigos científicos na área da sociologia.

Do existencialismo ficou na mente a ideia da busca da liberdade, a responsabilidade pessoal e a busca incessante por significado na existência humana. E extraído do materialismo filosófico, a perspectiva de que a compreensão da realidade se dá na matéria e nas leis naturais, buscando explicar fenômenos e experiências humanas através de bases físicas e tangíveis. Politicamente, me situo à esquerda, com inclinações marxistas, buscando constantemente a justiça social e a crítica do sistema capitalista. Tento contribuir para a realização desses ideais através do ensino, pesquisa e engajamento em movimentos sociais.

Sou um sujeito de poucas amizades, com prazeres simples, que valoriza muito a companhia da família, um amador na arte da enologia, ávido por viagens, e, nos raros momentos de inspiração, arrisco a escrita literária. Sou, em prática, um realista com uma pitada de pessimismo, um materialista que vê o mundo através das lentes do concreto (sem misticismo). E por ser um amante da literatura, escrevo poesias e crônicas com foco nas questões sociais e filosóficas.

Na minha escrita, mergulho em temáticas para expor as injustiças geradas pela desigualdade social que permeia nosso mundo. Muitos dos meus textos são ressoantes manifestações de insatisfação, narrativas que se levantam contra os fundamentos do poder e desafiam os contornos cruéis do sistema capitalista. Além disso, busco constantemente refletir sobre a existência humana. Ao escrever, tento compreender e expressar o peculiar sentimento de "estar no mundo", abordando inquietações sobre o sentido da vida, dilemas éticos, o impacto da morte e o confronto do ser com sua realidade.