Lista de Poemas

Singeleza

Ser simples e trilhar
A vida livremente,
Buscar com afinco
O que é pleno no coração
E despojar do efêmero, do que não
Perdura, da luxúria ao vil metal
Dos homens tolos e endinheirados.
Unir nos mesmos gestos
O viver dentro das próprias possibilidades,
Erguer, aos poucos, o que lhe é devido,
Sem excessos, sem trapaças.
Dormir na cama o sono dos justos,
A consciência plena de genuínas emoções.
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Amor é Gesto

Além do sexo
Em uma ardente noite,
Além dos afetos individuais,
Além do próprio umbigo,
Além de uma longeva amizade,
Além dos riscos
Em toda convivência humana,
Amor é gesto, ação,
É o que se faz pela pessoa amada,
É dar, receber...
É construir significados à dois,
Atrelar os dias
À pessoa escolhida,
Ofertar tudo ao outro
E viver um investimento
Que cresce no agir diário.
Dar novo sentido à vida, à dois,
Unir numa só fonte,
Germinar companheirismo
Em terras que foram
Marcadas pela solidão.
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Sísifo Mais Uma Mais Desce a Montanha

Dia encerrado, Sísifo está de pé
Refletindo sobre a aniquilação de
Seu esforço físico e bom humor:
O sangue trucidado no trabalho,
Os neurônios atormentados
Com as contas bancárias,
Trânsito ensurdercedor,
Desmandos de poderes que afetam
O atendimento das necessidades,
Desejos apequenados
Nos inconvenientes da saúde,
O corpo dá sinais de fraqueza.

Sem tempo para familiares,
As ficções das conversas alheias
Foram à contragosto suportadas,
Os estranhos ao redor sufocam o viver,
As vísceras, amolecidas nos papéis sociais.
Assinar o atestado para a aceitação
De todos os problemas?

Mesmo no universo sem dono,
Preenchido de absurdos,
Rochas rolando para baixo,
As costas cansadas dos fardos,
No alto da montanha, entre névoas mil,
Sísifo persiste, acredita que a luta é suficiente
Para fazer do amanhã um dia melhor.

Agora no pé do penhasco dialogando
Com a caveira (a morte) e adiando sua sentença,
Observando os cadáveres jogados no chão,
O lutador grego mexe os dados e ajeita
O rochedo em seu corpo para enfrentar o hoje:
Banha, se veste, pega transporte, trabalha e vai
Enfrentar mais um dia. Sísifo se imagina feliz?
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Amanhã Nunca Se Sabe

Ao escutar psicodélica canção dos Beatles
Surgem pensamentos sobre a efemeridade
Da vida e sinto o que Lennon e McCartney expressaram.
Apesar das ruínas do sofrimento e insatisfações,
Diante do amanhã que nunca se sabe,
Do sempre provável encontro com a morte,
A força para jogar o jogo da existência
Até o fim é mais forte. Ser peão que suporta
Xeques-mate e anunciados fins do mundo.

Na fugacidade do tempo, na presença da miséria,
Escrever minhas palavras no presente...
Rabiscar luz nas noites mais escuras,
Persistir mesmo quando erros apagam a escrita.
Em todos os cantos do planeta
Amar demasiadamente e sem olhar para o futuro,
Como cantou Renato Russo...
Uma busca essencial e propulsora de alegrias.
Passear pelas estradas e aspirar o aroma das árvores.

Nas praias extasiar com o crescimento das ondas,
Romper as gaiolas que impedem o movimento,
Rangendo as amarras e girando a maçaneta
Até abrir todas as portas das possibilidades.
Renascer do vazio com mãos que nunca ficam vazias de coragem...
A vida como realidade a ser plenamente experimentada.
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O Essencial


Haverá um equívoco
Na vida média que se leva?
Será que as drogas, o vício em tela
E muito dinheiro trazem libertação diante
Da solidão no mundo em que vivemos?
Sabendo dos castigos impostos
Por partidas de entes queridos,
Aprendi a ouvir, acompanhar, vibrar,
Apreciar em demasia a companhia
Daqueles que são vitais na vida.
Sou grato aos que amo e desejo
Manter o prazer de sempre acompanhá-los.
Sei que a vida fica mais leve,
Plena de aconchegantes sentidos...
Aromas que ditam os dias em levezas,
Horas pintadas com cores de alegria.
Enquanto a vida pode se entrelaçar com a morte,
Diante dessa limitação, se concentrar
No que é fundamental: encontrar significado
Ao lado de quem importa.
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Meu Patrimônio

O meu patrimônio
É ter um lar seguro e calmo para dormir,
É ter alimento fresco, o suficiente para saciar.
É ter alguém para amar e ao lado dela
Tudo vivenciar, compartilhar a jornada da vida.
É ter um domingo para saborear
Uma lasanha ao lado dos pais, irmã e cunhado.
Rir das coisas cotidianas e compartilhar
A rotina com as pessoas que me amam.
182

Homem Aprisionado em Caixa de Concreto

Ainda bem que eu insisto na vida, 
Algumas vezes, sim, 
Em episódios isolados, 
Desejei abolir-me em meio 
A um punhado de dor. 
E quem nunca isso imaginou? 
Mas mesmo caminhando no caos, 
Aprisionado em caixa de concreto, 
Em dias emoldurados no sofrimento, 
Liberto-me da miséria, 
Desvencilhando de impurezas, 
Transcendendo o mar de enganos 
Feito homem sagaz. 
Sou Alice acorrentada nas perdições
E tateando sombrio mundo, 
Layne Staley em luta contra toxinas. 
Ser mergulhado em melancolia, 
Que nas linhas tortas deixadas pelo mundo, 
Homem que apanha feito cachorro 
Em fétidas latrinas e viscosas feridas, 
Dá um grito de alento e persiste 
Na vida em seu próprio caminho.
191

A Riqueza de Domingo

É domingo, 
Acordar sem o despertador,
Capuchino degustado devagar, 
A rolar na cama,
Sem planos fixos para o dia. 
Escutar os Bealtes com o lembrete 
De que a felicidade é arma
Que aquece a vida. 
A ideia de tomar uma cerveja, 
Jogar um antigo game
E apreciar a conversa familiar
Sem a rigidez de horários, 
Sem cumprimento de funções...
A riqueza de domingo é o ócio 
Pleno no aconchego do lar.
186

A Traição

A confiança despedaçada em doloridos 
Fragmentos nas vivencias de muitos anos. 
As relações vistas enquanto lócus instrumentais
De tratar os outros como meio para um fim... 
Mentira entre amigos, intimidades 
De familiares reveladas a quem não devia, 
A traição defeca imoralidades 
E absurdos sem fim.
É o ato grotesco que manipula 
Em palavras disformes, (des)regras morais, 
Os relacionamentos em nome
De apequenados objetivos pessoais. 
Situação que apedreja o crânio de arrependimentos, 
Os quais certamente pairavam na mente de Capitu. 
Deformações morais feito crime 
A castigar as reflexões de Raskólnikov. 
A traição é atestado de baixeza, 
Guilhotina que decepa o pescoço 
Da igualdade humana,
Membro vil que aflora pestes, mutila
Os corpos saudáveis e que
Viviam na confiança mútua.
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A Felicidade Regada Pela Poesia Engarrafada

A alegria no mundo é regada pelo sabor do vinho...
Na intensidade do tannat do Uruguai,
Na versatilidade dos malbecs da Argentina,
No rei das uvas, o cabernet sauvignon do Chile, 
Na maciez de tempranillos da Espanha, 
Nos sabores alentejanos de Portugal, 
Nos elevados taninos dos nebbiolos da Itália, 
É a poesia engarrafada que na mesa 
Festeja a vida e aproxima as pessoas leais.
O vinho e a literatura são excelentes 
Saca rolhas para revelarem maravilhas. 

Não foi Dionísio que criou a iguaria. 
A bebida é algo concreto que se materializa 
Quando a degusto sozinho ou bebo
Com meu pai durante partidas de futebol. 
Vinho que colore o dia acinzentado,
Néctar que revela nobres recordações, 
Jamais habita a taça para o mero embriagar, 
Deve ser degustado aos poucos, moderadamente, 
Para no pulular das uvas obter imenso prazer.
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Meu nome é Dennis de Oliveira Santos. Nasci no ano de 1985, numa pacata cidade do interior goiano chamada Ceres. Sou oriundo de uma família humilde e um dos dois filhos que muito ama seus pais. De lá pra cá fiz muitas andanças pelo mundo através de viagens e mudanças de lares ao morar em várias localidades.

Na adolescência tive um intenso contato com obras clássicas da filosofia e literatura de forma autodidata. Escritores e pensadores foram importantes na formação de minha cosmovisão, além dos valiosos ensinamentos e valores cultivados pelos pais e avós. Desde essa época aos dias atuais o meu olhar sobre o mundo é moldado principalmente por perspectivas filosóficas, como o existencialismo e o materialismo. Já na fase adulta segui os estudos universitários me graduando nas áreas de Sociologia e Pedagogia. Hoje sou educador e pesquisador. Minha atuação abrange os campos de pesquisa, ensino e projetos sociais. Além de publicar artigos científicos na área da sociologia.

Do existencialismo ficou na mente a ideia da busca da liberdade, a responsabilidade pessoal e a busca incessante por significado na existência humana. E extraído do materialismo filosófico, a perspectiva de que a compreensão da realidade se dá na matéria e nas leis naturais, buscando explicar fenômenos e experiências humanas através de bases físicas e tangíveis. Politicamente, me situo à esquerda, com inclinações marxistas, buscando constantemente a justiça social e a crítica do sistema capitalista. Tento contribuir para a realização desses ideais através do ensino, pesquisa e engajamento em movimentos sociais.

Sou um sujeito de poucas amizades, com prazeres simples, que valoriza muito a companhia da família, um amador na arte da enologia, ávido por viagens, e, nos raros momentos de inspiração, arrisco a escrita literária. Sou, em prática, um realista com uma pitada de pessimismo, um materialista que vê o mundo através das lentes do concreto (sem misticismo). E por ser um amante da literatura, escrevo poesias e crônicas com foco nas questões sociais e filosóficas.

Na minha escrita, mergulho em temáticas para expor as injustiças geradas pela desigualdade social que permeia nosso mundo. Muitos dos meus textos são ressoantes manifestações de insatisfação, narrativas que se levantam contra os fundamentos do poder e desafiam os contornos cruéis do sistema capitalista. Além disso, busco constantemente refletir sobre a existência humana. Ao escrever, tento compreender e expressar o peculiar sentimento de "estar no mundo", abordando inquietações sobre o sentido da vida, dilemas éticos, o impacto da morte e o confronto do ser com sua realidade.