Vai Passando na Avenida Governos Burgueses
O governo Temer privatizou e passou.
O governo Bolsonaro matou e passou.
O governo Lula, apesar de benesses,
Mas dando beijos na face do capital financeiro,
Concilia com a burguesia e está passando...
Só não passa a inflamada voz popular
Que deseja uma real transformação social.
Viver Antes que o Inevitável nos Abrace Por Inteiro
Estranha a ideia de experimentar
A vida pensando no pós-morte.
Que sentido há nisso? Promessas vãs?
Melhor viver com o sentindo que as mãos criaram,
Fazendo o que se gosta,
Dando significado às atitudes e relações tecidas.
Na corrida contra o inevitável,
A morte, sempre nos alcança, inabalável.
Então, por que não aproveitar a aventura possível,
Antes de mudar para a última morada, o caixão?
Mesmo com as poças dos problemas
Aumentando a cada dia, seguir adiante.
Dar partida no motor, cair na estrada
Em busca daquilo que apareça no caminho.
Abraçar a imperfeição do mundo
E disparar todas as armas em busca de prazeres.
Sete palmos abaixo, a terra nos espera,
Viver sem pesos, gozar o dúbio tempo,
Antes que o inevitável nos abrace por inteiro.
A Minha Morada
A minha morada se faz em uma simples mesa
Onde posso escolher os alimentos.
A minha morada se faz em um teto composto de tranquilidade,
Rodeado da família e longe das multidões.
A minha morada se faz na brasa do amor,
O firmamento alicerçado em genuínas emoções.
A minha morada se faz na possibilidade
De ser combustível que incendeia
O ânimo de algumas pessoas.
A minha morada se faz na ideia
De ser um lobo sem alcateia,
Que desde a juventude, a rebeldia
Afastou da padronização imposta por qualquer ordem.
A minha morada se faz no escárnio contra
Poderosos, na revolta contra
O corpo firme da injustiça e desigualdade.
A minha morada se faz em alimentar
Afetos nas relações dignas de tal ato.
A minha morada é frágil,
Possui algumas janelas quebradas
E as vezes é incomodada por monstros.
Mas é em meu próprio e rudimentar lar
Que realizo o viver pleno.
Soa o Gongo
Dente despedaçado, nariz partido,
Pernas trôpegas, sangue na face,
Olhos baixos, movimentando com dificuldade
No assalto anterior, quase um morto-vivo.
A mente vislumbra uma estrada deserta,
Sem alguém ao lado e apenas tolos avistados.
Línguas da plateia como lâminas cortantes
A desferirem críticas, cuspirem indizíveis ofensas.
A lei da selva impera: fuzila ou é touro abatido.
Camadas da pele machucadas, rosto roxeado,
O sabor do futuro temperado de temor,
O oponente composto de fúria e riso do outro lado.
Soa o gongo: erga-se, prossiga na batalha!
Reconhecimento
Não deixe que o tedioso cotidiano
Impeça de enxergar que os dias comuns
Podem ser momentos extraordinários.
Fortaleça tua singularidade no vasto mundo,
Desprezando a mesquinhez de uma vida passiva.
Investe no hoje, no agora, pois não há
Juizo final que redime o amanhã.
Não permita que outros imponham silêncio,
Sentenças que te cerceiem o ser.
Reconhece o que é, ergue tuas próprias vigas de vida,
Pois pensamos pouco no que temos
E sempre no que nos falta.
Reconheça tudo o que possui,
Não persista lamentando por perdas passadas.
Batalhe por aquilo que conquistou
E que pode conquistar.
É Necessário
É necessário me perder em uma longa estrada.
É necessário um barco de desejos
No mar de incertezas.
É necessário construir afetos,
Alegria, contentamento, paz,
Lembranças em conversas com os pais.
É necessário banhar em aconchegante praia,
Sentir o calor do sol,
Respirar o ar fresco fora das grandes capitais.
É necessário construir alegrias,
Trocar muitos beijos,
Aquecer os corpos em desejos,
Passear na geografia feminina
Ao amar a mulher desejada longamente.
É necessário afogar em um vinho barato,
Fugir do caos urbano, escrever poemas
No silêncio da noite em profunda reflexão.
É necessário alguns amigos para bons diálogos,
É necessário após duras batalhas,
Cicatrizes na pele, renascer como a fênix.
Do fogo das provações moldar o espírito.
É necessário lamentar as perdas como
Um velho cantor de blues.
É necessário ter conhecimento da foice fatal,
Me amar no que sou e odiar quem preciso.
Ser um homem simples, nada de extraordinário.
E ter ciência de que não preciso de muito,
Apenas de minha dúbia liberdade,
Meus intensos desejos e um toque humano.
É necessário assim, queimar, seguir em frente.
Um Dia Perfeito
Um dia perfeito, uma tarde majestosa
Que tirou a mente de infernos.
Fomos para casa, para nosso novo ninho,
Eliminamos as baratas e instalamos a cama.
Ah, um dia perfeito,
Uma nova aliança entre nós.
Beijei-te com paixão o corpo,
Encontrei abrigo em teus braços,
Molhei-me na chuva de teu ser
E depois, gota a gota, sequei
Do calor à dois no carinho
Entre tuas pernas.
Um dia perfeito que esqueci
Os demônios que rondam.
E ao beber de ti aos poucos,
Ao saborear teu néctar,
Sem pressa de saciar a sede,
Os males são afastados,
O ânimo renovado,
A vida renascida
Em nossa ardência.
Um dia perfeito.
Sempre leve-me para nosso lar.
Quando eu estiver cansado, triste,
Apenas deite-me no chão e ofereça ardência,
Mostre o mundo a brilhar.
Pois o suficiente somos, eu e tu, juntos!
Blues das Pedras no Caminho
Como Robert Johnson ao encontrar
Demônios de carne e osso nas encruzilhadas,
Como Stevie Vaughan a solar
Na guitarra conflitantes sentimentos,
Como Drummond em ímpar poesia,
Eu reconheço as pedras em meu caminho.
As moedas dormem longe da conta bancária.
Um apito pelo túnel dos problemas soa constante.
Hienas tentam grunirem em meu quintal.
As tardes definem dias quentes no exaustivo trabalho.
Mentiras deferidas enojam o crânio.
Eu tenho incômodos em meu coração,
Há pedras que parecem imensos rochedos
E ainda estou descobrindo as chaves
Que abrem as portas dos inconvenientes.
Carrego nas costas difíceis pedregulhos,
Como as cordas musicais de Freddie King
A sussurrar tristezas em melodias.
Mas me sento no jardim da persistência...
Uma família, um amor por uma mulher, umas ideias,
Espalhar brilho, teimosia nas tábuas
Das grosserias, agir tentando a tudo dar fim.
Acender uma chama que eleva,
Comprar a passagem e deixar as malas feitas.
Nas sombras perturbadoras, a ousadia para tudo alterar,
Sentir alteridades que sondam
Novo pulso e murmurar de pura felicidade:
Dá-me vinho, dá-me beijos, pois o sangue
Em todo o chorume vivido foi purificado.
Um Velho Caubói
Eu sou um velho caubói,
Um homem atingido por fogo amigo,
Acostumado com os tiroteios nas cidades,
Aceitando que o passado é inalterado,
Mas laçando o hoje no pulsar das minhas veias.
Cicatrizando feridas, confundindo os abutres,
Dia após dia seguindo um longo caminho
E não aderindo a cegueira alheia
Por um punhado de dólares.
Entre canalhas e trapaceiros,
Cavalgo por uma estrada sem fim,
Vou vivendo como se fosse a única oportunidade
De existir, amar e degustar longos goles.
E toda vez que os dados do futuro incerto
São lançados nos áridos caminhos,
O que era sólido desmancha no ar,
Assumo o que sou para não ser escravo,
Aceito o amor oferecido por uma bela mulher,
Viajo passo a passo, dos curtos aos turvos
Caminhos para pavimentar a felicidade...
E se tiver de atirar, atiro, não falo,
Saco a colt contra qualquer oponente.
Instantes de Ataraxia
Em qualquer circunstância ou dificuldade,
Ser fiel a ti mesmo, ser ator no palco dos dias,
Gerar-se, transformar sempre
Que necessário, inventar novos movimentos
Quando os olhos estão cansados.
Da vida não almejar grandes posses materiais,
Mas ter poucas necessidades,
Prazeres na comida saborosa,
Simples vinhos que animem o paladar,
Orgasmos com a mulher amada, desejada.
Conexões sinceras com poucos,
Integridade nas atitudes,
Evitar o medo da morte,
Respirar e se nutrir de oxigênio
Para poder continuar...
Manter a mente em paz
E tranquilos sentimentos no coração.