Lista de Poemas

Domingo

Ficou hoje o sossego, a distância da rotina,
É o dia do corpo esparramado pelo sofá,
Dos risos no almoço familiar.
Horas cheias de espontaneidades e desprovidas
Da fumaça e coisas corriqueiras do mundo lá fora.

Nada de fadigar as costas com turvas coroas protocolares.
O cálido prazer está em fresquíssimos risos com os pais,
Em rechear o leito de luxúrias junto à mulher amada ao acordar,
Em virar em longos tragos a garrafa de vinho fino.
A tranquilidade que ameniza o crânio das tonturas semanais.
165

Em Busca da Verdadeira Independência

As elites da Terra do Tio Sam estão cada vez mais ricas,
Enviaram multinacionais, controlaram governos entreguistas.
E com a dilapidação das riquezas brasileiras,
Compraram tudo a preço de banana em manipuladas privatizações.

O colonialismo e espirito de vira lata voltaram (talvez nunca foram embora).
Arrotando tosco nacionalismo, de contentamento com o desemprego das massas,
As tecnologias e indústrias nacionais foram desmanteladas em nome do capital estrangeiro.
Voltamos a ser colônia, a manter a sina de ser periferia do capitalismo.

Continuarão lambendo as botas dos yankees?
Ser boi de corte para estrangeiros?
Onde estão às revoltas, greves, motins?
Será que um dia o bovino e oprimido povo dará um basta?
Em qual época haverá nossa verdadeira independência?
151

Coleções de Marcas Deixadas Nos Amigos

Meu coração está contente por
Terminar o dia e minimizar
A minha insignificância no planeta.
No decorrer das atividades diárias
Deixei marcas nas pessoas que não serão apagadas,
Influências e sentimentos em íntimos indizíveis.

Empreguei afetuosa pedagogia para orientar uma depressiva aluna.
Fiz revisões textuais para ajudar um amigo de trabalho.
Orientei aquele que estava com os nervos embrutecidos,
Escutei com esmera atenção quem estava com problemas sentimentais.
A palavra compartilhar foi termo bem empregado quando indiquei
Diversas canções de rock ao que estava distante geograficamente,
Quando me diverti conversando com outra amizade sobre modelos de guitarra.

Longe do compartilhar os saberes com os amigos,
A vida se esvai em tédios... É noite sem intenso luar.
O brilho do conhecimento só reluz quando é útil
Em direção ao próximo, no seu compartilhar com as amizades...
Aquele que ajuda uma vida contribui para a beleza (já escassa) no mundo.
187

O Retrato da Burguesia

A ensandecida cobiça da burguesia
Doma a humanidade.
De golpismos latentes,
Preconceitos frequentes,
De obscurantismo medonho,
É uma sagaz hiena
Que manipula a política,
Diminui a dignidade do povo
E tira tudo que há de igualdade entre as pessoas.

Em duras regras impostas nas fábricas,
Se alimenta do suor do trabalhador,
Engorda suas contas bancárias com
A tenaz mais valia extraída da labuta proletária.
O bom burguês, que de bom não tem nada,
Dominou seres humanos como obedientes animaizinhos,
Restaurou seus privilégios ao manipular direitos alheios.

E ela só cresce, saqueia o Estado, corrói a democracia,
Sangra os cofres públicos e enfia milhares na miséria.
Chaga social de olho apenas nos cifrões, nos lucros do capital,
O cais da putrefação coletiva que valoriza o ter antes do ser.
169

Ode Matinal ao Sol


Após saltar da cama e pegar o asfixiante transporte coletivo,
Os intensos raios de sol trazem lascas de vivacidade.
Agora levo para o abatedouro que é o trabalho,
O crânio mais leve, este motor de constante indagar.

Como um místico salvador que deixa
Arrebatadora mensagem por sobre os ombros,
O astro rei deixa um poema no mundo recheado de aprendizados...
Liras que descansam os afoitos e desavisados.


O sol ilumina as faces e silencia as dores,
Nasce todos os dias para relativizar os sofrimentos.
Pois a cada manhã, as possibilidades se renovam.
Com sua intensidade encanta os olhos e seu
Ofuscante brilhar trucida as calçadas da vida limitada...
Ensina sem nenhuma palavra que todo erro
É dilapidado no constante adaptar-se as contingências.

Mesmo o mundo insistindo em ser o mesmo,
Essa bola de oxigênio e desenganos,
O nascer e o poente do astro rei geram novos dias,
Novos caminhos para as existências já sem significados.
168

Os Limites da Ciência

Desde o período universitário, intrigado com os mistérios do mundo,
Dediquei vários momentos da vida ao ofício científico.
Estudei sociologia, história, obtive condecorações em pesquisas,
Certificados de palestras dadas, elogios na ministração de aulas.
Mas passam teorias, métodos, instantes de apreensão da empiria...
E a ciência não me diz o que preciso ter para suportar a vida.
Ela não me informa quais julgamentos morais devo obter quando sofro dos nervos,
Muito menos o que sentir caso chova perturbantes sentimentos em meu dilúvio diário.
Ela não me diz nem como usar o seu próprio conhecimento.
Do que adianta resolver os mistérios do universo,
Qualificar biológicas matérias, descrever as anomias de grupos sociais,
Senão sou capaz de lustrar finalidades perante as vértebras subjetivas
Que vibram e se estabelecem no íntimo do eu?
156

O Fracassado Golpe de Estado dos Bolsonaristas

A soberania popular foi testada e resistiu
Aos arroubos de um fracassado golpe de Estado.
Os vermes fascistas,
Combatentes do obscurantismo,
Armados de ignorância até as gengivas
Esfaquearam quadros de Di Cavalcante,
Destruíram salas do Senado,
Mijaram na Câmara.

Eram porcos sujando os palácios do poder,
Evangélicos que pediam a benção
De Cristo em nome da depredação.
Mas se diziam cidadãos de bem
E que desejavam violentamente
Depor um presidente
Que democraticamente
Foi eleito ao poder.

No esgoto social,
Catando restolhos da ignorância coletiva,
Os bolsonaristas aplicaram
De vez o cancer golpista
No corpo já anêmico do país.
Nos picos ditatoriais
Desejavam o futuro vivido
Entre fogueiras e sandices.

Nada de respeito, rompimento de toda civilidade.
Monstros, terroristas, canalhas,
Renovadores do medievo, do nazismo
E de 1964 na tentativa de sequestrar o país
E tomba-lo na epiderme composta de censura.
Mas perderam a batalha,
São estrumes a ocuparem cadeias
E fétidas lembranças que
Permanecerão na memória do país.
Animais fuçando no lixo
Dizeres cheios de racismo,
Preconceitos de classe,
Insetos a serem esmagados
Pelos braços do povo.
288

Ao Mestre Machado

Eu tive um enorme espanto
Na primeira vez em que li
Os contos e romances do Bruxo do Cosme Velho,
Foram como um soco no crânio a lá Kafka.
Vivia absorto nas grandes nuvens,
Iludido, romantizado. Mas aí o verme
Que roeu as frias carnes de Brás Cubas
Atravessou como afiada lamina minhas entranhas.
Numa visão irônica, num sarcasmo sem fim,
Num animo morno cinza me acostumei
Em ver a decomposição e contradições
Dessa sociedade lançada ao fracasso...
Mundo em que o amor é uma pedra embalsamada de cifrões.

Os misteriosos olhos da amada de Bentinho
São tão difíceis de decifrar quanto à imensidão do mar.
Da leitura das sandices de Simão Bacamarte desaprendi
Os limites entre o normal e o anormal nas cabeças dos homens.
Percebi que todos os louros da razão, da fria ciência,
Geraram caminhos de alienação, nuvem cinza de discriminação.
Na metafísica análise das batatas feita por Quincas Borba,
A destilação da bílis negra do nosso maior escritor
Diante da vida repleta de mediocridade e lixo.
Com pontapés críticos no crânio, os icônicos textos retratam

Um pó repleto de vícios que vociferam todos os homens.
Seja na aurora do século XIX ou na planície seca dos dias atuais,
A escrita machadiana se estica como elaborado microscópioa
A desvendar as baixezas das aventuras humanas.
133

Sentimentos Após o 25 de Dezembro

Contas bancárias, status social,
Relações profissionais, exposições virtuais,
O mundo condiciona os dias dos homens
Na miragem de valorizar a existência
Como marionetes dos tempos líquidos.
Afinal, somos títeres de um simulacro
Ou atores no palco desenhado pela liberdade?

Seja aonde for, vá acompanhado dos afetos,
São eles potentes remédios para as horas de tormentos.
Diante de aparentes prazeres ou sob uma discutível fama,
Busque dormir bem ao fim do dia,
Relaxe na tranquilidade do lar,
Tenha como luxo a família que te ama,
Os bons amigos que te acompanha,
A necessária comida na mesa
E o teto que lutou para construir...
Riquezas que não sucumbem ante a miserabilidade dos objetos.

No altar das emoções, mesmo em todas as
Suas contradições, problemas, limites,
Busque sempre o amor - ele que eleva a vida.
Não deixe esfriar a inconstante chama do peito.
A vivência das emoções é uma redução
De danos nos tortuosos caminhos,
É combustível que alimenta o querer viver
Mesmo quando o corpo beija a pior desgraça.
167

Ataraxia Epicurista

É medonho o prazer buscado nas bebedeiras sem fim,
Que nas faces tediosas mostram os ânimos bastante esvaziados.
É fútil o contentar do espírito nos falsos banquetes,
Como se o estômago cheio pudesse atear vivacidade ao ego.

Não é o deliciar de uma fina iguaria em uma mesa farta, rodeado de amigos,
Que a vida será refeitório em que se morde os pedaços da felicidade.
Não há joias, carros ou posses que curem a febre dos dias mórbidos.
De todos os objetos e valores que circulam na órbita humana, a prudência
É o princípio pelo qual o existir e suas paixões devem ser analisados.
É dela que se originam as demais virtudes.

A vida simples e a autossuficiência bebidas nos seios mimosos dos desejos,
Numa vivência sem luxos - as coisas tranquilas de se ver e sentir.
O céu do contentamento num universo sem excessos ou faltas.
Ser sereno é avaliar os prazeres e dores contidos em cada gesto,
Em cada ato e extrair destes instantes apenas o estrito necessário à vida.
A felicidade é o caminho da simplicidade, a liberdade da prudência,
Moradia que afasta a escravidão dos extremos obtidos nos prazeres.
184

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Meu nome é Dennis de Oliveira Santos. Nasci no ano de 1985, numa pacata cidade do interior goiano chamada Ceres. Sou oriundo de uma família humilde e um dos dois filhos que muito ama seus pais. De lá pra cá fiz muitas andanças pelo mundo através de viagens e mudanças de lares ao morar em várias localidades.

Na adolescência tive um intenso contato com obras clássicas da filosofia e literatura de forma autodidata. Escritores e pensadores foram importantes na formação de minha cosmovisão, além dos valiosos ensinamentos e valores cultivados pelos pais e avós. Desde essa época aos dias atuais o meu olhar sobre o mundo é moldado principalmente por perspectivas filosóficas, como o existencialismo e o materialismo. Já na fase adulta segui os estudos universitários me graduando nas áreas de Sociologia e Pedagogia. Hoje sou educador e pesquisador. Minha atuação abrange os campos de pesquisa, ensino e projetos sociais. Além de publicar artigos científicos na área da sociologia.

Do existencialismo ficou na mente a ideia da busca da liberdade, a responsabilidade pessoal e a busca incessante por significado na existência humana. E extraído do materialismo filosófico, a perspectiva de que a compreensão da realidade se dá na matéria e nas leis naturais, buscando explicar fenômenos e experiências humanas através de bases físicas e tangíveis. Politicamente, me situo à esquerda, com inclinações marxistas, buscando constantemente a justiça social e a crítica do sistema capitalista. Tento contribuir para a realização desses ideais através do ensino, pesquisa e engajamento em movimentos sociais.

Sou um sujeito de poucas amizades, com prazeres simples, que valoriza muito a companhia da família, um amador na arte da enologia, ávido por viagens, e, nos raros momentos de inspiração, arrisco a escrita literária. Sou, em prática, um realista com uma pitada de pessimismo, um materialista que vê o mundo através das lentes do concreto (sem misticismo). E por ser um amante da literatura, escrevo poesias e crônicas com foco nas questões sociais e filosóficas.

Na minha escrita, mergulho em temáticas para expor as injustiças geradas pela desigualdade social que permeia nosso mundo. Muitos dos meus textos são ressoantes manifestações de insatisfação, narrativas que se levantam contra os fundamentos do poder e desafiam os contornos cruéis do sistema capitalista. Além disso, busco constantemente refletir sobre a existência humana. Ao escrever, tento compreender e expressar o peculiar sentimento de "estar no mundo", abordando inquietações sobre o sentido da vida, dilemas éticos, o impacto da morte e o confronto do ser com sua realidade.