Ao Queimar Minha Língua
O músculo que não me deixa preciso,
Aquele que nem é todo racional ou imagético,
É agora um inchado órgão ao provar alimentos.
A vermelhidão em sua superfície mostra uma série
De frutas em bolor postuladas como distinto prato.
As queimaduras começaram quando transgrediram
O bom senso coletivo, tentaram me enfiar goela abaixo
Uma salada composta de ignorância, misticismo e preconceitos.
O paladar entra em um sombrio mar de água anti-razão.
E como arde, irrita a volta do neomedievalismo social.
Parece que alisam minhas papilas gustativas com
Apologias a tudo que é tosco e incita o nojo.
Num excesso de sal de autoritarismos,
Nos gostos amargos do espírito acrítico das massas,
Não me servem nenhum farol de libertação das malditas gulas.
Cada vez com a língua cheia de sinais, feridas brancas,
Não encontro novos sabores ou remédios
Que amenizem esse mundo de desgostos e torpezas.
Alívios Diante da Peste
O vírus letal é uma fenda em que desgraças
Sem fim escorregam pelos pulmões alheios.
A mãe natureza gerou um dantesco inferno
Para dizimar todo homo sapiens e o mesmo
Não incomodar mais o seu habitat, as suas leis.
Mas meu ego, meu conatus, minha trilha sem rumo
É grande como o planeta, uma galáxia de desejos
Para mergulhar nas profundezas de uma vida
Ainda não vista, um Everest de alteridades.
Perante a tragédia injeto renovado sangue nas artérias,
Deixo fluir no crânio ideias que preencham a oca rotina,
Vivo um jardim de amor com os próximos, busco virtudes
Para persistir à batalha da vida com determinação
E abraçar o indeterminado caminho com intensidade.
Posso não viver mais um bocado de anos perante o risco de qualquer vírus,
Seja a covid-19 ou a peste que assolou Oran, mas morrerei para viver...
Transcendentalmente ser além do que sou, está adiante dos mornos dias,
Acrescentar ao meu presente outro agora, uma multiplicidade de experiências.
Eu serei muito mais que uma entediante carne a ser consumida pelo húmus,
Revirando as fezes do hoje, alterando as posições de consoantes e vogais,
Buscarei alívios com fervor e afagarei a dor num canto de sabenças.
Eudaimonia Sim
E agora questiono ao mundo, aos homens que pregam fáceis soluções,
Afinal, onde está a felicidade, esta leveza do espírito? Alguns dizem que
A hora esplêndida do contentamento mora em algo exterior ao ser.
É a avalanche de elogios, a chama consumista de comprar coisas, a bela aparência,
O combate na obtenção do capital, popular imagem em redes sociais.
Mas tudo isso é vaidade, minúsculas pobrezas colhidas por
Garfos e bocas com poucas satisfações na vida.
O caminho que pulula vitalidade ao esqueleto, a monarquia de sentimentos
É encontrada pelos pés que se deslocam rumo a objetivos intrínsecos ao próprio ser.
É feliz por si só aquele que na secura de suas necessidades mentais
Refresca o crânio naquilo que realmente é, sem emular o caráter.
É contente aquele que banha no rio da simplicidade, trata bem os próximos,
Afeta e é afetado sem rodeios pelas outras pessoas.
É satisfeito os que possuem a capacidade de amar, os que estremecem
O coração frente a quentura dos relacionamentos.
É completo aquele que não baixa a cabeça diante das desigualdades sociais,
Que não fecha os olhos perante discriminações e outras vilanias mil,
Mas que movimenta mãos e pernas para estremecer o coisificante cotidiano.
Luta com robusta espada para expulsar as pequenas valorações,
Tenta tornar o mundo um lugar um pouco melhor.
Renovação Sob o Sol
Sol, despertar da vida, farol dos rebeldes contra a desumanização,
Astro que acalma mentes exaustas,
Revelando a miséria daqueles que prosperam
À custa da carência alheia...
Renova-nos neste planeta de seres vulneráveis.
Que minha devoção floresça a cada amanhecer,
No avançar firme, na busca por uma vida sob o curso das transcendências.
Agora que superei obstáculos, não mais exalando infortúnios,
As tempestades se aquietaram, as atitudes desumanizadoras ficaram para trás,
Grande círculo incandescente, ilumine meu caminho com um dia brilhante,
Desfaça os sentimentos sombrios, guie-me na renovação através de tua luz.
O Driblador
Com suas pernas tortas,
Na ponta-direita do campo,
Garrincha dança, driblador único,
Alegria sem igual da torcida botafoguense.
Dribles serpenteiam, lances imprevisíveis,
Desconcerta adversários, o fino da bola jogado.
A bola, cúmplice de seus lances, rola,
Engana oponentes.
Nos dribles, seja no meio de campo
Ou perto do gol adversário,
Seu gingado, dança de malandro,
Deixa o oponente de um lado
E o pássaro em forma humana do lado oposto.
Engana ao fingir um chute, é ágil, veloz.
A partida se torna mais bela com seu futebol arte.
O Ser e o Universo
Num canto longínquo surgem as inquietantes indagações:
Sobre quais ilusões agora vivo?
Quais coisas valorizo pelo mero tumultuar do coração?
Estático num desmoronamento existencial, observando o céu, afirmo:
Centenas de estrelas tremulando na tela negra de fundo,
O mundo, esta formação de gases comprimidos,
Localizado no mais íntimo de uma minúscula consciência (a minha).
E eu refletindo sobre os porquês de tudo ao redor.
Nascer, procriar, produzir, socializar e morrer...
Vive-se um longo tempo no cético questionamento de não
Saber por quais motivos surgiu esse comboio existencial.
Ao vértice da dúvida, na profunda questão cosmológica, a pergunta primordial:
Por que existe algo (seres, universo, vida) ao invés de nada?
Por mais que as ondas das incertezas quebrem uma a uma,
Que pareça que a vida é coisa nenhuma, grão miúdo,
É nessa praia de areias vazias que criamos um sentido,
Deixamos valores e motivos que aqueçam o frio da existência.
Por mais duros e absurdos que sejam os caminhos,
É o homem que escolhe os sentidos para suportar o peso do mundo.
Hábitos de Amor, Cuidados e Protestos
Entre os odores de carnes podres,
Entre o aniquilamento dos ossos na sociedade,
Plante flores de sentimentos sobre todo lixo.
Ame de forma sem medida,
Seja como for, sem arrependimentos.
Cuide dos próximos,
Faça refeições com eles,
Desfrute de um lar seguro com os amáveis...
É através do amor e da família
Que passamos pelos aborrecimentos
Mundo afora com serenidade.
Leia reflexivos poemas de Drummond,
Escute a sonora insatisfação de Belchior.
Coletivamente não seja um indiferente,
Um analfabeto político, um morto na história.
Junte-se aos oprimidos, humildes
E desabrigados para cerrar os punhos
Contra governos insubmissos ao povo.
Cerre o punho para não ver a mão vazia
Diante do racismo, elitismo e fascismo.
A vida é tomar partido, se posicionar contra
A desigualdade e outros malefícios.
Por isso grite, proteste,
Desmanche os planos capitalistas deste mundo.
Uma hora se acerta duros golpes
Contra a ditadura do capital.
Mesmo que hoje o planeta esteja despencando,
Tudo isso são formas de esboçar um novo mundo.
Tudo está numa constante dialética, transformação.
Ame os outros e tente mudar a putrefação das coisas
Rumo à robusta arquitetura de uma nova vida.
As Inquietações Hão de Passar
Em uma quinta-feira no trabalho,
Alunos concentrados em tarefas, contentes na execução.
Lá fora, o céu entre nuvens sussurra pensamentos diversos.
Refletindo sobre problemas vividos,
Mas também nas soluções que se desenham,
Emerge uma valiosa sentença tirada
Da canção de George Harrison:
"A escuridão só fica durante a noite,
Pela manhã desaparece,
Tudo deve passar".
Naquele instante percebi a efemeridade de tudo.
Experiências transitórias, desgostos apenas hoje,
As inquietações hão de passar.
Pois viver é habitar entre o desejo
E o que é imposto pela realidade.
Neste encontro composto de confronto, o corpo
Possui veias, neurônios, paciências e artérias
Concebidos para suportar tudo que apodrece.
E todo podre é transitório, passa e se faz
Ventre prenhe de possibilidades e aprendizados.
Prazeres Diários
Um banho depois de cansativo trabalho.
Um quarto em um dia nublado.
Um game em um sábado a tarde.
Um rock escutado e cantarolado no banho.
Uma lasanha dominical com os pais.
A leitura de poemas após estafante tarde.
Um vinho depois de exaustivo dia.
Um jogo do Botafogo para animar os ânimos.
Um beijo na boca após convívio com estranhas pessoas.
Uma cama confortável após afazeres.
Prazeres diários que enfeitam a vida,
Riquezas residentes na simplicidade,
Abundâncias degustadas, pureza de momentos.
O encanto está nos detalhes simples,
Atos que adornam nosso dia a dia.
O Encontro de Júpiter e o Astro Rainha
Quando em mim existiam feridas,
Ela me cuidou com muito esmero,
Me ofereceu remedios, acompanhou a melhoria
E deixou claro: vou te curar!
Quando tempestades não cessavam
De jorrar incômodos na caixa craniana,
Encontrei em teu peito um mar que espuma bonanças,
Lábios de águas rejuvenescedoras,
Corpo onde o fogo floresce,
Desejo a arder incessante,
Combustível que alimenta felicidades.
Afirma ser viciada em mim,
Que agrada meu bigode,
Bailarina na dança de cuidados e sexos sem fim.
Mas talvez não saiba que sou como Júpiter:
Planeta que gira apenas em torno do sol.
Minha estrela da manhã, astro rainha que incendeia a vida.
Teus raios iluminam, tornam os dias mais felizes.