dpesteves

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Nem tento

Há dias em que sucumbo
desperto morto, isolado por dentro
numa ilha entre a terra e mais terra
de alma esmagada
e não reconheço o gigante
esse sonâmbulo que me habita
enfrento os dias como castigo
uma rendição
nas mãos apoucadas
de anti-ansia
nada me existe
além da muda necessidade do amanhã
pergunto
qual deles serei detrás da cortina?
quando mais ninguém existe
quantos perdedores sou?
quantos humanos?
e porque devem ser todos
tão cegos
à janela da existência?
Nem o vento tardio
do beira-rio me refaz
deste sempiterno desistir
sem sombras nas folhas
que eram outrora regozijo
servindo de remédio
ao esquecimento
a morte deve ser
apenas um pouco mais
taciturna e infinita
que este negrume que levo dentro
até as palavras saem tristes
como de outro
pois a minha boia furou
em pleno mar violento
torno-me rígido
pálido
mantendo-me à tona
só flutuam os restos mais verdes
que devem nascer amanhã
porque hoje
este hoje tão pesado
sou um cadáver
sem história ou vontade
sou anomalia
tentando trepar à árvore do adeus
talvez lá encontre
a parte que me falta.
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Poemas

5

o suicídio de Deus

depois pagas do outro lado!
em muitos casos
pagas primeiro
e voltas a gastar
o acumulado em lágrimas
aqui não
mas quem diria que Deus também sofre ao entrar aqui?
quem diria tal blasfémia
quem diria que a cura do sofrimento é a morte
essa que nunca chega a tempo
ou vem tarde demais
ou cedo
e dá medo pensar que vem 
primeiro mata o amor
carrega-nos de dor no peito
de dor nas costas
de dor 
eu pago do outro lado
tudo em moedas de carvão
ao Serafim sorridente
esse sacristão conduzindo-nos em rebanho
ajoelhados entre o fogo-fátuo
com uma vela velando os antigos vivos
num velório de núpcias
grito ao tempo 
quem diz que o amor não morreu?
quem?





91

Meu Minho Místico

Águas cruas do Minho
com restos a aurora tardia
galgais os rochedos do vinho
de famintas dinastias do mar
com repuxo do refluxo espumante
ao reflexo do céu
espelho meu
são águas escuras de ontem
enroscando a agonia no passado
da eternidade
rasgas o canhão das meigas
dos irmãos entre hermanas
e desvaneces no estreito da ampulheta
enquanto o coração se me aperta
ao largo do chicote na desembocadura
a batela do contrabandista
escala as  ondas
com os remos de quem foi
aí te vais!
a água fez-se adulta
de nascente a oceano
nostálgica
uma serpente liquida
ovalando um universo.
102

Coluvião

Quem são eles?
carregados de erres nas palavras
de efes nas matrículas
garridos nas vestes e no cabelo
e fome
muita fome
Quem são eles?
a conduzir protótipos de outros
brilhando como as Médulas no auge
em sorrisos apáticos de lábios púrpura
e crianças chatas
muito chatas
Quem são elas?
esculturais donzelas com ar de Nise
igual a muita gente boa
plastificadas de dentro para fora
mergulhadas em azeite
muito azeite
e quem são eles?
cosmopolitas rurais loucos por bijuteria
feiras de gado e concertina
compram tudo com dinheiro caro
à custa da solidão
muita solidão
Quem são eles?
uma tribo de cruzes da ordem do futebol
por cinco escudos velada
é então a cara de Amália e Eusébio
para esta gente
muita gente

102

E Monção?

Necessárias multidões emprestadas ao desperdício
Sentam no estrado do privilégio 
da autoridade gruim
sobre liocéfalos flutuando à margem
lambuzados do plasma lismoso
da desembocadura noturna
em dias de nénia
eles fumam e bebem
excretam fumo e bebem fumo
bando de patos fosforizado
junto à fosga de urina
bebericam
e fumam
indutados à margem
como corvos tanecos
rapinas mortas
mordiscando o próprio cadáver
no cadilho da alcateia mais uma ronda
vizires do pó sangrando do nariz
vazando suor pelas rugas
e como se chama aquilo que estão a mastigar?
amizade
isso
disso não tenho
penetra o toque do telefone
será  acidente?
necessito algo para reviçar
ou mato patos
passa a serpente popelina desdentada
rumo ao cume do ocelote
nu
procura redenção lemática
exuma-se e gira ao redor do mundo
repleta de desilusão e estupor
outro tanto peso na alma
nua
as viagens fazem-se eternas
só assim desquicia o real
sem vaidade
nem debilidade
nem coroa
esvaída no tesouro
em frente ao Olimpo horrífico
de portões fechados e espalha-se o naipe.
91

duvida

Vida?
eu respondo
limitado conjunto de serões
genuflectindo cada manhã à escuridão deposta
pela regra imposta de ferida exposta
sangrando tempo
difícil de estancar
entre o garrote da saudade
chicoteando as gerações
numa cadência abrupta
ininterrupta
fervilhando significados
e definições como na ausência
rebentando nas mãos
a cumplicidade  do desejo efebofilico
entre o nada espiritual
e o fim.
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