Eduardo Becher_2

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Soneto em brasa

Se for apenas seus dedos sinceros
tamborilando na mesa e em minha alma,
assino o armistício, advogo pela calma.
Acontece é que os olhos são severos.

Para mim, sua boca guarda esmeros
que só o desejo irrestrito espalma,
capaz de fazer-me suar a palma
e sussurrar-te o nome em exageros.

E ao olhar-me, busca flechas na algibeira,
varando-me com tua face doce,
ainda que Ártemis, forte e estonteante.

Assim, fazes meu peito de fogueira
e não há, em mim, fumaça que não esboce
a vontade de possuir-te a todo instante.
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Poemas

15

Momento derradeiro

Com qual crueldade expiramos,
puxando o ar inalcançável,
segurando o intangível
e adentrando o impensável.

Gritamos ao corpo rígido,
mas ele nada responde,
tampouco esconde o medo
que o pensar corresponde.

Ó, fagulha sacra do oblívio,
arranca-me a anestesia,
deixai-me sentir o existir
e negociamos a anistia.

Não me lance à escuridão,
nas estrelas da eternidade,
no entredevorar-se do nada
sob o signo da saudade.

Minha mente embrumada
tateia a chave da memória,
não há lembrança que escape
do decompor-se da história. 

Não há mais nada, nem eu.
O estrebuchar orgânico
da engrenagem solta
em uma máquina sem mecânico.

Acabou-se a luz e o expediente,
fim do ciclo de produção,
transformou-se em mero reagente
de outra simples combustão.
222

Quantitavivo

Dura vida.
A vida dura.
A vi durar.
45

Lancinante

Olhe nossa vida fatiada, meu amor. 
A cadência desses traumas
dilaceraram nosso sorriso sincero?
As fendas em nossas almas
verteram o sonho da alegria inocente?
São os olhos que deflagram 
o quanto desconfiamos de tudo e todos,
crianças ininterruptas
encarando a ausência dos pais na cama fria,
quando surgem pesadelos.

Olhe com que força me abraças, minha vida.
Como se eu fosse essa ponte
sobre o lago da sua própria ansiedade.
Acontece que me afogo
e ninguém me escuta convulsionar.
Sei bem que tu escutarias
se não fosses como eu, uma colcha retalhada
pelo tempo e pelo mundo.
E agora, meu amor, o que haverá de nós?
Pássaros sem canto algum.

Olhe para os meus olhos, doce andorinha.
A fratura em nossas asas
não apaga o traço dessa estranha verdade:
permaneces tão sozinha
quanto eu permaneço inseguro e covarde.





199

Sentimentos de um bobo

No mais, me sinto sozinho.
Sinto a falta de um abraço
não dado, por desalinho.
Sei que perfaço o palhaço.

Sei que esta feição não ajuda
e que o reclame enfastia,
mas tu estavas sempre muda,
fingindo que eu não existia.

Se fingir é natural,
comprazo-me à natureza.
Deixo a vida como tal
e parto, junto à tristeza.
214

Soneto em brasa

Se for apenas seus dedos sinceros
tamborilando na mesa e em minha alma,
assino o armistício, advogo pela calma.
Acontece é que os olhos são severos.

Para mim, sua boca guarda esmeros
que só o desejo irrestrito espalma,
capaz de fazer-me suar a palma
e sussurrar-te o nome em exageros.

E ao olhar-me, busca flechas na algibeira,
varando-me com tua face doce,
ainda que Ártemis, forte e estonteante.

Assim, fazes meu peito de fogueira
e não há, em mim, fumaça que não esboce
a vontade de possuir-te a todo instante.
270

Natal de 23

Fogos. Fogos de Natal.
Lá fora nascem deuses,
aqui dentro nasce angústia.

Cresce, junto ao entalhe,
no mármore da volúpia,
nomes para além do léxico.

Alimentam-se, alegres,
todas as revoltas criadas
pelo espasmo do efêmero.

Evanesce, sem quinhão,
a razão que rumina
na relva do vexatório.

E ainda há fogos de Natal.
O tintilar etílico avulta
folhas suspensas na vida.

Comparecer é rejeitar
o arrancar das folhas
no ramo da madureza.

Suspirar e pressentir
o romper da atmosfera
pela força do receio.

Gargalhar como aquele
que pensa ser amado
pelo amor na rotatória.

Santo Natal. Fogos. Pólvora.
Parestesia nervosa
sob a ansiosa epiderme.

Sonhos encanecidos,
roupas enfarruscadas
de vermelho balsâmico.

Quando é que seu abraço
tornou-se dissimulado
a ponto de fervilhar?

Libertai-me de tudo.
Venda meus olhos oblíquos
para ocultar-me o preço.

Barrigas enormes. Soluços.
Assina-me a dispensa
de Natal. Saudoso Natal.

Meu coração-presépio
pulsa o nascer da aurora
em horizontes incólumes.



68

Transmutação

Minha cabeça dói.
A vontade
transformou-se
em hemorragia.

Não há remédio.
A alegria
transformou-se
em letargia.
46

Sambo do dramático

Quando me olham
e me percebem
eu acendo as velas,
afasto a escuridão.

Caminho, leve,
Pois existo além
da minha própria
contravenção

em resistir,
em respirar,
em desejar
que alguém

descubra em minha imagem
uma vantagem qualquer,
um motivo simplório,
para manter-me ao lado,
vir ao meu velório.

E a insegurança
repousa aqui:
na alma de um
desajustado.

Não vou chorar,
pode ir,
já estou muito bem
acostumado.
63

Persona

58

Hic et nunc

Meu coração tem percebido
a intrepidez deste covarde
que o empurra para o abismo
da própria negligência.

Minhas veias calibradas
pela pulsão da morte líquida:
hidráulico abandono de tudo
por uma esperança quase sólida.

Desmancha-se, sólida esperança.
Do pó que é feito sua materialidade
surgirão novas evidências
que justifiquem o ataque cardíaco.

Meus olhos quase fechados.
Tantas coisas que nunca olhei,
cego pela irrascibilidade comum
de quem se enlevou por um amor
inexistente.

Parei meu coração, voluntariamente.
A estupidez fulminou-me os sentidos.
Todos se voltaram para o hic et nunc
e ignoraram o corpo estirado no tempo.
78

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