As mãos do maestro seguram a semana em cadências polifônicas, guardando os metais para outros carnavais e o conjunto de cordas para outras insônias.
Primeiro, invoca os fagotes soprando o ar pesado, de rancor e de enfado, que surge entre as nuvens, cinzas e dispépticas no prelúdio operário.
Depois, dissipa a tensão com o suspiro espaçado de um piano adulado pelas mãos delgadas daquela esperança vazia, que vai sendo preenchida e se juntando aos ruídos no mesmo diapasão.
Depois, desponta a violência no encontro eufórico dos tambores do futuro com aquele contrabaixo que por vezes é dedilhado pela alegria, emotivo, e por vezes é rasgado pelo arco, sem motivo.
Depois, as cordas vibram atentas ao movimento enfático do tempo regente, vertendo sons deprimentes em uma ópera, um réquiem de quem se espera a morte com satisfação oculta.
Por fim, o ar se condensa e o silêncio se instaura no momento apoteótico em que as mãos agarram a partícula de sentido em um oceano de moléculas entrelaçadas na camada chamada "vida adulta".
64
Secura lacrimal
Os sonhos perfuram uma realidade transposta, um engordar-se cúmplice das lágrimas secas no sertão do fim previsto.
O que eu posso fazer, além de sonhar e comer, na falta de um encanto que embale aquele canto espaçado e lânguido que julguei ser do colibri, mas que era meu. Saía de mim.
Agora, o pesar evade por todos os poros, por todas as oportunidades que nunca existiram, mas que passaram a existir no momento em que a angústia ajustou nosso ponteiro.
Mais um verso desconexo. Mais uma vida cronometrada. Mais um chão a ser pisado. Mais um sonho assassinado antes mesmo de eclodir no desespero do despertar.
Para que levantar, se a gravidade ainda insiste em pressionar a cefaleia, prostrar as minhas ideais e enrugar a ousadia sem baixar-me uma gota de lágrima?
30
Caminhada
Vou cruzando aquela esquina por onde o vento pondera flores níveas, amarelas, ônix, cobalto e granada.
Qual pétala iridescente brilha assim, auspiciosa, quando a náusea se instaura?
Sigo encarando a campina, onde a geada prospera em brumas baixas e mazelas apoiadas na alvorada.
Qual cristal, impiamente, faz do gelo uma vistosa imagem do que a dor restaura?
Vou seguindo pela dúvida, ciente de que a resposta talvez esteja em outra rota.
77
Fora das sombra
Não há perfeição ou medo de errar, é tão natural quanto o palpitar, áustero e amargo, do discriminar entre velhos medos e novas coragens.
Abrace ou rejeite, virá e virá, sem tempo que vire, sem ter sabiá que encante o minuto e o faça parar sob as asas fracas de uma clemência.
Na batida franca da inexatidão, procuro escapar e ver suas mãos orquestrando as minhas, como meros vultos no vasto salão de pó imantado; polos desiguais de imperfeição.
27
Carnaval pela janela
O calor embevece a fileira de ébrios transbordando no sol,
brasileiros legítimos puxando a alegria sem variar no anzol.
Dedicados ao corpo, ao trigo deglutido sob lábios alcoólicos,
Como iconoclastas destruindo o exercício do cogitar simbólico.
Tornar-se desejado tornou-se objetivo da multidão letárgica.
Deixar-se abandonado, sem pensar no sentido, é mister do indivíduo
que negociou sua alma pela autêntica sensação de se estar completado,
sem medo do carrasco mergulhando a razão na certeza da morte.
Um medo tão quente. Quente a ponto de pular do canto do peito
e, enfim, repousar onde o calor embevece a fileira de ébrios
que caminham, sujeitos ao mesmo sol.
26
Um dia comum
Minhas preocupações ingênuas avultam-se em aves pequenas, revoam os velhos dilemas e partem para a liberdade sem saber onde encontrá-la.
Sobrevoam toda a cidade em uma nuvem bela e cética, em uma proposta asséptica de eliminar qualquer vaidade e extinguir a espécie humana.
Mas cada pássaro do bando desmancha-se ao vento indolente, traz nas penas o desencanto de quem reprime a obliquidade por verdades já poentes.
Como é triste a ingenuidade, o irromper de linhas francas em pontos ainda comedidos, preocupar-se com o possível quando o real nos desaponta.
Mesmo assim, as aves restantes percorrem o céu lavrado e encontram, estupefatas, o alvorecer da liberdade em um dia comum, cinzento.
92
Nascer da semana
A barriga aumenta na mesma proporção que as barreiras, teimosas e nevoentas, ainda que intransponíveis.
Um eterno ensaio de mentiras espinhentas, de alopecia androgênica, vertigem, desmaio e insumo para crises.
Lábios cerrados sob a serra volumosa de imagens várias, rancor populado pela falta de amor próprio.
Com certa perícia o ânimo logo entalha uma ruga de desgosto, mas não a vitalícia que é insígnia do tempo.
Aos poucos, torna-se uma a ideia hipocondríaca de faltar, aqui dentro, aquela pluma com a qual se assina