Eduardo Becher_2

Eduardo Becher_2

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Soneto em brasa

Se for apenas seus dedos sinceros
tamborilando na mesa e em minha alma,
assino o armistício, advogo pela calma.
Acontece é que os olhos são severos.

Para mim, sua boca guarda esmeros
que só o desejo irrestrito espalma,
capaz de fazer-me suar a palma
e sussurrar-te o nome em exageros.

E ao olhar-me, busca flechas na algibeira,
varando-me com tua face doce,
ainda que Ártemis, forte e estonteante.

Assim, fazes meu peito de fogueira
e não há, em mim, fumaça que não esboce
a vontade de possuir-te a todo instante.
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Poemas

7

Vida adulta

As mãos do maestro
seguram a semana
em cadências polifônicas,
guardando os metais
para outros carnavais
e o conjunto de cordas
para outras insônias.

Primeiro, invoca os fagotes
soprando o ar pesado,
de rancor e de enfado,
que surge entre as nuvens,
cinzas e dispépticas
no prelúdio operário.

Depois, dissipa a tensão
com o suspiro espaçado
de um piano adulado
pelas mãos delgadas
daquela esperança vazia,
que vai sendo preenchida
e se juntando aos ruídos
no mesmo diapasão.

Depois, desponta a violência
no encontro eufórico
dos tambores do futuro
com aquele contrabaixo
que por vezes é dedilhado
pela alegria, emotivo,
e por vezes é rasgado
pelo arco, sem motivo.

Depois, as cordas vibram
atentas ao movimento
enfático do tempo regente,
vertendo sons deprimentes
em uma ópera, um réquiem
de quem se espera a morte
com satisfação oculta.

Por fim, o ar se condensa
e o silêncio se instaura
no momento apoteótico
em que as mãos agarram
a partícula de sentido
em um oceano de moléculas
entrelaçadas na camada
chamada "vida adulta".
64

Secura lacrimal

Os sonhos perfuram
uma realidade transposta,
um engordar-se cúmplice
das lágrimas secas
no sertão do fim previsto.

O que eu posso fazer,
além de sonhar e comer,
na falta de um encanto
que embale aquele canto
espaçado e lânguido
que julguei ser do colibri,
mas que era meu. Saía de mim.

Agora, o pesar evade
por todos os poros,
por todas as oportunidades
que nunca existiram,
mas que passaram a existir
no momento em que a angústia
ajustou nosso ponteiro.

Mais um verso desconexo.
Mais uma vida cronometrada.
Mais um chão a ser pisado.
Mais um sonho assassinado
antes mesmo de eclodir
no desespero do despertar.

Para que levantar,
se a gravidade ainda insiste
em pressionar a cefaleia,
prostrar as minhas ideais
e enrugar a ousadia
sem baixar-me uma gota
de lágrima?
30

Caminhada

Vou cruzando aquela esquina
por onde o vento pondera
flores níveas, amarelas,
ônix, cobalto e granada.

Qual pétala iridescente
brilha assim, auspiciosa,
quando a náusea se instaura?

Sigo encarando a campina,
onde a geada prospera
em brumas baixas e mazelas
apoiadas na alvorada.

Qual cristal, impiamente,
faz do gelo uma vistosa
imagem do que a dor restaura?

Vou seguindo pela dúvida,
ciente de que a resposta
talvez esteja em outra rota.
77

Fora das sombra

Não há perfeição
ou medo de errar,
é tão natural
quanto o palpitar,
áustero e amargo,
do discriminar
entre velhos medos
e novas coragens.

Abrace ou rejeite,
virá e virá,
sem tempo que vire,
sem ter sabiá
que encante o minuto
e o faça parar
sob as asas fracas
de uma clemência.

Na batida franca
da inexatidão,
procuro escapar
e ver suas mãos
orquestrando as minhas,
como meros vultos
no vasto salão
de pó imantado;
polos desiguais
de imperfeição.
27

Carnaval pela janela

O calor embevece
a fileira de ébrios
transbordando no sol,

brasileiros legítimos
puxando a alegria
sem variar no anzol.

Dedicados ao corpo,
ao trigo deglutido
sob lábios alcoólicos,

Como iconoclastas
destruindo o exercício
do cogitar simbólico.

Tornar-se desejado
tornou-se objetivo
da multidão letárgica.

Deixar-se abandonado,
sem pensar no sentido,
é mister do indivíduo

que negociou sua alma
pela autêntica sensação
de se estar completado,

sem medo do carrasco
mergulhando a razão
na certeza da morte.

Um medo tão quente.
Quente a ponto de pular
do canto do peito

e, enfim, repousar
onde o calor embevece
a fileira de ébrios

que caminham, sujeitos
ao mesmo sol.
26

Um dia comum

Minhas preocupações ingênuas
avultam-se em aves pequenas,
revoam os velhos dilemas
e partem para a liberdade
sem saber onde encontrá-la.

Sobrevoam toda a cidade
em uma nuvem bela e cética,
em uma proposta asséptica
de eliminar qualquer vaidade
e extinguir a espécie humana.

Mas cada pássaro do bando
desmancha-se ao vento indolente,
traz nas penas o desencanto
de quem reprime a obliquidade
por verdades já poentes.

Como é triste a ingenuidade,
o irromper de linhas francas
em pontos ainda comedidos,
preocupar-se com o possível
quando o real nos desaponta.

Mesmo assim, as aves restantes
percorrem o céu lavrado
e encontram, estupefatas,
o alvorecer da liberdade
em um dia comum, cinzento.
92

Nascer da semana

A barriga aumenta
na mesma proporção
que as barreiras,
teimosas e nevoentas,
ainda que intransponíveis.

Um eterno ensaio
de mentiras espinhentas,
de alopecia androgênica,
vertigem, desmaio
e insumo para crises.

Lábios cerrados
sob a serra volumosa
de imagens várias,
rancor populado
pela falta de amor próprio.

Com certa perícia
o ânimo logo entalha
uma ruga de desgosto,
mas não a vitalícia
que é insígnia do tempo.

Aos poucos, torna-se uma
a ideia hipocondríaca
de faltar, aqui dentro,
aquela pluma
com a qual se assina

o próprio contentamento.
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