Com qual crueldade expiramos, puxando o ar inalcançável, segurando o intangível e adentrando o impensável.
Gritamos ao corpo rígido, mas ele nada responde, tampouco esconde o medo que o pensar corresponde.
Ó, fagulha sacra do oblívio, arranca-me a anestesia, deixai-me sentir o existir e negociamos a anistia.
Não me lance à escuridão, nas estrelas da eternidade, no entredevorar-se do nada sob o signo da saudade.
Minha mente embrumada tateia a chave da memória, não há lembrança que escape do decompor-se da história.
Não há mais nada, nem eu. O estrebuchar orgânico da engrenagem solta em uma máquina sem mecânico.
Acabou-se a luz e o expediente, fim do ciclo de produção, transformou-se em mero reagente de outra simples combustão.
221
Quantitavivo
Dura vida. A vida dura. A vi durar.
45
Lancinante
Olhe nossa vida fatiada, meu amor. A cadência desses traumas dilaceraram nosso sorriso sincero? As fendas em nossas almas verteram o sonho da alegria inocente? São os olhos que deflagram o quanto desconfiamos de tudo e todos, crianças ininterruptas encarando a ausência dos pais na cama fria, quando surgem pesadelos.
Olhe com que força me abraças, minha vida. Como se eu fosse essa ponte sobre o lago da sua própria ansiedade. Acontece que me afogo e ninguém me escuta convulsionar. Sei bem que tu escutarias se não fosses como eu, uma colcha retalhada pelo tempo e pelo mundo. E agora, meu amor, o que haverá de nós? Pássaros sem canto algum.
Olhe para os meus olhos, doce andorinha. A fratura em nossas asas não apaga o traço dessa estranha verdade: permaneces tão sozinha quanto eu permaneço inseguro e covarde.
199
Sentimentos de um bobo
No mais, me sinto sozinho. Sinto a falta de um abraço não dado, por desalinho. Sei que perfaço o palhaço.
Sei que esta feição não ajuda e que o reclame enfastia, mas tu estavas sempre muda, fingindo que eu não existia.
Se fingir é natural, comprazo-me à natureza. Deixo a vida como tal e parto, junto à tristeza.
214
Soneto em brasa
Se for apenas seus dedos sinceros tamborilando na mesa e em minha alma, assino o armistício, advogo pela calma. Acontece é que os olhos são severos.
Para mim, sua boca guarda esmeros que só o desejo irrestrito espalma, capaz de fazer-me suar a palma e sussurrar-te o nome em exageros.
E ao olhar-me, busca flechas na algibeira, varando-me com tua face doce, ainda que Ártemis, forte e estonteante.
Assim, fazes meu peito de fogueira e não há, em mim, fumaça que não esboce a vontade de possuir-te a todo instante.
270
Natal de 23
Fogos. Fogos de Natal. Lá fora nascem deuses, aqui dentro nasce angústia.
Cresce, junto ao entalhe, no mármore da volúpia, nomes para além do léxico.
Alimentam-se, alegres, todas as revoltas criadas pelo espasmo do efêmero.
Evanesce, sem quinhão, a razão que rumina na relva do vexatório.
E ainda há fogos de Natal. O tintilar etílico avulta folhas suspensas na vida.
Comparecer é rejeitar o arrancar das folhas no ramo da madureza.
Suspirar e pressentir o romper da atmosfera pela força do receio.
Gargalhar como aquele que pensa ser amado pelo amor na rotatória.
Santo Natal. Fogos. Pólvora. Parestesia nervosa sob a ansiosa epiderme.
Sonhos encanecidos, roupas enfarruscadas de vermelho balsâmico.
Quando é que seu abraço tornou-se dissimulado a ponto de fervilhar?
Libertai-me de tudo. Venda meus olhos oblíquos para ocultar-me o preço.
Barrigas enormes. Soluços. Assina-me a dispensa de Natal. Saudoso Natal.
Meu coração-presépio pulsa o nascer da aurora em horizontes incólumes.
68
Transmutação
Minha cabeça dói. A vontade transformou-se em hemorragia.
Não há remédio. A alegria transformou-se em letargia.
46
Sambo do dramático
Quando me olham e me percebem eu acendo as velas, afasto a escuridão.
Caminho, leve, Pois existo além da minha própria contravenção
em resistir, em respirar, em desejar que alguém
descubra em minha imagem uma vantagem qualquer, um motivo simplório, para manter-me ao lado, vir ao meu velório.
E a insegurança repousa aqui: na alma de um desajustado.
Não vou chorar, pode ir, já estou muito bem acostumado.
63
Persona
58
Hic et nunc
Meu coração tem percebido a intrepidez deste covarde que o empurra para o abismo da própria negligência.
Minhas veias calibradas pela pulsão da morte líquida: hidráulico abandono de tudo por uma esperança quase sólida.
Desmancha-se, sólida esperança. Do pó que é feito sua materialidade surgirão novas evidências que justifiquem o ataque cardíaco.
Meus olhos quase fechados. Tantas coisas que nunca olhei, cego pela irrascibilidade comum de quem se enlevou por um amor inexistente.
Parei meu coração, voluntariamente. A estupidez fulminou-me os sentidos. Todos se voltaram para o hic et nunc e ignoraram o corpo estirado no tempo.