Eduardo Becher_2

Eduardo Becher_2

https://www.escritas.org/pt/n/eduardo-becher

n. 0000-00-00

Perfil
6 651 Visualizações

Soneto em brasa

Se for apenas seus dedos sinceros
tamborilando na mesa e em minha alma,
assino o armistício, advogo pela calma.
Acontece é que os olhos são severos.

Para mim, sua boca guarda esmeros
que só o desejo irrestrito espalma,
capaz de fazer-me suar a palma
e sussurrar-te o nome em exageros.

E ao olhar-me, busca flechas na algibeira,
varando-me com tua face doce,
ainda que Ártemis, forte e estonteante.

Assim, fazes meu peito de fogueira
e não há, em mim, fumaça que não esboce
a vontade de possuir-te a todo instante.
Ler poema completo

Poemas

28

Argotanásia

Mato-me sem coragem alguma.
Lentamente. Gota a gota.

Os outros percebem, mas na vida
não há tempo para morte.

Meu rosto, ceifado pela próprio surto,
encara meu corpo disforme.

Choraria, se houvesse água no canal
já seco pelo sol da aceitação.
86

A causa material de um poeta

Do que é feito um poeta
senão de silêncio irresoluto. 

Tenho me calado tanto
que chego a falar deveras. 

Em meio às conversas banais
consagrago minha quietude.

Sim, a boca emite sons,
mas nada traduz o que me cala.

Tenho admirado-a em silêncio,
fria e constritora qual poesia.

Olho a todos com paixão
inerte, alienada e alienígena.
91

Promessa Floral

Quase esqueço-me 
de arrancar as pétalas
da última flor do lácio.

A noite é curta, e o dia
Longo o bastante para
Olvidar o jardim d'alma.

Se um dia eu esquecer
Da gota do teu orvalho,
Corto-me em teu espinho.
109

White Sunday

Se toda essa roupa branca
bastasse para clarear
as veredas da minha alucinação...

Acontece que a esperança
é uma luz pouco difusa
nos corredores da minha retina.
119

Esquisito

Os seguranças, em frente à porta, disseram:
- que rapaz esquisito, não? -
Ao me verem sair pela rua.

Olhavam-me sem desdém,
tampouco admiração,
como um mero detalhe torto.

Um ladrilho solto, um reflexo.
O aplauso que nunca ocorreu
pelas vias da intimidade.

Fui embora. O assunto sumiu.
Minhas pernas sumiram.
Meu braço sumiu. Olhei-me.

Meu rosto sumiu.
A memória esvaneceu.
O clima melhorou. Um pouco.
123

Terços e terças

Perder-me.
Olhar para trás
como quem jura
ter visto alguém.

Olhar para frente
como quem mente
e sorri, concorda.

Privar-se.
Enganar o sono
e viver o real
na sombra de tudo.

Ver quem manipula
atuando na cena,
sob a sombra do nada.

Incompreensível?
Morra e vá cuspir
sua praticidade
na manhã do oblívio.
134

06/11/2023

Por vezes me sinto
como o assum preto
de Gonzaga e Teixeira. 

Voando no labirinto
onde ecoa o dueto
de flor e cegueira.

Orvalho e jasmim
percorrem os dias
na razão da primavera.

Acabou-se o festim
das aves e das vias
que a dor pondera.


151

07/11/2023

Você.
Você que afina meus sentimentos
como as cordas de um violino
estendidas sobre o meu coração.
Dorme. Guardo-te sonhos benquistos.
Réplicas. Não há nada que se equipare.
Minha. Tenho rogado aos panteões.
Fácil. Desbrava-me em suas sinfonias.
Sol. Tornar-me-ia regicida para coroar sua lua.
Lado. Dai-me guerra para que eu me alie ao seu.
Sinta. O meu amor desafinando ao vento...
Quando eu chegar até você.
Você.
156

05/10/2023

Não sou um terço do que achavam que eu seria.
Ainda assim, insistem em colocar-me a máscara
para que outro, ligeiramente mais são,
possa retirá-la e apontar para minha face vermelha.
A face de um homem que calcula tudo,
mas erra em uma simples divisão entre dois números.
Um matemático que exibe sua técnica
sabendo que não há fundamento para seu teorema.
E, no fundo, todos podem ultrapassá-lo.
Basta uma dose de esforço e levar a vida a sério.
Essa é sua grande virtude, levar a sério
o que os outros enxergam como uma brincadeira.
Quando você cair, alma minha, não se espante
com o riso turbilhonante de todos aqueles
que um dia se julgaram inferiores a você.
Desminta-os. Enalteça-os. Parta daqui
e nunca mais profira alguma palavra que não seja:
Eu Estou Errado.
183

04/11/2023

Tudo é para todos, menos para nós.
Não, os votos não são seus,
Mas egrégoras do vácuo social.

Tampouco se apaziguará o amor
Na hipótese desses mesmos votos
Não abandonarem o plano ideal.

Por que te alegras com tão pouco?
Basta um aceno das convenções
Para desabrochares teu orgulho?

Já o meu, surge de maneira autônoma.
Sem luz que impulsione o agir
Sobre as matérias mais diversas.

E nós, meu amor, estamos, então, ligados.
Verdadeiramente consubstanciados
pelas desgraças do pecado terreno.

Compartilhamos a mesma velha cicuta.
Choramos as mesmas obviedades.
Cantamos o mesmo hino de lamentos.

Unidos não por um papel, mas pelo papel
Desempenhado nas tramas irrequietas
Do presente. Sim! O presente e suas navalhas.

E para cada lâmina há um clamor pernicioso.
Uma vontade que não se contenta
Em contaminar apenas um receptáculo.

E se tomas essa vontade por sua, não deles,
Receio que eu também me contamine
Para tornar-me seu parasita preterido.

Em uma ou outra tempestade, no entanto,
O relâmpago da memória nos cegará
Para que o trovão do sentir nos atinja.

Eu sorrirei, como quem ganha uma aposta.
Você franzirá o cenho. Irredutível.
Nos juntaremos à miséria da nossa condição.
189

Comentários (0)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.