Eduardo Becher_2

Eduardo Becher_2

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Soneto em brasa

Se for apenas seus dedos sinceros
tamborilando na mesa e em minha alma,
assino o armistício, advogo pela calma.
Acontece é que os olhos são severos.

Para mim, sua boca guarda esmeros
que só o desejo irrestrito espalma,
capaz de fazer-me suar a palma
e sussurrar-te o nome em exageros.

E ao olhar-me, busca flechas na algibeira,
varando-me com tua face doce,
ainda que Ártemis, forte e estonteante.

Assim, fazes meu peito de fogueira
e não há, em mim, fumaça que não esboce
a vontade de possuir-te a todo instante.
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Poemas

31

Desejo racional

Beijar-te
até que o inefável
torne-se tão lógico
quanto um sonho
decifrado nas linhas
de um plano cartesiano:
limites no infinito.
61

Trasnsmutação

Seu suspiro leve
flutua ao ouvido
e repousa em mim,
trocando por chumbo
as plumas irrequietas
de mais um engano.
28

De passagem

Por praças vazias
ela percorria
duas luzes opostas.

Movia as pupilas
como duas ilhas
carregadas na noite. 

Olhava o relógio
e abria o estojo
com dedos tão finos,

esguios a ponto
de viver encontros
com átomos, partículas. 

Tocava o pescoço
enquanto trocava
de rua, andando.

Entrando na sombra,
luzindo distante
e sumindo de tudo.

As praças lotaram
e as noites ficaram
um pouco mais longas.
65

Vida adulta

As mãos do maestro
seguram a semana
em cadências polifônicas,
guardando os metais
para outros carnavais
e o conjunto de cordas
para outras insônias.

Primeiro, invoca os fagotes
soprando o ar pesado,
de rancor e de enfado,
que surge entre as nuvens,
cinzas e dispépticas
no prelúdio operário.

Depois, dissipa a tensão
com o suspiro espaçado
de um piano adulado
pelas mãos delgadas
daquela esperança vazia,
que vai sendo preenchida
e se juntando aos ruídos
no mesmo diapasão.

Depois, desponta a violência
no encontro eufórico
dos tambores do futuro
com aquele contrabaixo
que por vezes é dedilhado
pela alegria, emotivo,
e por vezes é rasgado
pelo arco, sem motivo.

Depois, as cordas vibram
atentas ao movimento
enfático do tempo regente,
vertendo sons deprimentes
em uma ópera, um réquiem
de quem se espera a morte
com satisfação oculta.

Por fim, o ar se condensa
e o silêncio se instaura
no momento apoteótico
em que as mãos agarram
a partícula de sentido
em um oceano de moléculas
entrelaçadas na camada
chamada "vida adulta".
64

Secura lacrimal

Os sonhos perfuram
uma realidade transposta,
um engordar-se cúmplice
das lágrimas secas
no sertão do fim previsto.

O que eu posso fazer,
além de sonhar e comer,
na falta de um encanto
que embale aquele canto
espaçado e lânguido
que julguei ser do colibri,
mas que era meu. Saía de mim.

Agora, o pesar evade
por todos os poros,
por todas as oportunidades
que nunca existiram,
mas que passaram a existir
no momento em que a angústia
ajustou nosso ponteiro.

Mais um verso desconexo.
Mais uma vida cronometrada.
Mais um chão a ser pisado.
Mais um sonho assassinado
antes mesmo de eclodir
no desespero do despertar.

Para que levantar,
se a gravidade ainda insiste
em pressionar a cefaleia,
prostrar as minhas ideais
e enrugar a ousadia
sem baixar-me uma gota
de lágrima?
30

Caminhada

Vou cruzando aquela esquina
por onde o vento pondera
flores níveas, amarelas,
ônix, cobalto e granada.

Qual pétala iridescente
brilha assim, auspiciosa,
quando a náusea se instaura?

Sigo encarando a campina,
onde a geada prospera
em brumas baixas e mazelas
apoiadas na alvorada.

Qual cristal, impiamente,
faz do gelo uma vistosa
imagem do que a dor restaura?

Vou seguindo pela dúvida,
ciente de que a resposta
talvez esteja em outra rota.
77

Fora das sombra

Não há perfeição
ou medo de errar,
é tão natural
quanto o palpitar,
áustero e amargo,
do discriminar
entre velhos medos
e novas coragens.

Abrace ou rejeite,
virá e virá,
sem tempo que vire,
sem ter sabiá
que encante o minuto
e o faça parar
sob as asas fracas
de uma clemência.

Na batida franca
da inexatidão,
procuro escapar
e ver suas mãos
orquestrando as minhas,
como meros vultos
no vasto salão
de pó imantado;
polos desiguais
de imperfeição.
27

Carnaval pela janela

O calor embevece
a fileira de ébrios
transbordando no sol,

brasileiros legítimos
puxando a alegria
sem variar no anzol.

Dedicados ao corpo,
ao trigo deglutido
sob lábios alcoólicos,

Como iconoclastas
destruindo o exercício
do cogitar simbólico.

Tornar-se desejado
tornou-se objetivo
da multidão letárgica.

Deixar-se abandonado,
sem pensar no sentido,
é mister do indivíduo

que negociou sua alma
pela autêntica sensação
de se estar completado,

sem medo do carrasco
mergulhando a razão
na certeza da morte.

Um medo tão quente.
Quente a ponto de pular
do canto do peito

e, enfim, repousar
onde o calor embevece
a fileira de ébrios

que caminham, sujeitos
ao mesmo sol.
26

Um dia comum

Minhas preocupações ingênuas
avultam-se em aves pequenas,
revoam os velhos dilemas
e partem para a liberdade
sem saber onde encontrá-la.

Sobrevoam toda a cidade
em uma nuvem bela e cética,
em uma proposta asséptica
de eliminar qualquer vaidade
e extinguir a espécie humana.

Mas cada pássaro do bando
desmancha-se ao vento indolente,
traz nas penas o desencanto
de quem reprime a obliquidade
por verdades já poentes.

Como é triste a ingenuidade,
o irromper de linhas francas
em pontos ainda comedidos,
preocupar-se com o possível
quando o real nos desaponta.

Mesmo assim, as aves restantes
percorrem o céu lavrado
e encontram, estupefatas,
o alvorecer da liberdade
em um dia comum, cinzento.
92

Nascer da semana

A barriga aumenta
na mesma proporção
que as barreiras,
teimosas e nevoentas,
ainda que intransponíveis.

Um eterno ensaio
de mentiras espinhentas,
de alopecia androgênica,
vertigem, desmaio
e insumo para crises.

Lábios cerrados
sob a serra volumosa
de imagens várias,
rancor populado
pela falta de amor próprio.

Com certa perícia
o ânimo logo entalha
uma ruga de desgosto,
mas não a vitalícia
que é insígnia do tempo.

Aos poucos, torna-se uma
a ideia hipocondríaca
de faltar, aqui dentro,
aquela pluma
com a qual se assina

o próprio contentamento.
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