No branco do azulejo desfiro um soco para ver no punho oco qual osso desloca com maior facilidade.
Na fenda do mesmo osso encontro quimeras feitas de sangue e coágulo. Sou eu, corpo frágil, invólucro do abstrato.
149
Selvagens
Pólvora em cada gotícula, em cada fala explosiva onde a mente perfurada sangra emoção desejosa.
E os seus lábios contraídos tangem o contrariado, enrijecem poesia e beijam o às da prosa.
Sua mão estendida ao léu, estátua da revolta, agarra a fera incontida como a chispa que se empolga
e ruge, tão absoluta quanto o ágil palpitar de um coração corrompido pelo aceno da lascívia.
Quero-te assim, volumétrica em qualquer desvelamento daquilo que somos: bichos em um cárcere de asfalto.
149
Decisão pulmonar
Coragem. Inspiro coragem
Para deixar Você ir.
Depois, Expiro
Como um Covarde.
36
Um dia e um sol
Manhã, apanho o sol invicto até que a luz escorra fraca pelas planícies do fracasso, onde não existe quem desfaça
essa ilusão de cristal sujo, essa marca de sol algum, a festa de pássaro branco onde porto o assum preto.
E por andar no fim do fio, despenco em alucinações, tão frágeis quanto o sol anil que colore minha visão.
Antes de findar a inércia, a tarde acossa os resultados, vai buscando extrair da pedra uma certeza que não seja
fruto de um dia calcinado, expressão aguda do calcário jogado no solo-crepúsculo onde irrompe a flor minguante
da noite. O breu celestial esconde outra futilidade sob o lado escuro da lua: seja concreto, nada mais.
De nada vale a poesia, retrato no último quarto que figura no amplo salão da cabeça volúvel humana,
olha bem o que fazes agora... quebra de ritmo, verso abaulado e fugas da realidade que não se importa se vives
ou se apodreces em teu quarto -poesia. Uma lua cheia esperando que a luz cansada ceife o rufião das palavras.
Tendes coragem para ver que tudo se encerra na pálpebra, na certeza incerta de um dia e um sol a ser apanhado.
183
Biarticulado
O ônibus vai e eles ficam. Por onde anda quem não vi mais passar aqui?
Por onde anda a noite cálida, sombra da vida?
Por onde anda o verso triste, imagens de mim?
O ônibus vai e leva junto toda a cidade. Curitiba foi diluída no vestido preto de uma passageira.
O que há além de ônibus correndo na veia da alegria anêmica? Sinceramente, não sei.
Ouço tudo lá fora. Aqui dentro é um silêncio. O coração bate no compasso do ônibus que vai, mas nós ficamos.
181
Procura-se
Me olhas como se estivesses tão perdida quanto eu, acontece que no labirinto és meu fio de Ariadne
e eu fortuitamente encontro a saída em teu gesto, guiando-me pela bússola das tuas ruminações.
Acontece que também estás tão perdida quanto eu, fui eu quem matei a lógica e enterrei-a em nosso caos,
deixando-lhe somente dúvida, corroendo toda a magia que há na vontade súbita de encontrar-se na certeza.
Em mim, não há nada certo. Mimetizo e tropeço, como um velho decrépito, nas verdades do peito.
(quantas confissões cabem entre os lábios daqueles que pisaram em falso no dia do pleito?)
Em ti, sinto algo vital, transbordando ciência, aniquilando poesia sob o veto dos afetos,
enfileirados e avulsos em um códice só teu, nunca inteiramente livre do que pulsa no mundo.
Sei que te deixei perdida, mas é porque sou perdido, por mais que me encontre exatamente ao seu lado.
Por mais que me procures por trás dos dentes tortos, estarei em outro lugar entre morte e fábula.
E se me achares, por aí, saiba que o fio foi cortado e estaremos isolados no cartaz de procura-se.
38
Feito Frase
O fusco do lusco-fusco ofusca a face fútil da fera afunilada.
Feito força fraca, feito faca forte, feito fúria fagocitada.
Feito feito afeiçoado, feito fino feixe, feito fim fadado.
Feito enfado, feito ficha, feito finado.
Fato desfeito.
Fita?
Fado.
176
Como parar?
Seu rosto é a seda que se estende, irretocável, sobre o lusco-fusco das montanhas azuis.
Meu rosto é espinha e tristeza.
Seu corpo é Vênus para além de Milo, calipígea, mármore bronzeado pelo atravessar do coração.
Meu corpo é gordura empilhada.
-
Em gargalhadas e sorrisos, esqueço que existo e sinto-me feliz ao seu lado.
Entre olhares e silêncio, desperto de súbito e concebo, enfim, nosso retrato:
és uma Helena, e eu, um Nosferatu.
42
O apelo
Atentam contra o próprio argumento aqueles que dizem que Deus intensifica-se na imagem da tragédia.
De um avião que sobrevoa para o abismo há de se esperar que os ateus estejam rezando para qualquer divindade, não é?
Primeiro: podes atestar que essa divindade é a mesma do Santo Evangelho? Não existe metafísica para além do cimo abraâmico?
Segundo: tu, cristão, se comprazes em saber que tua fé é um frágil reflexo pueril de uma criança que teme a exequibilidade do absurdo?
Terceiro: te deleitas no sofrimento de outrem? Sabes o que significa amar o próximo ou segues à Jesus por medo, como um cão aturdido?
Julgas com a certeza de um Rei entre Reis. Amaldiçoas com o ímpeto de um profeta iluminado. Pecas com a presunção de que fazes parte dos escolhidos. Trazes o pior dos vivos e maldizes os mortos, desejando-lhes uma inexistência dolorosa, ardendo no mármore dos prazeres ocultos das cabeças oprimidas e delirantes.
Excitas-te com a imagem do inferno? Abusaste das existências mais pudicas deste planeta, mas a saliva lhe verte os lábios quando gritas: - ímpio! Recortastes os versículos que convém ao teu jogo, mas ignoras, com determinação, a máxima de Apocalipse.
Abutres. Se há uma lógica perfeitamente alinhada e explicável neste mundo absurdo, é a lógica dos abutres da teo-agonia falsamente teológica.
Não servem de exemplo para nada. Mas julgam. Não sacrificam nem a borda da unha. Mas julgam. Não leem integralmente um único livro sagrado. Mas julgam.
Te alegras com a morte de um ateu? Excita-te com a imagem de um homem honesto, mas descrente, sendo massacrado pela vileza dos demônios de fogo?
Para você, caro argumentador, não existe a possibilidade de haver um céu conforme as Escrituras. Teu paraíso é o sofrimento alheio. Onde haverá isso na Morada do Senhor?
Reflita, pelo amor ao teu dogma. Pelo amor de Deus.