Eduardo Becher_2

Eduardo Becher_2

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Soneto em brasa

Se for apenas seus dedos sinceros
tamborilando na mesa e em minha alma,
assino o armistício, advogo pela calma.
Acontece é que os olhos são severos.

Para mim, sua boca guarda esmeros
que só o desejo irrestrito espalma,
capaz de fazer-me suar a palma
e sussurrar-te o nome em exageros.

E ao olhar-me, busca flechas na algibeira,
varando-me com tua face doce,
ainda que Ártemis, forte e estonteante.

Assim, fazes meu peito de fogueira
e não há, em mim, fumaça que não esboce
a vontade de possuir-te a todo instante.
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Poemas

31

Tempo e Clima

As gotas da chuva
calam o sal da lágrima.

Quando o sol da sua doçura
evaporará o silêncio?

Não há problema, céu.
Suporto qualquer clima

desde que eu permaneça
sob a sua atmosfera.
31

Oito de janeiro, 2024

No branco do azulejo
desfiro um soco
para ver no punho oco
qual osso desloca
com maior facilidade.

Na fenda do mesmo osso
encontro quimeras
feitas de sangue e coágulo.
Sou eu, corpo frágil,
invólucro do abstrato.
149

Selvagens

Pólvora em cada gotícula,
em cada fala explosiva
onde a mente perfurada
sangra emoção desejosa.

E os seus lábios contraídos
tangem o contrariado,
enrijecem poesia
e beijam o às da prosa.

Sua mão estendida ao léu,
estátua da revolta,
agarra a fera incontida
como a chispa que se empolga

e ruge, tão absoluta
quanto o ágil palpitar
de um coração corrompido
pelo aceno da lascívia.

Quero-te assim, volumétrica
em qualquer desvelamento
daquilo que somos: bichos
em um cárcere de asfalto.
149

Decisão pulmonar

Coragem.
Inspiro coragem


                                       Para deixar
                                      Você ir.

Depois,
Expiro


                                      Como um
                                      Covarde.
36

Um dia e um sol

Manhã, apanho o sol invicto
até que a luz escorra fraca
pelas planícies do fracasso,
onde não existe quem desfaça

essa ilusão de cristal sujo,
essa marca de sol algum,
a festa de pássaro branco
onde porto o assum preto.

E por andar no fim do fio,
despenco em alucinações,
tão frágeis quanto o sol anil
que colore minha visão.

Antes de findar a inércia, 
a tarde acossa os resultados,
vai buscando extrair da pedra
uma certeza que não seja

fruto de um dia calcinado,
expressão aguda do calcário
jogado no solo-crepúsculo
onde irrompe a flor minguante

da noite. O breu celestial
esconde outra futilidade
sob o lado escuro da lua:
seja concreto, nada mais.

De nada vale a poesia,
retrato no último quarto
que figura no amplo salão
da cabeça volúvel humana,

olha bem o que fazes agora...
quebra de ritmo, verso abaulado
e fugas da realidade
que não se importa se vives

ou se apodreces em teu quarto
-poesia. Uma lua cheia
esperando que a luz cansada
ceife o rufião das palavras.

Tendes coragem para ver
que tudo se encerra na pálpebra,
na certeza incerta de um dia
e um sol a ser apanhado.
183

Biarticulado

O ônibus vai
e eles ficam.
Por onde anda
quem não vi
mais passar aqui?

Por onde anda
a noite cálida,
sombra da vida?

Por onde anda
o verso triste,
imagens de mim?

O ônibus vai
e leva junto
toda a cidade.
Curitiba foi diluída
no vestido preto
de uma passageira.

O que há
além de ônibus
correndo na veia
da alegria anêmica?
Sinceramente, não sei.

Ouço tudo lá
fora. Aqui dentro
é um silêncio.
O coração bate
no compasso do
ônibus que vai,
mas nós ficamos.
181

Procura-se

Me olhas como se estivesses
tão perdida quanto eu,
acontece que no labirinto
és meu fio de Ariadne

e eu fortuitamente encontro
a saída em teu gesto,
guiando-me pela bússola
das tuas ruminações.

Acontece que também estás
tão perdida quanto eu,
fui eu quem matei a lógica
e enterrei-a em nosso caos,

deixando-lhe somente dúvida,
corroendo toda a magia
que há na vontade súbita
de encontrar-se na certeza.

Em mim, não há nada certo.
Mimetizo e tropeço,
como um velho decrépito,
nas verdades do peito.

(quantas confissões cabem
entre os lábios daqueles
que pisaram em falso
no dia do pleito?)

Em ti, sinto algo vital,
transbordando ciência,
aniquilando poesia
sob o veto dos afetos,

enfileirados e avulsos
em um códice só teu,
nunca inteiramente livre
do que pulsa no mundo.

Sei que te deixei perdida,
mas é porque sou perdido,
por mais que me encontre
exatamente ao seu lado.

Por mais que me procures
por trás dos dentes tortos,
estarei em outro lugar
entre morte e fábula.

E se me achares, por aí,
saiba que o fio foi cortado
e estaremos isolados
no cartaz de procura-se.
38

Feito Frase

O fusco do lusco-fusco
ofusca a face fútil 
da fera afunilada.

Feito força fraca,
feito faca forte,
feito fúria fagocitada.

Feito feito afeiçoado,
feito fino feixe,
feito fim fadado.

Feito enfado,
feito ficha,
feito finado.

Fato desfeito.

Fita?

Fado.
176

Como parar?

Seu rosto é a seda
que se estende, irretocável,
sobre o lusco-fusco
das montanhas azuis.

Meu rosto é espinha
e tristeza.

Seu corpo é Vênus
para além de Milo, calipígea,
mármore bronzeado
pelo atravessar do coração.

Meu corpo é gordura
empilhada.

-

Em gargalhadas e sorrisos,
esqueço que existo
e sinto-me feliz 
ao seu lado.

Entre olhares e silêncio,
desperto de súbito
e concebo, enfim,
nosso retrato:

és uma Helena,
e eu, um Nosferatu.
42

O apelo

Atentam contra o próprio argumento
aqueles que dizem que Deus
intensifica-se na imagem da tragédia.

De um avião que sobrevoa para o abismo
há de se esperar que os ateus
estejam rezando para qualquer divindade, não é?

Primeiro: podes atestar que essa divindade
é a mesma do Santo Evangelho?
Não existe metafísica para além do cimo abraâmico?

Segundo: tu, cristão, se comprazes em saber
que tua fé é um frágil reflexo pueril
de uma criança que teme a exequibilidade do absurdo?

Terceiro: te deleitas no sofrimento de outrem?
Sabes o que significa amar o próximo
ou segues à Jesus por medo, como um cão aturdido?

Julgas com a certeza de um Rei entre Reis.
Amaldiçoas com o ímpeto de um profeta iluminado.
Pecas com a presunção de que fazes parte dos escolhidos.
Trazes o pior dos vivos e maldizes os mortos, 
desejando-lhes uma inexistência dolorosa, ardendo no mármore
dos prazeres ocultos das cabeças oprimidas e delirantes.

Excitas-te com a imagem do inferno?
Abusaste das existências mais pudicas deste planeta,
mas a saliva lhe verte os lábios quando gritas: - ímpio! 
Recortastes os versículos que convém ao teu jogo,
mas ignoras, com determinação, a máxima de Apocalipse.

Abutres. Se há uma lógica perfeitamente alinhada
e explicável neste mundo absurdo,
é a lógica dos abutres da teo-agonia falsamente teológica.

Não servem de exemplo para nada. Mas julgam.
Não sacrificam nem a borda da unha. Mas julgam.
Não leem integralmente um único livro sagrado. Mas julgam.

Te alegras com a morte de um ateu?
Excita-te com a imagem de um homem honesto, mas descrente,
sendo massacrado pela vileza dos demônios de fogo?

Para você, caro argumentador, não existe a possibilidade
de haver um céu conforme as Escrituras.
Teu paraíso é o sofrimento alheio. Onde haverá isso na Morada do Senhor?

Reflita, pelo amor ao teu dogma.
Pelo amor de Deus.
196

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