Disritmia Notívaga
Na madrugada, versos e sangue
correm na mesma veia
dilatada pelo pensamento
(imagens antigas, explosões,
taquicardia, pressão, amor,
desejo, prazer e paixão).
Se acalmem! Sou um apenas
para tanto coração.
Com o Peito Aberto
Seja nas planícies desoladas
Ou entre os prédios cinzentos,
levo comigo uma flor
que seguro, contra o vento,
em mãos cortadas.
Escondo as pétalas vivas
e lamento pelas que morreram;
ninguém nunca soube
de que cor elas eram (são)
ou de que modo sobreviveram.
Muito menos eu que, surpreso,
me vi cercado em pleno jardim.
Com as folhas outonais no chão,
adormecidas entre os jasmins.
Às vezes o clima é duro
e não resta flor alguma para escolher,
então seguro apenas o espinho
para tentar, em vão, me convencer.
Haiku reflexivo
Eu penso muito,
Até chegar ao ponto
De desencarnar.
Reflexos Entre Pupilas
Vejo cada abalo
No seu continente
E, por fim, me igualo
Ao nosso estado
De horror covalente.
Eu queria ser outra
pessoa, mais alegre,
Para ter esperança
Sem que algo desintegre
Em meio à bonança.
Mas nós somos o que somos
E esperamos um ao outro
Com olhares espelhados,
Cavalgando qual um potro,
Buscando a imagem dos prados.
Somos melancólicos,
Ainda assim amorosos
Nos gestos simbólicos
E em dias penosos,
Sempre verdadeiros.
Haiku Hidráulico
Crianças choram,
pessoa-feita controla
os próprios fluídos.
A Chama
Andavas
Contente,
Sem ver-me,
Sem ter-me
Ao lado.
Eu quis-te,
Tão perto,
E aberto,
Tracei o
Meu fado.
Dar-te-ia
Os dias
As vias,
Serias
Amada.
Tão bela,
Sincera,
Lidera,
Caminhos
De entrada.
Enquanto
Eu penso,
Intenso
Calor se
Propaga.
E deixa-me
A chama,
Que chuva
Nenhuma
Apaga.
Valsa dos Zeros
A matéria que me cerca
Irradia esse aspecto
De utilidade ou de afeto
Faltando em meu intelecto.
Sou um homem circunspecto
Pela causa e pelo feito,
Duro como todo concreto,
Plenamente insatisfeito.
Se tudo exala função,
Onde cabe o meu respeito?
Sendo o x da equação
e o indefensável do pleito?
O horizonte é sempre estreito
Para esse observador
Que enumera o que é livre
Sendo "zero" o multiplicador.
Interno e Externo
Feche as cortinas
Rasgue o tecido
E o peito doído.
Ruas latinas
Povo abatido
Só um entre tantos.
O ouro das minas
Passa batido
Oculto em espantos.
Feche as retinas
Ouça o ruído
E o clamor interno.
Várias buzinas
Grito e grasnido
Procura-se o terno.
Lembranças da Existência
As mãos, curtas, tocam o mundo
Na pureza inata e incitante
De quem não pondera o segundo
Em horas que se esvaem num instante;
Esse desejo, tão profundo,
Cresce em sintonia com a mente
Farta, descobrindo o submundo,
Ainda que esparsa e transigente.
Quente é a luz na pele nova
Ao surgir um corpo estranho
Cuja a estatura já comprova
O alvorecer do céu castanho;
Os versos integram a trova
E a palavra se torna vítima
Da boca que suplica a prova
Para amenizar a dor legítima.
Pois viver é um corte fundo
Que irá sangrar, constantemente,
Até que o puro vire imundo
E se encontre limpo novamente;
A correnteza que renova
Os velhos meandros da mente
Já não é mais tão curiosa
Quando o tempo é deprimente.
Longa saudade, amarga e injusta,
Crescendo forte e auspiciosa
Pelo destino que sempre assusta
Ao trocar poesia e prosa.
VIDA CONTÁBIL
O custo injusto do começo
É o que me afasta de tudo,
É esse obstáculo que esqueço,
Surgindo como um grito agudo.
A força para mover algo
Cujas as pontas cortam a carne
Não é trabalho do fidalgo
Sem que esse reencarne.
Toda perda antecede o ganho
Em um mundo condicional,
Pouco é condicionado
indo além do bem e do mal.
E se ambos não existem, como
Será possível conhecer
A verdadeira face do domo?
Vivo aflito por não conceber
Os números que tanto somo
Da aurora até o entardecer.