A Nossa Tragédia
E as conversam se prolongavam como os capítulos intermináveis de uma peça;
nem por um momento pensávamos no fim, fator de tudo que nos cerca,
nem por um instante pensávamos na despedida, convenção social comum,
nem por um segundo seguíamos o roteiro ou percebíamos o olhar de fúria do diretor
quando as cortinas se fechavam e os nossos lábios permaneciam selados, em êxtase.
Eu não queria deixar o meu papel e você, a mais sublime Medeia, sentia o que eu sentia;
como duas almas que se enlaçam, esquecendo o que é externo,
como dois motivos que se juntam, formando uma irredutível certeza,
como um único espírito que desperta em noites brandas, quando a sala está vazia,
deixando-nos a sós com o desvelo daquilo que somos.
Na ausência de público, surge uma promessa que intriga as poltronas vazias do teatro:
contato eterno, daqueles que não são sugados pelo buraco negro da sociedade,
contato de quem ama, de quem se importa, ouve, conversa e novamente se apaixona
apenas para poder aproveitar cada detalhe de uma presença querida.
O diretor urrou de alegria ao ver, entrando pela porta, fileiras de pessoas entretidas,
e nós não deixamos de contracenar o tango, ou qualquer outra dança fatal.
E as conversas se tornaram raras no momento em que a vida nos polarizou;
nem por um momento pensávamos no fim, até que ele aconteceu,
nem por um instante pensávamos na despedida, e nunca tivemos uma,
nem por um segundo seguíamos o roteiro, mas notávamos a alegria do diretor
quando a promessa morreu, em silêncio, fazendo do romance uma tragédia.
O Preço de Viver A História
Nas páginas de um antigo livro
os antigos homens viviam A História,
respirando o ar de reis e burgueses
enquanto trabalhavam os camponeses
na chuva, na guerra, miséria ou glória.
Quando a humanidade iluminou
os cantos escuros da memória,
alguém sequer adivinhou
que estavam vivendo A História?
Agora, uma batalha oculta pulsa
pelas calçadas condenatórias
e as baixas são frequentes
nessa atmosfera nebulosa;
seria o preço de viver A História?
Talvez deem outro nome com o tempo
e nos estudem com a frieza
impecável de toda metodologia,
mas a angústia e o sentimento
serão marcas eternas do momento
em que A História foi só um dia.
Reflexos Entre Pupilas
Vejo cada abalo
No seu continente
E, por fim, me igualo
Ao nosso estado
De horror covalente.
Eu queria ser outra
pessoa, mais alegre,
Para ter esperança
Sem que algo desintegre
Em meio à bonança.
Mas nós somos o que somos
E esperamos um ao outro
Com olhares espelhados,
Cavalgando qual um potro,
Buscando a imagem dos prados.
Somos melancólicos,
Ainda assim amorosos
Nos gestos simbólicos
E em dias penosos,
Sempre verdadeiros.
Haiku Hidráulico
Crianças choram,
pessoa-feita controla
os próprios fluídos.
VIDA CONTÁBIL
O custo injusto do começo
É o que me afasta de tudo,
É esse obstáculo que esqueço,
Surgindo como um grito agudo.
A força para mover algo
Cujas as pontas cortam a carne
Não é trabalho do fidalgo
Sem que esse reencarne.
Toda perda antecede o ganho
Em um mundo condicional,
Pouco é condicionado
indo além do bem e do mal.
E se ambos não existem, como
Será possível conhecer
A verdadeira face do domo?
Vivo aflito por não conceber
Os números que tanto somo
Da aurora até o entardecer.
Interno e Externo
Feche as cortinas
Rasgue o tecido
E o peito doído.
Ruas latinas
Povo abatido
Só um entre tantos.
O ouro das minas
Passa batido
Oculto em espantos.
Feche as retinas
Ouça o ruído
E o clamor interno.
Várias buzinas
Grito e grasnido
Procura-se o terno.
Com o Peito Aberto
Seja nas planícies desoladas
Ou entre os prédios cinzentos,
levo comigo uma flor
que seguro, contra o vento,
em mãos cortadas.
Escondo as pétalas vivas
e lamento pelas que morreram;
ninguém nunca soube
de que cor elas eram (são)
ou de que modo sobreviveram.
Muito menos eu que, surpreso,
me vi cercado em pleno jardim.
Com as folhas outonais no chão,
adormecidas entre os jasmins.
Às vezes o clima é duro
e não resta flor alguma para escolher,
então seguro apenas o espinho
para tentar, em vão, me convencer.
Haiku reflexivo
Eu penso muito,
Até chegar ao ponto
De desencarnar.
Valsa dos Zeros
A matéria que me cerca
Irradia esse aspecto
De utilidade ou de afeto
Faltando em meu intelecto.
Sou um homem circunspecto
Pela causa e pelo feito,
Duro como todo concreto,
Plenamente insatisfeito.
Se tudo exala função,
Onde cabe o meu respeito?
Sendo o x da equação
e o indefensável do pleito?
O horizonte é sempre estreito
Para esse observador
Que enumera o que é livre
Sendo "zero" o multiplicador.
Naufrágio de Desejo e Carinho.
Sentir a volúpia na curva dos lábios
E a chama nas voltas do corpo
É o que me mantém ávido e acordado
Quando ouço as batidas no porto.
A correnteza indomável me persegue
Não resta nenhum navio,
Pois o ar, mesmo faltando, ainda consegue
Suspirar um afeto gentil.
- Guia-me à tua península
E me abandone às sereias do teu mar.