Lista de Poemas

Paradoxo

Não sou dono de nada além das palavras
que utilizo, mas não invento.
Minha mente fechada vive nas lavras
de minério e pensamento.

Roubo - e peço emprestado - um grito abafado
de alto distanciamento,
para guardar, na sacola do mercado,
a solidão e o fingimento.

Um observador sem os olhos do rosto,
uma vida sem vontade.
Uma comida sem gosto,
um olhar de pertencimento e vaidade.

São as faixas vermelhas da chuva no asfalto,
reflexos que se diferem.
Só quando as nuvens escapam do planalto
é que as nuances se aderem.

E eu não sou dono de nada, não sei tudo
e aguardo, espero eles verem
que em cada rima deixo um sussurro mudo
de estultices que me ferem.
131

O Filho Que Não Tive

Rostos cobertos em paralelo
nos bancos vazios de uma praça
fechada, passos de quem passa
arrastando o sapato ou o chinelo
no chão, refletindo a tarde nublada.

Eu olho para baixo e enxergo o grão
de gente crescendo na terra molhada,
aumenta-se a paixão espraiada
cujo o motor é sempre a vazão
da dualidade deflorada.

Sinto o ar e contorno com as mãos
um corpo que nunca segurei
e os olhos que nunca me olharam.

Sigo o desfalque dos artesãos
ao pensar que sequer beijei
a pele pura dos que restaram.

Meus ares são elipses vazias
achatando os átomos restantes
- tornando-se nada em instantes -
das partes que viram os dias.

O que me move é a alma infante
sem ciência do tempo, sol ou lua,
presente e, ainda assim, distante
da vida, do campo ou da rua.
150

Tempo e Tempo

Hoje não há sol
que ilumine as avenidas,
muito menos luz
que surja entre os postes;
hoje o verso não é poesia
e a rima vive pela própria sorte.

Hoje é o amanhã
e o amanhã é sempre a morte
seguindo o renascimento,
dissipando o vento forte,
pela bruma inquieta
transitando entre cortes.

Amanhã será refeito
com o mesmo ar de hoje:
uma angustia sobre o peito
da humanidade que explode.
139

A Mariposa

És a mariposa
solitária da noite,
invadindo casas
e buscando abrigo
no contorno delicado
de uma lâmpada fluorescente.

Venha, mariposa
que invade minha noite,
bata suas asas
e fuja do perigo
no sonho acorrentado
pelos lapsos da mente.

Seja livre, mariposa
inquieta da noite,
pois as vidas rasas
andarão contigo
e, com os olhos calados,
não entenderão os seus anseios.

Voe, mariposa
que abre a noite,
há luas maiores
e maiores motivos
além dos moldados
pelos desígnios alheios.
184

Amético

Eu amo você,
não essa sensação escrachada
de pertencimento e adoração,
não essa certeza frágil
de saber que alguém lhe preza,
mas sim a substância
e o produto que transforma matéria
bruta em figuras sinérgicas
(das quais todas se equilibram
de uma maneira que, de outra forma,
não seriam aquilo que são).
É isso que amo,
sem mais nem menos.
212

(Às) Quatro Paredes

O atrito do tecido
E o encontro de dois lábios
Queimando no contato,
Entreabrindo em gemidos,
Suaves como o toque
Da flecha endereçada
Pelo arco do cupido.

O compasso ofegante
De um amor tão dolorido
Curando suas mágoas
Na fonte do proibido,
Na curva inebriante
E no ensejo decidido
Pelos olhos predatórios.

O braço que circunda
Uma tempestade aflita
E conduz os espasmos
De volúpia irrestrita
Pelos cantos do corpo
Até que as chamas se tornem
Enormes labaredas.

Macia como a seda,
Ainda que incandescente,
Deslizando pela pele
Em um ritmo crescente
Até que as mãos se encontrem
E se agarrem, silentes,
Para que todo o prazer
Se condense em um som
No quarto e na mente.
306

Orvalho

Um arrepio súbito
Cobre-me os sentidos
E quebra meu disfarce
Entre os alaridos
De um impulso em decúbito,
Rasgando os tecidos,
Tentando se levantar.

E falta ar e verdade
Na realidade
Que permeia o covarde
E o ator convencido
Contracenando, ileso,
Tornando coeso
O sorriso fingido.

Um espelho quebrado
É outro advogado
Destas causas perdidas,
Reflexo contrário
Da lágrima contida,
Que só sai escondida,
Dos olhares do mundo.
320

Mãos Vazias

Minhas mãos vazias
carregam o mundo
que é tão profundo
quanto as tardes frias.

Vivo o amor platônico,
pois preciso tê-lo,
não me importa vê-lo
sob o mar disfônico.

É inútil ler
e estudar matérias
que, se fossem sérias,
saberiam ser.

Um saber disforme
é o que armazeno
dentro de um terreno
inóspito e enorme.

Às vezes eu grito,
só para testar
minha voz, pelo ar
que tanto me ignora.

O tédio me adora
e a ele eu me agarro,
não há café ou cigarro,
o tédio me basta.

A afeição me afasta
e sei que mereço,
pois eu nunca cresço
e esqueço o espinho.

A flor mais bonita
não chora, não grita
e sofre calada,
vive de carinho.

Sou uma planta amassada
perdida na relva;
entre os dedos eu carrego
a essência do nada.
340

Disritmia Notívaga

Na madrugada, versos e sangue
correm na mesma veia
dilatada pelo pensamento
(imagens antigas, explosões,
taquicardia, pressão, amor,
desejo, prazer e paixão).
Se acalmem! Sou um apenas
para tanto coração.
359

A Chama

Andavas
Contente,
Sem ver-me,
Sem ter-me
Ao lado.
Eu quis-te,
Tão perto,
E aberto,
Tracei o
Meu fado.

Dar-te-ia
Os dias
As vias,
Serias
Amada.
Tão bela,
Sincera,
Lidera,
Caminhos
De entrada.

Enquanto
Eu penso,
Intenso
Calor se
Propaga.
E deixa-me
A chama,
Que chuva
Nenhuma
Apaga.
400

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Reside em Curitiba, no Paraná. Apaixonado por música e poesia.
Escritor de diversos poemas e textos que focam na expressão do sentimento humano,
prioriza a sinceridade em cada verso, sendo um grande fã de Vinicius de Moraes, Fernando Pessoa, Edgar Allan Poe e Carlos Drummond de Andrade.
Interessando pela filosofia e pelas correntes de pensamento céticas, niilistas, existencialistas e clássicas (greco-romana e iluminista); entusiasta das crônicas e um realista que persegue o romantismo inalcançável, ainda que sublime.
Para mais conteúdos: https://www.wattpad.com/user/EduardoBecherBern