Lista de Poemas

Sensações de Terceiro Grau

Uma velha foto:
tinta no papel
e também nas faces
fugindo do tempo,
vivendo entre enlaces
do dia em que a flor
não era tão espinhosa,
tampouco algo rosa
de mel ou de fel.

Um novo caminho:
a antiga pintura
descobre outras cores
e a velha tintura
está desgastada,
mesmo que acordada
com os lábios entreabertos,
esperando o beijo
de quem já partiu.
163

Sem Definição

A poesia é bela,
mas a prosa é verdadeira
e sempre se esgueira
pela triste tela
de uma pintura velha
imitando aquarela
nos fundos da solidão.

O verso chacoalha
o amargor sublime
de quem tanto suprime
o descontentamento
e não vê sustento
nem mesmo ao relento
da própria exatidão.

Buscar a beleza
é viver na incerteza
dos bajuladores
e dos frágeis professores
cujo os óculos
não podem ir além 
das lentes de escansão.
164

O Limite do Horizonte

Aponto os olhos para mim
E não vejo um desejo intacto
Na vastidão do vão sem fim.

A essência que procuro - enfim -
Pela malha do próprio impacto,
Está mais morta que o latim.

Eu mesmo não a conheço, induzo
A partir de uma irritação
Pela pele, amargo cetim.

Sentir um sintoma inconcluso
Clareia minha conclusão:
Sou vazio, não há nada em mim.

De fim em fim, vou definhando
Enquanto descubro que o mundo
É profundo e feito de brim.

Um mero tecido profuso
Cobrindo o anseio, moribundo,
De ir além do céu carmesim.
162

O Poço Está Cheio de Moedas

Sonho acordado
Entre bocejos,
Atordoado
Por esses desejos.

Ando tristonho
Mesmo em gracejos,
Tudo que sonho
Permeia desejos.

Vivo lampejos
De um instinto agudo
(No qual me iludo)
Criando desejos.

Dançando entre ensejos,
Prevejo quedas
No lugarejo
De frias moedas.
155

Superposição Onírica

Já me esqueci do seu rosto
e das sombras acentuadas
em sua bochecha macia,
pouco me importa o seu cabelo
cujo os fios soltos são radiais
de um espiral celeste.

Já aprendi a ignorar você
quando sonho seus sonhos
- produto da angústia -
sem me ater ao porquê.
150

A Turma Dentro de Uma Turma

Eu não penso em uma aura singular
Quando sinto essa escassez em meu peito
Ou quando lembro de tudo que foi feito
Sob o riso de não só um olhar.

Eu sinto saudades, não de um lugar
Especial, mas do sorriso aceito
Nas piadas de um momento perfeito
Para ninguém além do nosso lar.

E quando sentávamos, no intervalo,
Vivíamos em dois mundos distantes
E deixávamos para longe o abalo.

Nosso tempo se deslocava em instantes
E, na verdade, acabou enquanto falo,
Mas sei que o meu amor é o mesmo de antes.
192

Mente Motora

Quando não produzo estou morto.
Não um morto que suspira de alívio na esquife após uma árdua batalha,
mas um morto que arranha a madeira do caixão para resolver assuntos inacabados.

Quando produzo, começo outra produção.
Às vezes concebo o início, meio e fim de algo que nunca respirou o ar do mundo,
eu mesmo não respiro nada que não seja constante ansiedade e falso pertencimento.

Quando produzo não sou pessimista.
Sou, na verdade, uma das mentes mais positivas dentro do crânio humano,
trabalho pelo prazer de concatenar algo que o tempo irá, delicadamente, estilhaçar.

Quando não produzo, vejo outros produzirem.
Um amálgama de produtos e produções é a alvorada que invade meu horizonte,
o sossego é ilusório como as estrelas que refletem sua própria morte pelo espaço.

Quando não produzo sou eterno.
Mas a finitude é o que garante a existência da beleza em um mundo oblíquo,
afinal, não há paz ou quietude em nada: mesmo inerte, ouço o meu corpo produzindo.

Quando eu deixar de produzir
deixarei de me expressar e, certamente, estarei morto.
Seja em vida, sob a terra ou em cinzas.
169

Segredos Brumais

Quando não tem ninguém olhando
e as ruas estão silenciosas,
uma parte minha se abre
e sai de entre as nuvens, como as estrelas,
para mostrar o quanto ainda resta
do meu eu, antes de ser corrompido pelo mundo.

Eu sinto saudades do passado
e das pessoas que já passaram
pela rua das minhas boas memórias,
do sorriso ingênuo
e dos corações quebrados
e até mesmo das grandes derrotas.
Antes eu sabia que eles estariam lá,
hoje não mais.

Eu anseio as conversas antigas,
demonstrar o quanto amei aqueles
que doaram parte de seu tempo com carinho,
abraçar os amigos benquistos
que eu nunca realmente abracei.
Dizer ao doce garoto que a vida
o amargaria ainda mais.

Tenho vontade de amar,
tenho vontade de chorar,
mas durmo e acordo no outro dia,
deixando os sentimentos na cama.

O tempo passou e não volta,
mas a saudade ainda me chama,
no entanto, não posso retornar.
161

Mente Encaixada

O que escondes nessa caixa
Guardada com tanto zelo?
Um mistério que se encaixa
Em nenhum outro modelo?

Seja a caixa de pandora
Que ocultas, apreensiva,
Ou o retrato de uma aurora
Quando mostras a gengiva;

Não importa, apenas não deixe
Esse universo teimoso
Se apagar em triste feixe
No espaço escuro e penoso.

Pois a caixa é um tesouro
De valor excepcional:
O brilho mais duradouro
Da sua alma original.
158

Íris e Pupila

Nunca gostei do meu corpo
e eu entendo bem o porquê,
mas eu tolero os meus olhos
quando refletem você.
177

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Reside em Curitiba, no Paraná. Apaixonado por música e poesia.
Escritor de diversos poemas e textos que focam na expressão do sentimento humano,
prioriza a sinceridade em cada verso, sendo um grande fã de Vinicius de Moraes, Fernando Pessoa, Edgar Allan Poe e Carlos Drummond de Andrade.
Interessando pela filosofia e pelas correntes de pensamento céticas, niilistas, existencialistas e clássicas (greco-romana e iluminista); entusiasta das crônicas e um realista que persegue o romantismo inalcançável, ainda que sublime.
Para mais conteúdos: https://www.wattpad.com/user/EduardoBecherBern