Lista de Poemas

Deixar de ser dura

Se reconhecer apenas na tristeza,
balbuciar palavras chorosas,
quando o que queria mesmo era riso.
Sofrer por costume, por não saber
mais coisa nenhuma.
Gostar de experimentar os dentes
em riso,
fingir felicidade momentânea.
Esperar que ela seja tornada real,
mas não torna, não dura.
Será que um dia, a alma esquece de ser triste,
deixar de ser dura?
Podia viver sem ser obrigação dolorosa,
sentença, condenação, Seria?
312

viajante do absurdo

Viajante do absurdo,
pede alforria para o mundo.
Autofagia em senso desesperado,
fagocitou seu coração,
na esperança de algo novo dentro
de si.
Silencia a maldição monocromática,
se afogando em vícios inventados.
A criação, último ato desesperado,
ir por um caminho cego
em busca de cores.
Nesse jogo de perdas e sonhos,
incorpora sua própria melancolia,
força a face dolorida de fingida
em alegria,
para não ter que desabotoar suas vergonhas
e cuspir sua tristeza
para um mundo ocupado com outros absurdos.

327

Recorte cinematográfico

É assim que o cubismo se da na poesia,
recorte cinematográfico,
pedaços desconectados do todo.
É assim que se dá na minha vida?
Mas por que sempre tem que ser assim,
tão doloroso, judiado ?
Deixar o bloco, lançar-me em outro,
em outro não sei o que nos viveres.
Que pelo medo, se faz mais uma vez,
dor.
Oh.
Judiada vida.
289

Espalhar os olhos na vida

Dizia meu pai,
para não entortar de caminhos
para ter mais visão,
bastava espalhar os olhos na vida,
pela frente mesmo, em reta,
carecia de desvios não.
Tinha que ser alegre mesmo
ele dizia.
Se esparramar na vida,
''sem pensar demais em coisa nenhuma''.
Pensar demais machuca, judia.
Eu judio, em silêncio comigo.
Penso emaranhado,
vou perdendo o tempo do viver,
assim, só pensando.
Machuco e me dôo por costume,
Perdi o senso da vida pequena,
devagarinha,
tão bonita, tão distante de mim.
Me guardei em congestionamento
ideológico qualquer,
acabei me esquecendo.
Onde foi que me guardei?
Me perdi no jogo de perguntas e
constatações.
Me perdi em desculpas cínicas para
a vida mesma, nunca viver.
Medo?
299

Eu e a vida

Amiga minha mesma não sou,
Me falta sempre um não sei o que de vida,
Uma vontade, um respirar macio.
Judio? Me faço pequena e me enterro,
sou rala vivendo pelas bordas.
Me falta vida dada,
certo sentido, alguma certeza.
Um olhar para dentro, saber de alguma coisa.
Ver sem deixar de enxergar,
Sou sempre pelas metades,
sem talentos de viver.
Passo pelo resto dos caminhos,
beiro a vida e ela me beira, me abandona.
Passa batida, um esbarro, negligenciando
o ser, me indifere.
Insisto ralhando comigo e também com
a vida.
Mas nessas tristezas periódicas, acho beleza,
coisas vidas nessa vida meio morte,
aparições encantadas.
Procuro disfarçadamente essa beleza,
esse espírito,
para me fazer viva também.
Um dia eu mesma me acharia coisa inteira,
coisa viva?
305

Sublimação

'Sublimação da alma em cárcere
quando sonha, quando tira os pés do chão,
quando fecha os olhos bem abertos,
se enxergar de vez por todas.
Sofre menos quando aceita seu hospício,
sua casa, lar de sugestão.
O velho paradígma, adianta-se no tempo,
expressão artísitica dos falidos persistentes.
Cria do mundo que ela cria,
descubre formas, seu contento, manifestação.
429

Genérica maldição

Podia, ser menos torta na vida, esparramar-se em vento em brisa, aprender sua existência, sua a carência, preencher-se?

Genéria nas muitas faces pintadas,
anônima.
Tenta a diferença na própria fantasia,
filha dos ventos perdidos, desaparecidos.
Habitante das nuvens, viajante do absurdo,
ela, em direção aos abismos da criação,
vira a face contra a miséria mundana, profana.
Livra-se das vestes, das línguas, da praga das
aparências,
suicida o corpo, rompe com a senteça,
flui a alma à conquista, à presença da vida.
269

Água de choro

Chorar dói,
Dor de lágrimas, água de choro.
Dor expremida, expulsa,
afogada mesmo.
E quando chora sem esbarrar
é porque tem muita dor tomando espaços,
as necessidades de sossego ralham com os olhos
para empurrar tristeza para fora,
Sofrimento que não cabe mais dentro de nada.
343

É macio

Por que dói,
quando existência macia
deixa de existir?
Existência pássaro,
Existência peixe, flor.
Existência no olhar do cão?
A chuva, a onda, o riso, pólen.
Quando morro,
O sangue é áspero,
Denso, mergulhado
Na miséria do mundo.
Choro seco e grito,
A garganta abafada.
Que agora seja macio!

181

Um dia, me libertar ?

Vivo a vida ultimamente,
mesmo muito esparramado,
sem nada de tudo verdadeiro.
Hoje já sendo tão memória de ontem,
me parece sempre que o passado
é mais largo que o presente,
infinitamente maior que hoje .
Afogo a vida em constatações inúteis,
para me distrair da incapazidade de viver.
Minha vida, que coisa nesse dia?
Sempre falta alguma cois para ser
suficiente.
Crio a desgraça com as mãos,
sem querer, um acidente.
Aconteceria um dia, me libertar,
sair de meu controle,
ser torta em outro lugar?

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