Do tamanho do mundo
Vou andando e me deixando,
abandonando,
em cada canto, esparramando,
na tentativa de me deixar longe,
cuidada por outras coisas,
outras vidas,
que eu saia do meu controle,
dos meus maus tratos,
que eu seja brisa,
que eu respire macio e miudo,
do tamanhdo do mundo.
E que não doa em mim,
que não doa no mundo.
Recíproca incompreensível
Desperdiçada em mim,
Eu.
Arrastando pelos mundos,
Comunicando com seres
subterrâneos, imaginários?
Sem dentes, sem forças,
ossos quebrados.
''Mordendo o próprio pescoço''?
Derramando vidas pelas mãos,
Corrompida, surreal.
Habitante dos céus,
prisioneira enterna do chão,
Nefelibata, sentenciada, ser eu.
Triste fim desde o começo,
desinteressada pelas línguas dos homens,
procurando sotaques desconhecidos,
incormpreensíveis.
Observo de distâncias oníricas
a meu ser,
pena, miséria, tontura,
não há o que fazer?
Mas faço,
aposto com a vida mais uma chance,
me destruir menos, conseguiria?
Um dia desses, acordar feita de vida,
livre do vírus de morte alternativa.
Recorte cinematográfico
É assim que o cubismo se da na poesia,
recorte cinematográfico,
pedaços desconectados do todo.
É assim que se dá na minha vida?
Mas por que sempre tem que ser assim,
tão doloroso, judiado ?
Deixar o bloco, lançar-me em outro,
em outro não sei o que nos viveres.
Que pelo medo, se faz mais uma vez,
dor.
Oh.
Judiada vida.
Espalhar os olhos na vida
Dizia meu pai,
para não entortar de caminhos
para ter mais visão,
bastava espalhar os olhos na vida,
pela frente mesmo, em reta,
carecia de desvios não.
Tinha que ser alegre mesmo
ele dizia.
Se esparramar na vida,
''sem pensar demais em coisa nenhuma''.
Pensar demais machuca, judia.
Eu judio, em silêncio comigo.
Penso emaranhado,
vou perdendo o tempo do viver,
assim, só pensando.
Machuco e me dôo por costume,
Perdi o senso da vida pequena,
devagarinha,
tão bonita, tão distante de mim.
Me guardei em congestionamento
ideológico qualquer,
acabei me esquecendo.
Onde foi que me guardei?
Me perdi no jogo de perguntas e
constatações.
Me perdi em desculpas cínicas para
a vida mesma, nunca viver.
Medo?
Eu e a vida
Amiga minha mesma não sou,
Me falta sempre um não sei o que de vida,
Uma vontade, um respirar macio.
Judio? Me faço pequena e me enterro,
sou rala vivendo pelas bordas.
Me falta vida dada,
certo sentido, alguma certeza.
Um olhar para dentro, saber de alguma coisa.
Ver sem deixar de enxergar,
Sou sempre pelas metades,
sem talentos de viver.
Passo pelo resto dos caminhos,
beiro a vida e ela me beira, me abandona.
Passa batida, um esbarro, negligenciando
o ser, me indifere.
Insisto ralhando comigo e também com
a vida.
Mas nessas tristezas periódicas, acho beleza,
coisas vidas nessa vida meio morte,
aparições encantadas.
Procuro disfarçadamente essa beleza,
esse espírito,
para me fazer viva também.
Um dia eu mesma me acharia coisa inteira,
coisa viva?
Genérica maldição
Podia, ser menos torta na vida, esparramar-se em vento em brisa, aprender sua existência, sua a carência, preencher-se?
Genéria nas muitas faces pintadas,
anônima.
Tenta a diferença na própria fantasia,
filha dos ventos perdidos, desaparecidos.
Habitante das nuvens, viajante do absurdo,
ela, em direção aos abismos da criação,
vira a face contra a miséria mundana, profana.
Livra-se das vestes, das línguas, da praga das
aparências,
suicida o corpo, rompe com a senteça,
flui a alma à conquista, à presença da vida.
Sublimação
'Sublimação da alma em cárcere
quando sonha, quando tira os pés do chão,
quando fecha os olhos bem abertos,
se enxergar de vez por todas.
Sofre menos quando aceita seu hospício,
sua casa, lar de sugestão.
O velho paradígma, adianta-se no tempo,
expressão artísitica dos falidos persistentes.
Cria do mundo que ela cria,
descubre formas, seu contento, manifestação.
Água de choro
Chorar dói,
Dor de lágrimas, água de choro.
Dor expremida, expulsa,
afogada mesmo.
E quando chora sem esbarrar
é porque tem muita dor tomando espaços,
as necessidades de sossego ralham com os olhos
para empurrar tristeza para fora,
Sofrimento que não cabe mais dentro de nada.
É macio
Por que dói,
quando existência macia
deixa de existir?
Existência pássaro,
Existência peixe, flor.
Existência no olhar do cão?
A chuva, a onda, o riso, pólen.
Quando morro,
O sangue é áspero,
Denso, mergulhado
Na miséria do mundo.
Choro seco e grito,
A garganta abafada.
Que agora seja macio!
Um dia, me libertar ?
Vivo a vida ultimamente,
mesmo muito esparramado,
sem nada de tudo verdadeiro.
Hoje já sendo tão memória de ontem,
me parece sempre que o passado
é mais largo que o presente,
infinitamente maior que hoje .
Afogo a vida em constatações inúteis,
para me distrair da incapazidade de viver.
Minha vida, que coisa nesse dia?
Sempre falta alguma cois para ser
suficiente.
Crio a desgraça com as mãos,
sem querer, um acidente.
Aconteceria um dia, me libertar,
sair de meu controle,
ser torta em outro lugar?