Flávio Ferretti

Flávio Ferretti

n. 1977 BR BR

Flavio Ferretti é Poeta, Pesquisador, tem licenciatura em Artes Visuais e bacharel em Relações Internacionais Atua como terapeuta desde 2000. Publicou três livros: A Paz efêmera 2008, Cidade grande supernova 2016 e Gravitacionais 2023.

n. 1977-09-19

Perfil
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À grosso modo

esses ataques epiléticos

que as máquinas e as horas

cronometradas abrindo espaço

em tantos vazios provocam

 

esses ataques cardíacos

monitorando o tédio

criaturas paranormais

assediadas pela solidão

se acabam

 

e esses ataques inescapáveis

precipitando

a química doente

que turva o sangue

agrava o suor

suja a raiva sem lágrima

do grito engolido

cidade ilusão

 

(2015)
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Poemas

24

poluição reality show

Para Guy Debord

 
Ondas de consciência sacodem à toa

barulhos apressados em doses de CO2

coliformes incensados 

glutamatos dissabores

horrores histrônicos ticketmasterizados

gentrificando o infecto caos abre alas

às subcelebridades exumadas em seus

exuberantes condomínios pesticidas

streaming vulgares distrações para

cabeças penduradas semivegetativas

ração canibal alto teor necropolítico

feita da mais pura congestão social

finais felizes com cheiro de merda

apocalipse conformista brutalmente cinza

mortalidade monetizada

$ociedade e$petacular 

bestiário circense procriando filas 

sempre mais burocracias aleatórias

sempre menos espaço pra respirar

a cidade é só ruído 

bufando imundície

poluição humana

 

2023
68

Sísifo – alquímico retorno

Sobre a natureza impessoal do chão

rasar como quem ouve sinos

tangidos por réstias espinhais

e rangeres ósseos afiados

a esfarelar o cálcio 

amarelado tempo

incontornável  

que falta passar 

do fólio memorial espelho

irmã minha – vida

fenda clandestina entre estrelas (maiores) 

rezo da ironia de enfrentamento

do humor ferruginoso do absurdo

o tom cinábrio dos dias liriais 

cheios de fúria emudecida

a força titânide que tudo arpoa 

ventre orgíaco orbital abrigo

ser de ti 

todo sangue rumor segredo 

precessão nascimento porvir

 

2023
62

A carne é fácil II



 

A carne é fácil

desfilada pela púbis cidade

os inabortados desta terra

exibem seus troféus umbilicais

seios e cérebros silly clones

testículos self-service 

de estimulantes e esteróides

cascas expostas egos mexidos

fugas espetaculares por meio de

fornicações eletro-eletrônicas

paradas cardíacas superficiais

rostos taxidermizados 

molduras rigor mortis

carne de vitrine

estômagos paquidermes 

em esquinas gordurosas

empanturradas de fast foda-se

que se entocam em cavernas bibelôs

para digerir o gosto de ser humano

 

2013/2021


68

inteligência artificial

A pressa faz embaçar a morbidez da cidade

sem espaço para contemplar meros cadáveres

catálogo vivo ilustrando a natureza necrótica

manequins vitrines sociais máquinas semiautomáticas

simulacros dopaminados por silícios alucinógenos

regras e códigos mudos para tornar-se imune 

orar e fingir bitolar-se do bestial folclore 

e toda suja matéria abaixo do céu encardido

que se esparrama nas graças de lágrimas ácidas

terminando assim por marejar suas crias

toda uma fauna distópica de cabeças imitação

lambidas pelo vento que já fora perfume 

(agora hálito) de seus deuses terminais

 

2022
72

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