Hoje faz 49 anos do nascimento de Flávio Ferretti
Flávio Ferretti

Flávio Ferretti

n. 1977 BR BR

Flavio Ferretti é Poeta, Pesquisador, tem licenciatura em Artes Visuais e bacharel em Relações Internacionais Atua como terapeuta desde 2000. Publicou três livros: A Paz efêmera 2008, Cidade grande supernova 2016 e Gravitacionais 2023.

n. 1977-09-19

Perfil
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Revidar

A faca afiada no escudo do peito

grava fundo a dor em cortes ristes

a lâmina forma a espada 

que não jorra

mas limpa o sangue 

vau por onde singra

o corpo dínamo vivo

 

cada ferida traz em si 

o lastro vermelho preciso

para apensar fracassos 

com um dia a mais

 

e assim revidar cada adaga 

na carne dura mater infligida

vivendo como que por cicatrização

num ato de pura rebeldia

 

(2015)

 
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Poemas

24

aroma


Queria você aqui tão

aromática quanto essa

xícara de café e sanduíche 

pra dois quanto esse 

apocalipse de todos nós

desiguais por enquanto

engulo essa história

mais tarde outras

companhias até breve

algo rolar mais

sonhos livros boletos notícias amigos

outras pequenas 

espécies noturnas

apareçam por lá

em casa nem me

dou ao trabalho de

procurar o que fazer algo

sempre me encontra do nada

quando olho para o céu chamo 

tudo isso de distâncias entre 

infernos meus desprazeres e reconsumos

tenho impopularidade

desacredito em tudo

mesmo assim estava ocioso

para te contar

o quê mesmo? Vai 

ver já foi só de saber

de você como 

está? estou

com fome estive 

pensando estarei 

ralando pra valer por 

planos a desfraldar

e os filhos da puta brincando ainda

de século XX

mídia não é vida

não tem novidade

tempo bom tempo ruim

verão tá quente 

inverno talvez

políticos são idiotas

que idiotas não são?

clássico é clássico

falou tá falado

nem tudo que reluz é ouro

nem tudo que balança cai

rima bem assim?

já li de quem isso, mesmo..!? 

ando devendo 

visitas respostas

e satisfação a mim e mais alguém

pode ser só furado ou tem

que ser profundo? 

sinto falta

às vezes pouco muitas

vezes tudo passa

na cabeça rebate

no corpo acaba

aqui

 

2022
75

dentro de mim agora um anjo


não cabem outros anjos falidos de amor ou empatia

não basta mais induzir a masturbações cardíacas

há de se dar de comer à boca que beija de verdade

e de lamber à pele que arrepia 

por esse incêndio espontâneo

(aquele que te deixa de jugular na mão)

há de se saber na flor dos nervos desse veneno

as rapidinhas utensiliais de corações vingadores

 

dá maldade só de lembrar... 

 

2022
63

X-ray speX


Res

saltos acrobáticos

cólera cardíaca

metrônomo incerto

para pés escorregadios

ziguezagueando

as horas dispersas

realidades paralelas

marinadas em bílis 

e eletricidade estática

 

avessam-se as vísceras

dúctil museu de dentro

náuseas golfadas entre

passagens apertadas

 

empurradas 

ao poço do estômago

efervescente cabeça

fingindo de pula-pula

 

2022
72

Valente

Para Fela Kuti por Zombie

 

Também queria ser valente

bancar nos dentes

essa coragem que derriça

toda lasca ferida inscrita

nos nervos assombrados

por ranhuras revulsivas

da valentia que fulmina

a face que é sombra

a dor que circunvizinha

ter a bílis intacta

espessa e convulsiva

nas vísceras escaldadas

em lâminas repetidas

a jugular do grito

que liberta o corpo enquadrado 

despossuído expatriado

tomado de si o sangue exaurido

incorporar-se da braveza

sobre fria escama apatia

ser no próprio viver

um gesto de pura rebeldia

 

2020
63

viração


Um arroio ferido d’água

aquele salvar da garganta

que mal inflamada cospe

marimbondos torpedos

só por raiva hoje cala-te

a palpitação a excrescência

do ressentimento moeda de troca

desses ferimentos sem pudores

falar outras vozes outros agudos

lavrar o incontornável luzir azul

num tamanho oceânico

a mais extensa simetria

da alegria sem enganos

de risos livres de restos

sem o sangue ruminado

na língua das palavras

que golpeiam ilusão

 

2023
64

oblação

Pode crer que inerme aceito ser iluminado

incorporar no coração inclinado à desordem

as palavras em seda cravejadas de boas vontades

os cálices do bom sono e céus em banhos-maria

que assim tragam asas fantasticamente inúteis

ou quaisquer brancos adornos de assepsia divinal

que ajuntem desejos adâmicos com sortes edênicas

e removam as insígnias escuras dos arranhões 

amadurecidos no rosto e entender da juventude 

agora impedida de corpo para enfim se fabularem 

outras verdades e eternidades menos acidentais

 

2022
59

Daquela flor


Brilha em farta flor

largo sentir amar

faca e rasgo da vida

em teu contraforte peito 

sentinela servo e senhor

periga sonhador saber

da morte e se querer

- mesmo assim -

jogar-se herói em mar revolto

singrar a travessia da loucura

ou assomar de assalto montanhas

o mais antigo dos vícios mortais

amor anjo exterminador

dos pecados e nobrezas capitais

 

2023
61

poluição reality show

Para Guy Debord

 
Ondas de consciência sacodem à toa

barulhos apressados em doses de CO2

coliformes incensados 

glutamatos dissabores

horrores histrônicos ticketmasterizados

gentrificando o infecto caos abre alas

às subcelebridades exumadas em seus

exuberantes condomínios pesticidas

streaming vulgares distrações para

cabeças penduradas semivegetativas

ração canibal alto teor necropolítico

feita da mais pura congestão social

finais felizes com cheiro de merda

apocalipse conformista brutalmente cinza

mortalidade monetizada

$ociedade e$petacular 

bestiário circense procriando filas 

sempre mais burocracias aleatórias

sempre menos espaço pra respirar

a cidade é só ruído 

bufando imundície

poluição humana

 

2023
68

Rebate



Pernas como ponteiros

sob o alarme do sol

suor como sal da sede

que te faz humano

que te traz ainda mais

perto da gramática mundo

intimado a existir e resistir

em ruas sangrias esgotadas

relançando seu bafo mecânico venal

contra malquistos deuses orgânicos

misturados à terra

cinzas do próprio pó estrelas sujas

 

2023
62

inteligência artificial

A pressa faz embaçar a morbidez da cidade

sem espaço para contemplar meros cadáveres

catálogo vivo ilustrando a natureza necrótica

manequins vitrines sociais máquinas semiautomáticas

simulacros dopaminados por silícios alucinógenos

regras e códigos mudos para tornar-se imune 

orar e fingir bitolar-se do bestial folclore 

e toda suja matéria abaixo do céu encardido

que se esparrama nas graças de lágrimas ácidas

terminando assim por marejar suas crias

toda uma fauna distópica de cabeças imitação

lambidas pelo vento que já fora perfume 

(agora hálito) de seus deuses terminais

 

2022
71

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