flora floema

flora floema

n. 1997 BR BR

n. 1997-09-08, Florinea

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Saudades

Parti você em pedaços desiguais
dispostos sobre a pilha de livros
metade deles é alucinação
a outra metade, assombros

Sobras revisitadas
que não são bem-vindas
embora repousem brutalmente
ao reconhecer o lugar

Dos dedos que jamais tocaram
a minha gélida estrutura celular
mas que floreiam antúrios
e cultivam saudades
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Poemas

54

Casualmente fui até mim

Movida pelos próprios pés 
que não sabem como percorrer
as avenidas e travessias
asfaltadas pelo coração

Caminhando invoco o poder
de quem eu pretendi ser
dissolvo em água as muitas de mim
agito e me banho delas
303

Idiossincrasia

De tudo
Nada sou
Nada faço
Que não por mim

Egoísmo idiossincrático
Firo meus olhos
Me torno cega
Ao que me apequena
Como humana
E
Humanizada

"Me tirem daqui!"
Minha compaixão
Não cura
Não salva

A utilizo

E unicamente
Para me sentir
Melhor
189

Os olhos azuis dela

Emudeço
Quando tento balbuciar
O efeito do seu olhar
Sobre mim
Para além de mim

Olhar que atravessa minhas barreiras
E impregna receio de sua leitura
Olhos que personificam um oceano azul
Que me banha da cabeça aos pés

Em dias tranquilos a água espelha o céu pela manhã
Em dias de mar revolto
Grandes algas verdes emergem a superfície do mar
Observo as ondas com resignação

As vejo chocarem-se contra meu solo
Arrastando uma camada fina de mim
Para outros mares, rios e lagos
De onde irão precipitar
E retornar para o oceano dos seus olhos
204

Gemido do coração

Grita em mim
Uma ânsia pelo toque
De recolher
Para dentro
Dois dedos
E a sua boca
Que não me chama
Quente
Tateia minha vulva
Com a língua
Lambe meu aguar
Entre córregos
Atravessando montes
Pubianos
Sente o cheiro
Da chuva ácida
Beija interno
O osso
Esterno
E me fode
O que pulsa
210

Coordenadas do desejo

Estes pontos pintam
Pintas que são pistas
Para chegar ao destino
Que se faz desnudo

A primeira pista pinta
Uma estrada em zigue-zague
Apresenta giros e curvas
Ordena passagem

A segunda pista pinta
Um quadro úmido
Que se emoldura com a língua
Dura

A terceira pista pinta
Linhas convexas
Que conectam-se
Boca a boca

A quarta pista pinta
O que se vê na penumbra
Enquanto tateia o caminho
Subvertido em saliva

A quinta pista pinta
Uma paisagem quente
Que desemboca no Éden
Das sensações e sabores

Não pinta a sexta pista
O destino abre-se
Enquanto sussurra
"Vem"

Pincelo em primeira pessoa
O meu desaguar
Em seu aguar
Para virarmos mar
400

Botânica

Perceber brotar
Um pensamento
E não fugir
Deixar germinar

Ser a coifa
Do meu meristema
   A
      P
        I
         C
           A
Radicu(L)ar

Conceber em epiderme
Estratos de mim
Totipotentes
No aguardo de um sinal
414

Nó desaguar

Forçada a falar
Sobrecarrego
Língua
E vértebras
Que me mantém
Em pé
Fujo
Logo me procuram
O silêncio
Não me é permitido
Lamento
Por não poder
Não ser
192

Madrugada

Alucino um bocejo
Que me diz
Hoje o tempo acabou
Sobrevive amanhã
Agora você pode
Partir
201

Quantas ml tem um amor?

Poema fruto
Do amor
Que desama
Sempre que
Parece amar

Bola de gude
Me fita
Sinto a sina
Da destreza
Em sua mão

Você me faz
Engolir a seco
A poesia
Não sobra nada
Além desses versos
Fra(s)cos
211

Vozes que ecoam

Audre diz
Força a escrita
Geruza diz
Grita mesmo sem voz
Ecoo as poetas
Porque há em mim
O choro preso
O gozo reprimido
A coragem inibida
As palavras esquecidas

Mas há também
Impulso
Ânsia
Fôlego
Raiva
E vida

As sinto aqui
Quando cada palavra
Abre
Corta
E sutura
203

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