flora floema

flora floema

n. 1997 BR BR

n. 1997-09-08, Florinea

Perfil
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Ainda crio verbos para você

Meu coração ainda me pede
Para descansar em sua última foto
Aguardo em bradicardia

Meus olhos em vermelho agudo
Não escondem nem acolhem
Embora formem profundos sentidos
Vistos, lidos e amanhecidos

Querendo se conjugar
Na saudade que
Fico a saudadear
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Poemas

57

Saudades

Parti você em pedaços desiguais
dispostos sobre a pilha de livros
metade deles é alucinação
a outra metade, assombros

Sobras revisitadas
que não são bem-vindas
embora repousem brutalmente
ao reconhecer o lugar

Dos dedos que jamais tocaram
a minha gélida estrutura celular
mas que floreiam antúrios
e cultivam saudades
340

Açude nordestino

Tenho 23 anos e não sei nadar
Me recordo dos dias no sertão
Em que me banhava no raso do açúde
Aos pulos me pensava nadante
Enquanto meus pés ressentidos tocavam o chão

Banhos dançantes com tilápias e camarões
Saía de lá os carregando comigo
Aprisionados na louça de minha mãe
Que ajoelhada se dedicava a ariar
Bacia de ferro, meia dúzia de pratos e copos
Na beirada arenosa do açúde
Redemoinhos, risos e respingos

Da água funda minha irmã acenava
Como quem faz convite para aprofundar
O medo de queimar me hesitava
Minha mãe fora d'água não me enxergava
O lugar seguro me oferecia solidão

Aprendi que no fundo
A gente se afoga
E no raso a gente duvida
Se vai ter alguém olhando
309

Ainda crio verbos para você

Meu coração ainda me pede
Para descansar em sua última foto
Aguardo em bradicardia

Meus olhos em vermelho agudo
Não escondem nem acolhem
Embora formem profundos sentidos
Vistos, lidos e amanhecidos

Querendo se conjugar
Na saudade que
Fico a saudadear
361

Casualmente fui até mim

Movida pelos próprios pés 
que não sabem como percorrer
as avenidas e travessias
asfaltadas pelo coração

Caminhando invoco o poder
de quem eu pretendi ser
dissolvo em água as muitas de mim
agito e me banho delas
298

Idiossincrasia

De tudo
Nada sou
Nada faço
Que não por mim

Egoísmo idiossincrático
Firo meus olhos
Me torno cega
Ao que me apequena
Como humana
E
Humanizada

"Me tirem daqui!"
Minha compaixão
Não cura
Não salva

A utilizo

E unicamente
Para me sentir
Melhor
185

Os olhos azuis dela

Emudeço
Quando tento balbuciar
O efeito do seu olhar
Sobre mim
Para além de mim

Olhar que atravessa minhas barreiras
E impregna receio de sua leitura
Olhos que personificam um oceano azul
Que me banha da cabeça aos pés

Em dias tranquilos a água espelha o céu pela manhã
Em dias de mar revolto
Grandes algas verdes emergem a superfície do mar
Observo as ondas com resignação

As vejo chocarem-se contra meu solo
Arrastando uma camada fina de mim
Para outros mares, rios e lagos
De onde irão precipitar
E retornar para o oceano dos seus olhos
199

Gemido do coração

Grita em mim
Uma ânsia pelo toque
De recolher
Para dentro
Dois dedos
E a sua boca
Que não me chama
Quente
Tateia minha vulva
Com a língua
Lambe meu aguar
Entre córregos
Atravessando montes
Pubianos
Sente o cheiro
Da chuva ácida
Beija interno
O osso
Esterno
E me fode
O que pulsa
205

Coordenadas do desejo

Estes pontos pintam
Pintas que são pistas
Para chegar ao destino
Que se faz desnudo

A primeira pista pinta
Uma estrada em zigue-zague
Apresenta giros e curvas
Ordena passagem

A segunda pista pinta
Um quadro úmido
Que se emoldura com a língua
Dura

A terceira pista pinta
Linhas convexas
Que conectam-se
Boca a boca

A quarta pista pinta
O que se vê na penumbra
Enquanto tateia o caminho
Subvertido em saliva

A quinta pista pinta
Uma paisagem quente
Que desemboca no Éden
Das sensações e sabores

Não pinta a sexta pista
O destino abre-se
Enquanto sussurra
"Vem"

Pincelo em primeira pessoa
O meu desaguar
Em seu aguar
Para virarmos mar
395

Botânica

Perceber brotar
Um pensamento
E não fugir
Deixar germinar

Ser a coifa
Do meu meristema
   A
      P
        I
         C
           A
Radicu(L)ar

Conceber em epiderme
Estratos de mim
Totipotentes
No aguardo de um sinal
411

Nó desaguar

Forçada a falar
Sobrecarrego
Língua
E vértebras
Que me mantém
Em pé
Fujo
Logo me procuram
O silêncio
Não me é permitido
Lamento
Por não poder
Não ser
188

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