Lista de Poemas

Saudades

Parti você em pedaços desiguais
dispostos sobre a pilha de livros
metade deles é alucinação
a outra metade, assombros

Sobras revisitadas
que não são bem-vindas
embora repousem brutalmente
ao reconhecer o lugar

Dos dedos que jamais tocaram
a minha gélida estrutura celular
mas que floreiam antúrios
e cultivam saudades
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Ainda crio verbos para você

Meu coração ainda me pede
Para descansar em sua última foto
Aguardo em bradicardia

Meus olhos em vermelho agudo
Não escondem nem acolhem
Embora formem profundos sentidos
Vistos, lidos e amanhecidos

Querendo se conjugar
Na saudade que
Fico a saudadear
343

Hoje eu saio daqui carregando a minha cor

Um dia olharam para mim
Com dúvida
Chegaram mais perto
Examinaram bem
Usaram até fita métrica
Na curvatura dos meus cachos
Na minha boca
Em meu nariz
Com uma paleta de cores
Sobrepuseram a minha pele
O júri se reuniu
Distante do meu cheiro
E da minha humanidade
Ao fundo cochichos
“ela não é como eles,
mas evidente que não é como
nós”
303

De ano novo vou querer um cabo de aço para me segurar

Um desafio astronômico
De mudar aquilo
Que eu queria que tivesse sido
E não foi
A Terra translacionou rápido demais
As rotações me nausearam

Todo esse movimento
Me afungentou
Para um canto de mim
Onde a gravidade é mais forte
E me puxa com força para o chão
Das lamentações e inaptidões

Meu desejo é flutuar
Ver de longe para adentrar
E descobrir tudo o que já conheço
Com outra retina, língua e pele
Experimentar a vida de fora
Ainda que eu esteja dentro
402

Açude nordestino

Tenho 23 anos e não sei nadar
Me recordo dos dias no sertão
Em que me banhava no raso do açúde
Aos pulos me pensava nadante
Enquanto meus pés ressentidos tocavam o chão

Banhos dançantes com tilápias e camarões
Saía de lá os carregando comigo
Aprisionados na louça de minha mãe
Que ajoelhada se dedicava a ariar
Bacia de ferro, meia dúzia de pratos e copos
Na beirada arenosa do açúde
Redemoinhos, risos e respingos

Da água funda minha irmã acenava
Como quem faz convite para aprofundar
O medo de queimar me hesitava
Minha mãe fora d'água não me enxergava
O lugar seguro me oferecia solidão

Aprendi que no fundo
A gente se afoga
E no raso a gente duvida
Se vai ter alguém olhando
300

Casualmente fui até mim

Movida pelos próprios pés 
que não sabem como percorrer
as avenidas e travessias
asfaltadas pelo coração

Caminhando invoco o poder
de quem eu pretendi ser
dissolvo em água as muitas de mim
agito e me banho delas
290

Da sua boca brotou poesia dolorida: em mim

No momento certo
Você me envolveu com suas fibras
Eu impregnada de lignina
Dura, oca, vazia
Amei quando sequer
Havia amor em mim

Agora somos
Nós frouxos
Em nossas fotos
As cordas se emaranham
Apertam firmemente
Na intenção de conter

A cada visita que faço a elas
Mais difícil e tumultuoso
O desatar dos nós
Mais sinuoso o caminho de volta

Me deixa em carne viva
A saudade da sua boca
Tornou meus pelos eretos
Em constante alerta

Quando existo
Em seu esquecimento
Minha vida em outra se faz
Quando existo
Em sua lembrança
O mar dos meus olhos
Insistem em retornar
Para o oceano dos seus
E arde
Essa água salgada
Sobre a minha pele

As mãos brancas
Que me tocavam
Retirou abruptamente
Meu amor por nós
Sem considerar as raízes

Restou
Do seu amor por mim
E do meu amor por você
A distância
De 384.400 km

Como se a lua
Cumprimentasse
A Terra
317

Lágrima é bactericida

O choro vem
e com ele
o nada
carregado de tudo
o que eu quis ser
e não fui
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Indelicada é a vida

indelicada vida
obtém da gente
medo
mesquinharias
e ainda ameaça
com a sua ausência

indelicada vida
seus modos ultrajantes
nos obrigam a gratidão
quando caímos ao chão
ela esconde o band-aid

indelicada vida
jogadas perigosas
nos fazem sorrir
ao imaginar o cenário
da vitória sem ela
descanso
silêncio
paz

indelicada vida
nos últimos 45 minutos
do fim da sua presença
nós pediremos por mais
208

Li a placa de perigo e avancei

A perda de algo
que nunca possuí
noticiada em arrepios pelo corpo
vulto contorcido, quente
ereto
como se quisesse esvair
das fronteiras corporais
de onde o toque pungido
sangra a pele

do abandono crepitante
se forma o sofrido gemido
do gozo sentido
esqueço seu nome
volto para casa
em estalos
você é brasa
que não queima
evapora
107

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