flora floema

flora floema

n. 1997 BR BR

n. 1997-09-08, Florinea

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Ainda crio verbos para você

Meu coração ainda me pede
Para descansar em sua última foto
Aguardo em bradicardia

Meus olhos em vermelho agudo
Não escondem nem acolhem
Embora formem profundos sentidos
Vistos, lidos e amanhecidos

Querendo se conjugar
Na saudade que
Fico a saudadear
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Poemas

57

Ainda crio verbos para você

Meu coração ainda me pede
Para descansar em sua última foto
Aguardo em bradicardia

Meus olhos em vermelho agudo
Não escondem nem acolhem
Embora formem profundos sentidos
Vistos, lidos e amanhecidos

Querendo se conjugar
Na saudade que
Fico a saudadear
365

Saudades

Parti você em pedaços desiguais
dispostos sobre a pilha de livros
metade deles é alucinação
a outra metade, assombros

Sobras revisitadas
que não são bem-vindas
embora repousem brutalmente
ao reconhecer o lugar

Dos dedos que jamais tocaram
a minha gélida estrutura celular
mas que floreiam antúrios
e cultivam saudades
344

Hoje eu saio daqui carregando a minha cor

Um dia olharam para mim
Com dúvida
Chegaram mais perto
Examinaram bem
Usaram até fita métrica
Na curvatura dos meus cachos
Na minha boca
Em meu nariz
Com uma paleta de cores
Sobrepuseram a minha pele
O júri se reuniu
Distante do meu cheiro
E da minha humanidade
Ao fundo cochichos
“ela não é como eles,
mas evidente que não é como
nós”
318

De ano novo vou querer um cabo de aço para me segurar

Um desafio astronômico
De mudar aquilo
Que eu queria que tivesse sido
E não foi
A Terra translacionou rápido demais
As rotações me nausearam

Todo esse movimento
Me afungentou
Para um canto de mim
Onde a gravidade é mais forte
E me puxa com força para o chão
Das lamentações e inaptidões

Meu desejo é flutuar
Ver de longe para adentrar
E descobrir tudo o que já conheço
Com outra retina, língua e pele
Experimentar a vida de fora
Ainda que eu esteja dentro
415

Açude nordestino

Tenho 23 anos e não sei nadar
Me recordo dos dias no sertão
Em que me banhava no raso do açúde
Aos pulos me pensava nadante
Enquanto meus pés ressentidos tocavam o chão

Banhos dançantes com tilápias e camarões
Saía de lá os carregando comigo
Aprisionados na louça de minha mãe
Que ajoelhada se dedicava a ariar
Bacia de ferro, meia dúzia de pratos e copos
Na beirada arenosa do açúde
Redemoinhos, risos e respingos

Da água funda minha irmã acenava
Como quem faz convite para aprofundar
O medo de queimar me hesitava
Minha mãe fora d'água não me enxergava
O lugar seguro me oferecia solidão

Aprendi que no fundo
A gente se afoga
E no raso a gente duvida
Se vai ter alguém olhando
313

Casualmente fui até mim

Movida pelos próprios pés 
que não sabem como percorrer
as avenidas e travessias
asfaltadas pelo coração

Caminhando invoco o poder
de quem eu pretendi ser
dissolvo em água as muitas de mim
agito e me banho delas
304

A última vez que amei

Asfixiar todas as inseguranças
Nas moléculas de celulose
Com caneta preta de ponta fina

Fazer tributo às árvores
Com as palavras
Da língua mãe
Desenhadas no papel

Que irão destrinchar
Dúvidas
Dívidas
Dores

Das conversas
Que não ocorreram
O silêncio

Dos toques
A pulsação

Das vozes
O último "eu te amo"
Sem adeus
382

A Cartografia do sorriso

As linhas do seu sorriso
Traçam a cartografia
Do perigo
De grito
Desejo

Receio o declive abrupto
Percorro a pressas
Planícies
Por onde não há tropeço
244

Daquele dia em que marquei de te ver por acaso

me programo toda noite
há duas semanas
para encontrar com você
acordada ou dormindo
nós duas
ocupando o mesmo espaço
em tempos diferentes

como um reflexo
minha mão se entrelaça na sua
você me olha confusa
e o amor parece brotar do cimento
as raízes logo invadem
a calçada da loja onde nos esbarramos

você me diz que precisa ir
eu digo que foi bom te ver
sussurro em seu ouvido
que nossos caminhos
se cruzaram novamente

destino
ou
planejamento estratégico?
339

Indelicada é a vida

indelicada vida
obtém da gente
medo
mesquinharias
e ainda ameaça
com a sua ausência

indelicada vida
seus modos ultrajantes
nos obrigam a gratidão
quando caímos ao chão
ela esconde o band-aid

indelicada vida
jogadas perigosas
nos fazem sorrir
ao imaginar o cenário
da vitória sem ela
descanso
silêncio
paz

indelicada vida
nos últimos 45 minutos
do fim da sua presença
nós pediremos por mais
220

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