Os olhos azuis dela
Emudeço
Quando tento balbuciar
O efeito do seu olhar
Sobre mim
Para além de mim
Olhar que atravessa minhas barreiras
E impregna receio de sua leitura
Olhos que personificam um oceano azul
Que me banha da cabeça aos pés
Em dias tranquilos a água espelha o céu pela manhã
Em dias de mar revolto
Grandes algas verdes emergem a superfície do mar
Observo as ondas com resignação
As vejo chocarem-se contra meu solo
Arrastando uma camada fina de mim
Para outros mares, rios e lagos
De onde irão precipitar
E retornar para o oceano dos seus olhos
Ensurdecedor
O barulho que ela ouve
sente quente atrás da orelha
chega como um sussurro
a mil decibéis
A acumulação é a origem
sua cor é chave
mas ela não está preparada
cobre os ouvidos
com algodão macio
No trabalho
o zumbido estridente
a fere
os colegas a olham
homens e mulheres sulfites
em suas expressões
in(diferença)
Nela
choro de fio contorcido
da gargantilha que arranha
e destrói cada anel cartilaginoso
de sua traqueia
antes da morte
eles desejam
calar a sua voz
Tudo sangra
a garganta
os ouvidos
vem de
vermelho vivo
O sangue não estanca
a fúria não coagula
ela tinha acabado de descobrir
e então grita
pós-morte
Coordenadas do desejo
Estes pontos pintam
Pintas que são pistas
Para chegar ao destino
Que se faz desnudo
A primeira pista pinta
Uma estrada em zigue-zague
Apresenta giros e curvas
Ordena passagem
A segunda pista pinta
Um quadro úmido
Que se emoldura com a língua
Dura
A terceira pista pinta
Linhas convexas
Que conectam-se
Boca a boca
A quarta pista pinta
O que se vê na penumbra
Enquanto tateia o caminho
Subvertido em saliva
A quinta pista pinta
Uma paisagem quente
Que desemboca no Éden
Das sensações e sabores
Não pinta a sexta pista
O destino abre-se
Enquanto sussurra
"Vem"
Pincelo em primeira pessoa
O meu desaguar
Em seu aguar
Para virarmos mar
Você fodeu a minha cabeça
Você envolta pela toalha
recém saída do banho
estimulava meu olfato
com o cheiro de sabonete
na sua pele macia
provocava arrepios
na minha
eu vinda do sol
você vinda da lua
não conseguíamos coexistir
sua dependência
apagou minha luz
acabamos ambas
na escuridão
seus olhos de harpia
me avistaram a anos-luz
em diferentes dimensões
com o bico pontiagudo
perfurou os meus olhos
cega
não vi você
arrancando de dentro de mim
meu ser comigo mesma
minha liberdade em vísceras
minha autoestima coagulada
pedaço por pedaço
você foi me consumindo
enquanto eu dizia
me coma
você me fodeu
e eu sequer gozei
Ao pôr do sol a vida é tão sofrida
escrevo quando parece
que tudo
o enorme nada
vai ruir, desmoronar
e me fragmentar em pedacinhos
granulados de mim
passeando pela praça
entre meia dúzia
de árvores da família Fabaceae
reflito
ao pôr do sol
a vida é tão sofrida
tão saturada
mas também tão sexy
num sábado que tudo abala
até quando você insiste
em ser inabalável
quando te atingem
com tapas, tomates e tiros
você diz
"está tudo bem aqui"
você se distrai
assiste, lê, ouve
emudece o barulho
que transcende
a própria fisiologia
o som não se propaga
no vácuo desse espaço
o ambiente amarelo
vestígio do dia quente
faz querer viver
e me lembra que não tenho vida
só existo enquanto escrevo
palavras vazias
e sem sentido
dançam, se conectam
e criam narrativas
fictícias e reais
se enlaçam entre os meu dedos
formando uma sopa de letrinhas
onde se lê "eu-lírico"
engulo tudo
Domingo
Poetizar os dias
alivia o peso do nada
do tédio que gruda
feito líquen
Emerge feito coisa leve
logo a dor
que é densa
e não afrouxa
Puxa fios de sentido
nesse novelo impaciente
que sai da minha epiderme
arrepio de cotidiano
e vida
A última vez que amei
Asfixiar todas as inseguranças
Nas moléculas de celulose
Com caneta preta de ponta fina
Fazer tributo às árvores
Com as palavras
Da língua mãe
Desenhadas no papel
Que irão destrinchar
Dúvidas
Dívidas
Dores
Das conversas
Que não ocorreram
O silêncio
Dos toques
A pulsação
Das vozes
O último "eu te amo"
Sem adeus
Virginiana que não acredita em astrologia
Há uma ânsia por amor
E essa se revela
Na contradição do grito
Que sai da boca da mulher
Entre o lamber do desejo
E gemidos capturados
Pelo labirinto coclear
Membranas atravessadas
Pelo chá de camomila
Acalma, desorienta, germina o ardor
Quando, na verdade
Se deve ler: o amor
Me alimento do desamor
E da descrença em amar
Transito na estrada
Do auto-ódio
E repulsa por mim
Caminho para a frustração
Tábua Prego Tábua
Prego Prego
Tábua Tábua
Prego Prego
Tábua Tábua
A ponte entre mim
E o amor, se constrói
Entre questionamentos
Inseguranças
& dilacerações
Sobra pouco espaço
Para pisar com segurança
O amor é para quem não analisa
E eu sempre fui virginiana demais
Seria esquizofrênico se eu não fosse tantas de mim
Não é por você
Que meu corpo grita
O grito brota de mim
Sai estridente
Vergonhosamente afoito
Escavando em você
E outras tantas
Sem encontrar
Vou a procura
Daquilo que sei
Vou a caça
Daquilo que me é
Na ilusão de me achar
Em outras existências
Que nunca me tocaram
Me procuro em rostos alheios
Desejando que me reconheçam
De outras vidas
Mortes
E amores
Grito para redescobrir meu eu
O que sou quando estou só
Como pego em minha mão
E conduzo a mim mesma
No canto do sofá onde bate sol
Na parede branca
Uma sombra se forma
Espelhando meus movimentos
Ela me convida para um chá
Vivo dentro de um sonho
o sono entorpecente
vem para nos entreter
visões de um mundo
nos olhos de quem sonha
onde a aflição acaba
com o despertar
sonho
e sonhando
sei que estou sonhando
saio do sonho
transformado em pesadelo
com um beliscão
das realidades que me são entregues
uma permite que o sol queime a pele
e posso ao menos acompanhar
o movimento de rotação da Terra
junto aos ácaros do meu travesseiro
conto no relógio o tempo
que levarei para um novo despertar
dentro de uma existência programada
para sonhar