flora floema

flora floema

n. 1997 BR BR

n. 1997-09-08, Florinea

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Ainda crio verbos para você

Meu coração ainda me pede
Para descansar em sua última foto
Aguardo em bradicardia

Meus olhos em vermelho agudo
Não escondem nem acolhem
Embora formem profundos sentidos
Vistos, lidos e amanhecidos

Querendo se conjugar
Na saudade que
Fico a saudadear
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Poemas

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Ainda crio verbos para você

Meu coração ainda me pede
Para descansar em sua última foto
Aguardo em bradicardia

Meus olhos em vermelho agudo
Não escondem nem acolhem
Embora formem profundos sentidos
Vistos, lidos e amanhecidos

Querendo se conjugar
Na saudade que
Fico a saudadear
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Saudades

Parti você em pedaços desiguais
dispostos sobre a pilha de livros
metade deles é alucinação
a outra metade, assombros

Sobras revisitadas
que não são bem-vindas
embora repousem brutalmente
ao reconhecer o lugar

Dos dedos que jamais tocaram
a minha gélida estrutura celular
mas que floreiam antúrios
e cultivam saudades
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De ano novo vou querer um cabo de aço para me segurar

Um desafio astronômico
De mudar aquilo
Que eu queria que tivesse sido
E não foi
A Terra translacionou rápido demais
As rotações me nausearam

Todo esse movimento
Me afungentou
Para um canto de mim
Onde a gravidade é mais forte
E me puxa com força para o chão
Das lamentações e inaptidões

Meu desejo é flutuar
Ver de longe para adentrar
E descobrir tudo o que já conheço
Com outra retina, língua e pele
Experimentar a vida de fora
Ainda que eu esteja dentro
411

Hoje eu saio daqui carregando a minha cor

Um dia olharam para mim
Com dúvida
Chegaram mais perto
Examinaram bem
Usaram até fita métrica
Na curvatura dos meus cachos
Na minha boca
Em meu nariz
Com uma paleta de cores
Sobrepuseram a minha pele
O júri se reuniu
Distante do meu cheiro
E da minha humanidade
Ao fundo cochichos
“ela não é como eles,
mas evidente que não é como
nós”
312

Açude nordestino

Tenho 23 anos e não sei nadar
Me recordo dos dias no sertão
Em que me banhava no raso do açúde
Aos pulos me pensava nadante
Enquanto meus pés ressentidos tocavam o chão

Banhos dançantes com tilápias e camarões
Saía de lá os carregando comigo
Aprisionados na louça de minha mãe
Que ajoelhada se dedicava a ariar
Bacia de ferro, meia dúzia de pratos e copos
Na beirada arenosa do açúde
Redemoinhos, risos e respingos

Da água funda minha irmã acenava
Como quem faz convite para aprofundar
O medo de queimar me hesitava
Minha mãe fora d'água não me enxergava
O lugar seguro me oferecia solidão

Aprendi que no fundo
A gente se afoga
E no raso a gente duvida
Se vai ter alguém olhando
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Casualmente fui até mim

Movida pelos próprios pés 
que não sabem como percorrer
as avenidas e travessias
asfaltadas pelo coração

Caminhando invoco o poder
de quem eu pretendi ser
dissolvo em água as muitas de mim
agito e me banho delas
298

Seria esquizofrênico se eu não fosse tantas de mim

Não é por você
Que meu corpo grita
O grito brota de mim
Sai estridente
Vergonhosamente afoito
Escavando em você
E outras tantas
Sem encontrar

Vou a procura
Daquilo que sei
Vou a caça
Daquilo que me é
Na ilusão de me achar
Em outras existências
Que nunca me tocaram

Me procuro em rostos alheios
Desejando que me reconheçam
De outras vidas
Mortes
E amores

Grito para redescobrir meu eu
O que sou quando estou só
Como pego em minha mão
E conduzo a mim mesma
No canto do sofá onde bate sol

Na parede branca
Uma sombra se forma
Espelhando meus movimentos
Ela me convida para um chá
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TOC TOC TOC

no meio da noite
o vazio
insinuando-se
pela porta fechada

penso:
aqui estou eu
você não pode invadir
de dentro
e me arrancar lágrimas

que secam
pela ação do tempo
o sofrimento lancinante
não perdura
mas sufoca

sigo caminhando
dou conta de só pisar
entre as linhas da calçada
Tempestuosa
Oblitero
Continuamente
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No meu imaginar a gente existe ou é

Sentada em frente a nossa escrivaninha
Escrevo memórias
De um amor
Que nunca aconteceu

Você me fita contemplativa
Sinto o calor
De um olhar
Que nunca me alcançou

Performo uma imagem
De cores, cheiros e sabores
Os quais nunca sentirei
Acordada
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Madrugada

Alucino um bocejo
Que me diz
Hoje o tempo acabou
Sobrevive amanhã
Agora você pode
Partir
197

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