flora floema

flora floema

n. 1997 BR BR

n. 1997-09-08, Florinea

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Saudades

Parti você em pedaços desiguais
dispostos sobre a pilha de livros
metade deles é alucinação
a outra metade, assombros

Sobras revisitadas
que não são bem-vindas
embora repousem brutalmente
ao reconhecer o lugar

Dos dedos que jamais tocaram
a minha gélida estrutura celular
mas que floreiam antúrios
e cultivam saudades
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Poemas

57

A escrita desenha a minha solidão

A escrita desenha a minha solidão
Em formas assimétricas
Não há encaixe
Só tentativas de preenchimentos

Busco a fuga no adormecer
Desejo o despertar da manhã
Para no abrir de pálpebras
Me pensar sem dor
377

Úmido Desejo

Dos teus olhos alagados
Obtém-se a sede
Da tua voz
O canto feliz do pássaro engaiolado
Da tua boca
O meu desejo efervescente
De te sentir mulher
Molhada, nua
Suada, quente
227

Anemocoria

O vento convida a árvore para dançar
Ela se move cambaleante
Séssil e aprisionada pela calçada
Ainda se pensa errante

Envolvida pelos movimentos
Vê suas sementes caírem ao chão
E flutuarem distante em ritmo lento
Para outros solos que as acolherão

Tudo ensaiado previamente
Cada passo estudado pelo acordo do tempo
Não há ressentimentos em suas partilhas
O vento cumpre seu papel
De fazer da árvore dispersora de vida
325

Asfixia

Asfixiada por quem disse
Que jamais colocaria as mãos
Em minha garganta
Ela queima, estilhaça
Faz de mim cacos pontiagudos

Com as mãos dilaceradas
Recolho o que sobrou de nós
Cansada de arder
Me deito sobre o chão ensanguentado
A espera da dor coagular
343

Ao pôr do sol a vida é tão sofrida

escrevo quando parece
que tudo
o enorme nada
vai ruir, desmoronar
e me fragmentar em pedacinhos
granulados de mim

passeando pela praça
entre meia dúzia
de árvores da família Fabaceae
reflito

ao pôr do sol
a vida é tão sofrida
tão saturada
mas também tão sexy

num sábado que tudo abala
até quando você insiste
em ser inabalável
quando te atingem
com tapas, tomates e tiros
você diz
"está tudo bem aqui"

você se distrai
assiste, lê, ouve
emudece o barulho
que transcende
a própria fisiologia
o som não se propaga
no vácuo desse espaço

o ambiente amarelo
vestígio do dia quente
faz querer viver
e me lembra que não tenho vida

só existo enquanto escrevo
palavras vazias
e sem sentido
dançam, se conectam
e criam narrativas
fictícias e reais

se enlaçam entre os meu dedos
formando uma sopa de letrinhas
onde se lê "eu-lírico"
engulo tudo
335

Entretenimento

Tudo se deteriora
Nessa condição
De vida morna
Na TV
Vozes
Que soam como ruídos

O barulho
É escape sonoro
E afugenta
Minhas lágrimas
440

Precisamos falar sobre a raiva

Aquilo que é de mais difícil admissão
Duro, rígido, solidificado feito concreto
A raiva pelo rosto da mulher
Que se assemelha ao meu

Disputamos pequenos espaços
Pois não nos permitem coexistir
Como ousa roubar meus traços?
Por que me vende um espelho?
E por que odeio a imagem que ele reflete?

Porque sou eu
Porque sou você
Porque nós somos
Aquelas não-brancas
A negação de tudo que é belo

Por que elas não olham nos meus olhos?
Por que não me escolhem?
Por que tenho medo delas?

Porque duvido de tudo
Porque não sou escura o bastante
Porque não sou clara o suficiente
Porque não tenho chão para pisar
Porque não pertenço a grupo algum
Porque nenhum deles me quer
Porque a cor é toda errada

Carrego junto dela o privilégio
Da manhã
E as absurdas violências
Da noite

Mas eu vivo o dia todo, não vivo?
Não escolho um período para existir
Sou dia e noite
Noite o bastante para desagradar o dia
Dia demais para ser acolhida pela noite

No meio disso tudo
O que sinto é raiva
Da minha incompletude
De quem me criou incompleta
Daqueles que desenharam
O incompleto do meu corpo
E multiplicaram o meu rosto
Em tantas mil mulheres

Que me fazem lembrar
Da minha raiva
Expressa em cada linha angular
Que vem e vai
Do fio de cabelo a
Gengiva escura
212

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