flora floema

flora floema

n. 1997 BR BR

n. 1997-09-08, Florinea

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Ainda crio verbos para você

Meu coração ainda me pede
Para descansar em sua última foto
Aguardo em bradicardia

Meus olhos em vermelho agudo
Não escondem nem acolhem
Embora formem profundos sentidos
Vistos, lidos e amanhecidos

Querendo se conjugar
Na saudade que
Fico a saudadear
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Poemas

57

Gemido do coração

Grita em mim
Uma ânsia pelo toque
De recolher
Para dentro
Dois dedos
E a sua boca
Que não me chama
Quente
Tateia minha vulva
Com a língua
Lambe meu aguar
Entre córregos
Atravessando montes
Pubianos
Sente o cheiro
Da chuva ácida
Beija interno
O osso
Esterno
E me fode
O que pulsa
205

Por que haveria de ser mais que um dia?

Capturar essa brisa
Que passa entre os dedos
Escolher permanecer
E observar o eriçar dos pelos

Compreender
O que o céu nublado
Tem a dizer

No espaço entre as nuvens
Ouvir um sussurrar
De algo mudo

O dia é um encaixar de 24h
E mais alguns minutos
Dispostos num tempo
Em que um é dia
E outro noite
136

Daquele dia em que marquei de te ver por acaso

me programo toda noite
há duas semanas
para encontrar com você
acordada ou dormindo
nós duas
ocupando o mesmo espaço
em tempos diferentes

como um reflexo
minha mão se entrelaça na sua
você me olha confusa
e o amor parece brotar do cimento
as raízes logo invadem
a calçada da loja onde nos esbarramos

você me diz que precisa ir
eu digo que foi bom te ver
sussurro em seu ouvido
que nossos caminhos
se cruzaram novamente

destino
ou
planejamento estratégico?
333

Menstruação

Traçar as letras que ditam
as banalidades da vida
sobre como sangra
esse meu corpo de mulher
todo mês

Carregar gramas de ferro e hemácias
depositar na calcinha
contorcer-se até pensar
"queria ser homem por um dia"

Minha biologia lamenta
todo dia 9
por aprisionar um órgão
causa de vida
e de certo
da minha morte

banalidades.
194

Afrobege

Em você encontrei
Um rosto que também é meu
E nele a cor do pecado
Que nos amaldiçoou

Nossas paletas conectam-se
Enxergo em você
A beleza em mim
Genuína e escura

Com você compreendi
Nenhum branco entenderá
O peso dessa dor
De não pertencer a canto nenhum

Sermos nós seres
Frutos de um experimento
Genocídio falhado
Pois nos empretecemos

Da cor errada
Fomos corrigidas
Mas nossas bocas foram esculpidas
Por mulheres imbuídas de dor
Nossas vulvas sombreadas
Ainda são enojadas

A você entrego meu corpo melânico
Nos entrelaçamos em curvas ancestrais
Em caminhos abertos
Seremos escuridão

Embebida de força
Nossas cores se convidam
A nos acolhermos
Em dores e abraços

Esses versos saem de mim
A procura de você
Para dizer
Te envolvo, minha afrobege
383

Cadê os campos e animais daqui?

Eu gostaria que minha poesia
fosse bucólica
sincretizar pombos
andorinhas e urubus
unir o movimento das folhas
da árvore que me sombreia
ao movimento das asas das aves

é cadarço
amarrar e fazer um laço
tento
não consigo
dou nó
dos pés tortos originam o tropeço

escrevo sem ver o mundo lá fora
escrevo olhando para dentro
onde só tem
órgãos, sangue e
abstração
398

Sujeito que é escrito

Com a caneta na mão
Sou um ser atravessado
Por uma urgência
Em ser papel
Alma celulósica

As palavras que correm na folha
Não sou eu que as conduzo
Elas tomam minha mão
E pintam em linhas
Pensamentos abstratos

As deixo soltas
De um modo que nunca fui
Ritualizo minha imagem nelas
Me imagino livre
Desconexa
183

Posso ler as linhas da sua mão

Marco as minhas digitais
Nas folhas de papel
Que irão tocar você
Para que assim
O [nosso] toque
Se faça
No vão das linhas
Dos meu dedos
Que vão de encontro
Aos seus
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Insônia

Você me deixou insone
Afogada em arrependimentos
Meus pulmões queimam
Suplico pelo ar

Você me ajuda
Com suas palavras sufocantes

E me diz que eu deveria saber
Enquanto sou surpreendida pela eutanásia
362

Anemocoria

O vento convida a árvore para dançar
Ela se move cambaleante
Séssil e aprisionada pela calçada
Ainda se pensa errante

Envolvida pelos movimentos
Vê suas sementes caírem ao chão
E flutuarem distante em ritmo lento
Para outros solos que as acolherão

Tudo ensaiado previamente
Cada passo estudado pelo acordo do tempo
Não há ressentimentos em suas partilhas
O vento cumpre seu papel
De fazer da árvore dispersora de vida
321

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