flora floema

flora floema

n. 1997 BR BR

n. 1997-09-08, Florinea

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Saudades

Parti você em pedaços desiguais
dispostos sobre a pilha de livros
metade deles é alucinação
a outra metade, assombros

Sobras revisitadas
que não são bem-vindas
embora repousem brutalmente
ao reconhecer o lugar

Dos dedos que jamais tocaram
a minha gélida estrutura celular
mas que floreiam antúrios
e cultivam saudades
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Poemas

57

Indelicada é a vida

indelicada vida
obtém da gente
medo
mesquinharias
e ainda ameaça
com a sua ausência

indelicada vida
seus modos ultrajantes
nos obrigam a gratidão
quando caímos ao chão
ela esconde o band-aid

indelicada vida
jogadas perigosas
nos fazem sorrir
ao imaginar o cenário
da vitória sem ela
descanso
silêncio
paz

indelicada vida
nos últimos 45 minutos
do fim da sua presença
nós pediremos por mais
219

Nó desaguar

Forçada a falar
Sobrecarrego
Língua
E vértebras
Que me mantém
Em pé
Fujo
Logo me procuram
O silêncio
Não me é permitido
Lamento
Por não poder
Não ser
192

Você fodeu a minha cabeça

Você envolta pela toalha
recém saída do banho
estimulava meu olfato
com o cheiro de sabonete
na sua pele macia
provocava arrepios
na minha

eu vinda do sol
você vinda da lua
não conseguíamos coexistir
sua dependência
apagou minha luz
acabamos ambas
na escuridão

seus olhos de harpia
me avistaram a anos-luz
em diferentes dimensões
com o bico pontiagudo
perfurou os meus olhos

cega
não vi você
arrancando de dentro de mim
meu ser comigo mesma
minha liberdade em vísceras
minha autoestima coagulada

pedaço por pedaço
você foi me consumindo
enquanto eu dizia
me coma

você me fodeu
e eu sequer gozei
141

Micorrizas são fungos associados a raízes

estou em arrepios
o corpo tocado
por formigamentos
entre extremos

causas múltiplas
a perda de algo
o desejo por alguém
a aniquilação de si mesma

micorrizas nutrem
o novo
e sustentam
o que já estava
instalado

a gestão desse espaço agricultável
frutifica o que me parece um desafio
acidificando o pH do solo
para possibilitar a fuga do tempo
com beijos incompletos
e uma história de amor
entre simbiontes
222

Botânica

Perceber brotar
Um pensamento
E não fugir
Deixar germinar

Ser a coifa
Do meu meristema
   A
      P
        I
         C
           A
Radicu(L)ar

Conceber em epiderme
Estratos de mim
Totipotentes
No aguardo de um sinal
414

Da palavra brotou uma clareira

Sentir a força do sentido
penetrando em mim
abrindo a chutes
caminhos largos
formando clareiras
da luz que emana
de cada palavra lida
361

Ensurdecedor

O barulho que ela ouve
sente quente atrás da orelha
chega como um sussurro
a mil decibéis

A acumulação é a origem
sua cor é chave
mas ela não está preparada
cobre os ouvidos
com algodão macio

No trabalho
o zumbido estridente
a fere
os colegas a olham
homens e mulheres sulfites
em suas expressões
in(diferença)

Nela
choro de fio contorcido
da gargantilha que arranha
e destrói cada anel cartilaginoso
de sua traqueia
antes da morte
eles desejam
calar a sua voz

Tudo sangra
a garganta
os ouvidos
vem de
vermelho vivo

O sangue não estanca
a fúria não coagula
ela tinha acabado de descobrir
e então grita
pós-morte
273

No meu imaginar a gente existe ou é

Sentada em frente a nossa escrivaninha
Escrevo memórias
De um amor
Que nunca aconteceu

Você me fita contemplativa
Sinto o calor
De um olhar
Que nunca me alcançou

Performo uma imagem
De cores, cheiros e sabores
Os quais nunca sentirei
Acordada
200

Virginiana que não acredita em astrologia

Há uma ânsia por amor
E essa se revela
Na contradição do grito
Que sai da boca da mulher
Entre o lamber do desejo
E gemidos capturados
Pelo labirinto coclear

Membranas atravessadas
Pelo chá de camomila
Acalma, desorienta, germina o ardor
Quando, na verdade
Se deve ler: o amor

Me alimento do desamor
E da descrença em amar
Transito na estrada
Do auto-ódio
E repulsa por mim

Caminho para a frustração

                     Tábua Prego Tábua
             Prego                            Prego
         Tábua                                    Tábua
     Prego                                              Prego
Tábua                                                      Tábua


A ponte entre mim
E o amor, se constrói
Entre questionamentos
Inseguranças
& dilacerações

Sobra pouco espaço
Para pisar com segurança
O amor é para quem não analisa
E eu sempre fui virginiana demais
254

Quantas ml tem um amor?

Poema fruto
Do amor
Que desama
Sempre que
Parece amar

Bola de gude
Me fita
Sinto a sina
Da destreza
Em sua mão

Você me faz
Engolir a seco
A poesia
Não sobra nada
Além desses versos
Fra(s)cos
211

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