Lista de Poemas

A Cartografia do sorriso

As linhas do seu sorriso
Traçam a cartografia
Do perigo
De grito
Desejo

Receio o declive abrupto
Percorro a pressas
Planícies
Por onde não há tropeço
231

Domingo

Poetizar os dias
alivia o peso do nada
do tédio que gruda
feito líquen

Emerge feito coisa leve
logo a dor
que é densa
e não afrouxa

Puxa fios de sentido
nesse novelo impaciente
que sai da minha epiderme
arrepio de cotidiano
e vida
317

Daquele dia em que marquei de te ver por acaso

me programo toda noite
há duas semanas
para encontrar com você
acordada ou dormindo
nós duas
ocupando o mesmo espaço
em tempos diferentes

como um reflexo
minha mão se entrelaça na sua
você me olha confusa
e o amor parece brotar do cimento
as raízes logo invadem
a calçada da loja onde nos esbarramos

você me diz que precisa ir
eu digo que foi bom te ver
sussurro em seu ouvido
que nossos caminhos
se cruzaram novamente

destino
ou
planejamento estratégico?
323

Espirro para dentro

sinto dor
e não sei se é fisiológico
ou fruto da invenção
de quem já não quer mais viver
dentro desse corpo

faço leituras profundas
dos corpos alheios
sempre os atribuindo beleza
alimento e pulverizo

mas olho para mim
e a mente ruidosa
se traduz em desacordo
pede desapropriação corporal

não resisto
ouço chamar
não temo
sorrio dizendo:
"derrube, fragmente,
me cause demolição"

sou só poeira
ATCHIM
330

Eu preciso do mesmo combustível de um balão

tudo o que vejo pela minha janela
cheira a poesia
do filhote de pardal na torre da igreja
ao balançar de folhas nas copas das árvores

o céu nublado assombra
arrasta melancolia
me desfaço em nós
e prossigo íntegra

nas mãos
poemas de Maya Angelou
busco sentidos
palavras tangíveis
que caibam em mim
provoquem combustão

expandam meu ser polimerizado
como um balão
276

Seria esquizofrênico se eu não fosse tantas de mim

Não é por você
Que meu corpo grita
O grito brota de mim
Sai estridente
Vergonhosamente afoito
Escavando em você
E outras tantas
Sem encontrar

Vou a procura
Daquilo que sei
Vou a caça
Daquilo que me é
Na ilusão de me achar
Em outras existências
Que nunca me tocaram

Me procuro em rostos alheios
Desejando que me reconheçam
De outras vidas
Mortes
E amores

Grito para redescobrir meu eu
O que sou quando estou só
Como pego em minha mão
E conduzo a mim mesma
No canto do sofá onde bate sol

Na parede branca
Uma sombra se forma
Espelhando meus movimentos
Ela me convida para um chá
165

A última vez que amei

Asfixiar todas as inseguranças
Nas moléculas de celulose
Com caneta preta de ponta fina

Fazer tributo às árvores
Com as palavras
Da língua mãe
Desenhadas no papel

Que irão destrinchar
Dúvidas
Dívidas
Dores

Das conversas
Que não ocorreram
O silêncio

Dos toques
A pulsação

Das vozes
O último "eu te amo"
Sem adeus
367

Os olhos azuis dela

Emudeço
Quando tento balbuciar
O efeito do seu olhar
Sobre mim
Para além de mim

Olhar que atravessa minhas barreiras
E impregna receio de sua leitura
Olhos que personificam um oceano azul
Que me banha da cabeça aos pés

Em dias tranquilos a água espelha o céu pela manhã
Em dias de mar revolto
Grandes algas verdes emergem a superfície do mar
Observo as ondas com resignação

As vejo chocarem-se contra meu solo
Arrastando uma camada fina de mim
Para outros mares, rios e lagos
De onde irão precipitar
E retornar para o oceano dos seus olhos
188

Da palavra brotou uma clareira

Sentir a força do sentido
penetrando em mim
abrindo a chutes
caminhos largos
formando clareiras
da luz que emana
de cada palavra lida
349

Menstruação

Traçar as letras que ditam
as banalidades da vida
sobre como sangra
esse meu corpo de mulher
todo mês

Carregar gramas de ferro e hemácias
depositar na calcinha
contorcer-se até pensar
"queria ser homem por um dia"

Minha biologia lamenta
todo dia 9
por aprisionar um órgão
causa de vida
e de certo
da minha morte

banalidades.
185

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