flora floema

flora floema

n. 1997 BR BR

n. 1997-09-08, Florinea

Perfil
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Ainda crio verbos para você

Meu coração ainda me pede
Para descansar em sua última foto
Aguardo em bradicardia

Meus olhos em vermelho agudo
Não escondem nem acolhem
Embora formem profundos sentidos
Vistos, lidos e amanhecidos

Querendo se conjugar
Na saudade que
Fico a saudadear
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Poemas

57

Sujeito que é escrito

Com a caneta na mão
Sou um ser atravessado
Por uma urgência
Em ser papel
Alma celulósica

As palavras que correm na folha
Não sou eu que as conduzo
Elas tomam minha mão
E pintam em linhas
Pensamentos abstratos

As deixo soltas
De um modo que nunca fui
Ritualizo minha imagem nelas
Me imagino livre
Desconexa
187

Coordenadas do desejo

Estes pontos pintam
Pintas que são pistas
Para chegar ao destino
Que se faz desnudo

A primeira pista pinta
Uma estrada em zigue-zague
Apresenta giros e curvas
Ordena passagem

A segunda pista pinta
Um quadro úmido
Que se emoldura com a língua
Dura

A terceira pista pinta
Linhas convexas
Que conectam-se
Boca a boca

A quarta pista pinta
O que se vê na penumbra
Enquanto tateia o caminho
Subvertido em saliva

A quinta pista pinta
Uma paisagem quente
Que desemboca no Éden
Das sensações e sabores

Não pinta a sexta pista
O destino abre-se
Enquanto sussurra
"Vem"

Pincelo em primeira pessoa
O meu desaguar
Em seu aguar
Para virarmos mar
401

Nó desaguar

Forçada a falar
Sobrecarrego
Língua
E vértebras
Que me mantém
Em pé
Fujo
Logo me procuram
O silêncio
Não me é permitido
Lamento
Por não poder
Não ser
192

Da sua boca brotou poesia dolorida: em mim

No momento certo
Você me envolveu com suas fibras
Eu impregnada de lignina
Dura, oca, vazia
Amei quando sequer
Havia amor em mim

Agora somos
Nós frouxos
Em nossas fotos
As cordas se emaranham
Apertam firmemente
Na intenção de conter

A cada visita que faço a elas
Mais difícil e tumultuoso
O desatar dos nós
Mais sinuoso o caminho de volta

Me deixa em carne viva
A saudade da sua boca
Tornou meus pelos eretos
Em constante alerta

Quando existo
Em seu esquecimento
Minha vida em outra se faz
Quando existo
Em sua lembrança
O mar dos meus olhos
Insistem em retornar
Para o oceano dos seus
E arde
Essa água salgada
Sobre a minha pele

As mãos brancas
Que me tocavam
Retirou abruptamente
Meu amor por nós
Sem considerar as raízes

Restou
Do seu amor por mim
E do meu amor por você
A distância
De 384.400 km

Como se a lua
Cumprimentasse
A Terra
329

Gemido do coração

Grita em mim
Uma ânsia pelo toque
De recolher
Para dentro
Dois dedos
E a sua boca
Que não me chama
Quente
Tateia minha vulva
Com a língua
Lambe meu aguar
Entre córregos
Atravessando montes
Pubianos
Sente o cheiro
Da chuva ácida
Beija interno
O osso
Esterno
E me fode
O que pulsa
210

Seria esquizofrênico se eu não fosse tantas de mim

Não é por você
Que meu corpo grita
O grito brota de mim
Sai estridente
Vergonhosamente afoito
Escavando em você
E outras tantas
Sem encontrar

Vou a procura
Daquilo que sei
Vou a caça
Daquilo que me é
Na ilusão de me achar
Em outras existências
Que nunca me tocaram

Me procuro em rostos alheios
Desejando que me reconheçam
De outras vidas
Mortes
E amores

Grito para redescobrir meu eu
O que sou quando estou só
Como pego em minha mão
E conduzo a mim mesma
No canto do sofá onde bate sol

Na parede branca
Uma sombra se forma
Espelhando meus movimentos
Ela me convida para um chá
137

No meu imaginar a gente existe ou é

Sentada em frente a nossa escrivaninha
Escrevo memórias
De um amor
Que nunca aconteceu

Você me fita contemplativa
Sinto o calor
De um olhar
Que nunca me alcançou

Performo uma imagem
De cores, cheiros e sabores
Os quais nunca sentirei
Acordada
200

Li a placa de perigo e avancei

A perda de algo
que nunca possuí
noticiada em arrepios pelo corpo
vulto contorcido, quente
ereto
como se quisesse esvair
das fronteiras corporais
de onde o toque pungido
sangra a pele

do abandono crepitante
se forma o sofrido gemido
do gozo sentido
esqueço seu nome
volto para casa
em estalos
você é brasa
que não queima
evapora
120

Domingo

Poetizar os dias
alivia o peso do nada
do tédio que gruda
feito líquen

Emerge feito coisa leve
logo a dor
que é densa
e não afrouxa

Puxa fios de sentido
nesse novelo impaciente
que sai da minha epiderme
arrepio de cotidiano
e vida
330

A Cartografia do sorriso

As linhas do seu sorriso
Traçam a cartografia
Do perigo
De grito
Desejo

Receio o declive abrupto
Percorro a pressas
Planícies
Por onde não há tropeço
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