Lista de Poemas

Afrobege

Em você encontrei
Um rosto que também é meu
E nele a cor do pecado
Que nos amaldiçoou

Nossas paletas conectam-se
Enxergo em você
A beleza em mim
Genuína e escura

Com você compreendi
Nenhum branco entenderá
O peso dessa dor
De não pertencer a canto nenhum

Sermos nós seres
Frutos de um experimento
Genocídio falhado
Pois nos empretecemos

Da cor errada
Fomos corrigidas
Mas nossas bocas foram esculpidas
Por mulheres imbuídas de dor
Nossas vulvas sombreadas
Ainda são enojadas

A você entrego meu corpo melânico
Nos entrelaçamos em curvas ancestrais
Em caminhos abertos
Seremos escuridão

Embebida de força
Nossas cores se convidam
A nos acolhermos
Em dores e abraços

Esses versos saem de mim
A procura de você
Para dizer
Te envolvo, minha afrobege
370

Madrugada

Alucino um bocejo
Que me diz
Hoje o tempo acabou
Sobrevive amanhã
Agora você pode
Partir
188

Coordenadas do desejo

Estes pontos pintam
Pintas que são pistas
Para chegar ao destino
Que se faz desnudo

A primeira pista pinta
Uma estrada em zigue-zague
Apresenta giros e curvas
Ordena passagem

A segunda pista pinta
Um quadro úmido
Que se emoldura com a língua
Dura

A terceira pista pinta
Linhas convexas
Que conectam-se
Boca a boca

A quarta pista pinta
O que se vê na penumbra
Enquanto tateia o caminho
Subvertido em saliva

A quinta pista pinta
Uma paisagem quente
Que desemboca no Éden
Das sensações e sabores

Não pinta a sexta pista
O destino abre-se
Enquanto sussurra
"Vem"

Pincelo em primeira pessoa
O meu desaguar
Em seu aguar
Para virarmos mar
384

Sujeito que é escrito

Com a caneta na mão
Sou um ser atravessado
Por uma urgência
Em ser papel
Alma celulósica

As palavras que correm na folha
Não sou eu que as conduzo
Elas tomam minha mão
E pintam em linhas
Pensamentos abstratos

As deixo soltas
De um modo que nunca fui
Ritualizo minha imagem nelas
Me imagino livre
Desconexa
172

Todo fim de poema

Grito a raiva
Exponho a fúria
Firmo os dedos
Que me curam

Após sovar o fim do poema
Sedimento contemplação
Fermento euforia
Acidifico essa
Indizível
Sensação
135

Você fodeu a minha cabeça

Você envolta pela toalha
recém saída do banho
estimulava meu olfato
com o cheiro de sabonete
na sua pele macia
provocava arrepios
na minha

eu vinda do sol
você vinda da lua
não conseguíamos coexistir
sua dependência
apagou minha luz
acabamos ambas
na escuridão

seus olhos de harpia
me avistaram a anos-luz
em diferentes dimensões
com o bico pontiagudo
perfurou os meus olhos

cega
não vi você
arrancando de dentro de mim
meu ser comigo mesma
minha liberdade em vísceras
minha autoestima coagulada

pedaço por pedaço
você foi me consumindo
enquanto eu dizia
me coma

você me fodeu
e eu sequer gozei
125

Vivo dentro de um sonho

o sono entorpecente
vem para nos entreter
visões de um mundo
nos olhos de quem sonha
onde a aflição acaba
com o despertar

sonho
e sonhando
sei que estou sonhando
saio do sonho
transformado em pesadelo
com um beliscão

das realidades que me são entregues
uma permite que o sol queime a pele
e posso ao menos acompanhar
o movimento de rotação da Terra

junto aos ácaros do meu travesseiro
conto no relógio o tempo
que levarei para um novo despertar
dentro de uma existência programada
para sonhar
111

Botânica

Perceber brotar
Um pensamento
E não fugir
Deixar germinar

Ser a coifa
Do meu meristema
   A
      P
        I
         C
           A
Radicu(L)ar

Conceber em epiderme
Estratos de mim
Totipotentes
No aguardo de um sinal
400

Nó desaguar

Forçada a falar
Sobrecarrego
Língua
E vértebras
Que me mantém
Em pé
Fujo
Logo me procuram
O silêncio
Não me é permitido
Lamento
Por não poder
Não ser
177

Cadê os campos e animais daqui?

Eu gostaria que minha poesia
fosse bucólica
sincretizar pombos
andorinhas e urubus
unir o movimento das folhas
da árvore que me sombreia
ao movimento das asas das aves

é cadarço
amarrar e fazer um laço
tento
não consigo
dou nó
dos pés tortos originam o tropeço

escrevo sem ver o mundo lá fora
escrevo olhando para dentro
onde só tem
órgãos, sangue e
abstração
390

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